CRÍTICA | A Origem dos Guardiões

Animações
// 02/12/2012

Com um verdadeiro atraso, a crítica de A Origem dos Guardiões já está disponível no Pipoca Combo. A animação, produzida por Guiulhermo del Toro, tem verdadeiros atrativos, como o bom (só bom) 3D e a qualidade dos ambientes e de sequências mais agitadas. Mas a mensagem é bastante rasa para que o filme merece um espaço para si mesma na memória.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

A Origem dos Guardiões
por Arthur Melo 

Há uma verdade inconveniente nesta época do ano: filmes natalinos. Apelativos mesmo que indiretamente para o tino consumista – uma das nuances humanas mais comuns – os dramas da época se resumem a histórias fracas nas quais uma data cristã é diminuída a um simbolismo raso de ganhar presentes. Religiosidades à parte, bem ou mal, esse tipo de história colabora para a perda de valores importantes e têm maior efeito nas mentes infantis. Mais frágeis e em formato de esponja, absorvem o que veem e convertem em ações futuras. Esse é o único problema de A Origem dos Guardiões, mas, sob outra ótica, é também sua mensagem mais produtiva.

Na trama, Papai Noel, Coelhinho da Páscoa, Fada do Dente e Sandman, os mais populares personagens lendários da cultura mundial, ocupam seu tempo trabalhando à maneira pela qual são conhecidos: entregando presentes em 25 de dezembro, ovos durante a Páscoa, recolhendo dentes-de-leite em troca de lembrancinhas e definindo os bons sonhos durante o sono, respectivamente. É ao realizarem bem suas tarefas que os quatro renovam a fé das crianças por eles, garantindo a manutenção de suas forças (o que implica na possibilidade de a criança que acreditar piamente em suas existências os verem se estiver diante de algum). Neste contexto, o espírito maligno Breu (o Bicho-Papão) deseja transformar os sonhos das crianças em pesadelos, roubar os dentes das fadas e sabotar a Páscoa, a fim de que a fé seja perdida, os Guardiões – como é chamado o time formado pelos tais personagens lendários – percam seus poderes e suas forças sejam restauradas para dominar o mundo. Para impedi-lo, os quatro precisarão contar com a ajuda de Jack Frost, um menino que há centenas de anos faleceu e hoje é o responsável por comandar o frio, a neve e outros fenômenos climáticos similares – e que, na história, também faz parte da fantasia popular, mas sem a fé das crianças ao seu lado e, assim, invisível.

O desenvolvimento de A Origem dos Guardiões é muito rápido. Frost é apresentado logo na abertura do longa por ele mesmo, contando sua breve história a partir do exato momento em que renasceu como o espírito que é. Manobra clássica do roteiro para demarcar que, apesar de Jack ser o único personagem desconhecido para o público e dividir a tela com uma figura como o Papai Noel, é ele o protagonista da trama. Logo o conflito é surgido pela figura de Breu e toda a história se volta à tentativa do grupo dos Guardiões de convencer Jack Frost a entrar para o time. Em pouco tempo, o conto se mostra uma verdadeira salada de mesmices. Frost em dúvida sobre a validade de sua atuação nos Guardiões, suas tentativas de provar ter dignidade e, por fim, redenção. Tudo muito óbvio e salpicado pela presença de Jamie, um garoto cuja fé é inabalável, esperança dos Guardiões para o sucesso da missão de salvar o mundo da ameaça de Breu.

