CRÍTICA: A Origem

Ação
// 04/08/2010

A princípio, o público não tinha a mais vaga ideia do que se tratava A Origem, o novo filme do diretor de Batman – O Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan.  Mas à medida que os comerciais de TV foram ganhando número e o trailer chegou a ser veiculado mais vezes nos cinemas, o interesse foi crescendo. A trama já começava a instigar. Após a estreia no circuito norte-americano, veio a explosão. Há semanas, o filme consta nos Trending Topics do Twitter, a lista de assuntos mais comentados no microblog, e só tem aumentado ainda mais a expectativa do público brasileiro.

Neta sexta-feira o filme desembarca por aqui, entregando um dos melhores projetos do cinema atual. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

A Origem
por Breno Ribeiro

Há alguns anos, o diretor Christopher Nolan teve a ideia de contar um filme que se passasse no mundo dos sonhos. Era uma produção de grandes proporções que precisaria de uma direção igualmente grandiosa, sem contar os custos. Com a ideia e já parte do roteiro pronta, Nolan se aventurou no mundo dos blockbusters, porém, primeiro com uma franquia já desgastada com o intuito de trazê-la de volta aos eixos. Surgia, então, Batman Begins e três anos depois sua colossal continuação, O Cavaleiro das Trevas, que se tornaria o filme mais rentável da carreira do diretor – seja pelo brilhantismo do filme em si ou pela presença do recém-morto Heath Ledger, que ganharia o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo seu papel como o Coringa. Já tendo se familiarizado com o mundo dos grandes filmes e conseguido uma popularidade que certamente lhe traria um financiamento considerável, Nolan conseguiria finalmente produzir seu sonho. E o sonho é real, com o novo filme do diretor, A Origem.

Por muito tempo, A Origem teve sua sinopse mantida sob total sigilo, até porque seria complicado fazer um resumo de duas ou três linhas de uma ideia tão complexa. O longa conta a história de Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) e seus companheiros que possuem a habilidade de adentrar na mente das pessoas através dos sonhos, com o intuito de roubar informações secretas. Contudo, depois de receber uma missão aparentemente impossível, Dom e sua equipe são obrigados a enfrentar não apenas as dificuldades do projeto, mas também o passado de seu chefe.

Como escrevi no Primeiras Impressões, o longa lida com conceitos complexos e grande parte dos dois primeiros atos se baseia em explicações e exemplos desses princípios. Entretanto, mesmo explicativa e didática, a primeira metade do filme não é nem um pouco cansativa. Pelo contrário. Adotando cenas rápidas e dinâmicas que vão de um ponto ao outro muito rápido e incluindo aqui e ali sequências de perseguição ou de pequenas revelações, o que seria, talvez nas mãos de outra pessoa, uma palestra sobre o mundo dos sonhos, se torna uma primeira metade interessante e dinâmica, que inclui ainda as preparações para a tal ‘missão impossível’. Já a segunda metade da projeção é o que realmente torna o filme o espetáculo que é. Não mais preocupado em reexplicar o que já fora previamente dito, Nolan joga os personagens em direção a tudo que ele antes demonstrara. As cenas de ação e as revelações finais são realizadas com total precisão com o que viera anteriormente e em nenhum momento soam soltas ou sem sentido (se você teve paciência de absorver tudo que veio antes).

As cenas de ação, assim como no filme anterior do diretor inglês, são realizadas quase sem a ajuda de efeitos computadorizados. Os efeitos especiais são usados apenas na construção de algumas passagens no mundo dos sonhos, ou seja, quando estritamente necessárias. Essa escolha do diretor em realizar grandes sequências sem o auxílio da computação gráfica e em planos quase sempre abertos traz um senso de realidade maior para as cenas, o que consequentemente auxilia na aproximação do público com o que acontece. Ainda, a falta de trilha em algumas passagens – que ajuda na percepção dos efeitos sonoros – compartilha para o alcance deste senso.

O elenco, assim como o roteiro, é brilhante. Leonardo DiCaprio, como o protagonista Dom Cobb, consegue dosar bem o maior desejo do personagem com seu passado obscuro e as sequelas que ele trouxe à sua personalidade. Ellen Page (Ariadne), Tom