E eis que os problemas surgem. Toda a batalha entre o bem e o mal é, como sempre, passável. Entretanto, os motivos da existência desse duelo, aqui – como em tantos outros filmes dessa linha –, são questionáveis. A fé das crianças será extinta se seus desejos por recompensas em troca de um dente que caiu não sejam atendidos. Ou, ainda, se na Páscoa os ovos de chocolate não sejam entregues, assim como presentes (muitos deles ostensivos) ao pé da árvore de Natal. Os reais valores que deveriam ser passados entre as pessoas, para tais ocasiões, sequer são citados e a mensagem neste ponto do texto do filme é estúpida. Resta apenas para os sonhos (área de atuação do Sandman) serem transformados em pesadelos, evidenciando os medos e fraquezas humanas – a única parte desta etapa do argumento do filme com um mínimo de profundidade. Não é à toa que o tão inocente e aparentemente frágil Sandy se mostra em cenas de ação o mais impactante dos guardiões, cujas habilidades não só representam um grande empecilho para o mal, como também espetáculos visuais na tela. Mas a falha ainda está lá, visível nos olhos exageradamente emotivos de uma criança que beira o irritante de tão piegas que é em sua crença pelo Papai Noel e seus amigos em suas capacidades de trazerem a felicidade através de ganhos materiais. Claro, tudo muito maquiado pelo tom inocente, mas ainda assim presente.

A mão tendenciosa para a escrita do conteúdo do filme ao menos é compensada pela realização técnica. A Origem dos Guardiões tem, já à primeira vista, um tratamento de live-action, não de animação. A concepção de Breu/Bicho-Papão é estupenda. Do pó negro que foge de seu rosto, se concentrando gradativamente a partir do pescoço, aos olhos dourados e brilhantes que contrastam com sua pele acinzentada. Tudo é um acerto. Qualidades que se estendem às realizações físicas de seus pesadelos em forma de cavalos espectrais alados, formados por algo que relembra piche coberto por finos grãos negros que assumem cores vibrantes de acordo com o ângulo – um brilhantismo da computação gráfica que supera muita coisa realizada por longas vencedores de Oscars de Efeitos Visuais e colocam os Testrálios de Harry Potter em um patamar muito baixo. O mesmo pode ser dito dos poderes de Sandman, feitos pela mesma textura, mas com um intenso tom dourado. Aliás, é no combate corporal de Breu com Sandman que A Origem dos Guardiões entrega um dos melhores shows visuais já produzidos em animações, como o breve momento em que ambos irrompem em um prédio e a luta é acompanhada apenas pelas luzes de suas forças em choque, atravessando as janelas. Ou quando ambos atingem o céu noturno clareado pelo luar, que toma novas formas a partir das mesclagens de seus poderes e, quando se pensa que não pode melhorar, sofre a interferência de Jack Frost em mais complexidades da computação gráfica e bons enquadramentos que culminam em uma explosão de gelo e pó pelos ares – tudo potencializado pela fotografia virtual e um trabalho competente do 3D. O design de produção também embasbaca. As ideias para os cenários de cada um dos guardiões é primorosa, bem como os inúmeros jogos e efeitos de iluminação dos animadores, que tornam todos os ambientes do filme realísticos, inclusive aqueles que existem no mundo real e poderiam sofrer com a comparação, ainda mais quando misturados a elementos da fantasia – o jogo de luz e cores dos espectros à companhia de Breu ao alto de um prédio é sutil, mas certeiro. As linguagens corporais de Bicho-Papão dando uma resposta negativa a Jack Frost – e o próprio Frost se equilibrando sobre seu cajado – também chamam atenção.

Salvo especialmente pela dinâmica do grupo em tela, mas sofrido pelo teor de seu conteúdo, A Origem dos Guardiões, sob um ponto de vista menos duro – e que ignore alguns problemas neste quesito – possui uma mensagem menos oca. Induz a criança a crer nas possibilidades para que elas existam. E isso é bastante positivo. Entretanto, se vale da incredulidade de seu público para com os seus defeitos para garantir que ele não os veja. E, assim, esconde a real ideia que compra no meio de inocência e carisma. Resta a quem estiver mais acordado a tentar enxergá-los para, então, acreditar na existência deles. Mas, para isso, precisaria ir contra a única boa coisa que o longa tenta vender.

P.S.: A dublagem brasileira, principalmente a do ator Thiago Fragoso para o protagonista Jack Frost, é uma das melhores já realizadas por aqui.

——————————

Rise of the Guardians (EUA, 2012). Animação. DreamWorks Pictures
Direção: William Joyce e Peter Ramsey
Elenco de dublagem original: Chris Pine, Jude Law, Hugh Jackman, Isla Fisher

Comentários via Facebook
Categorias
Animações, Críticas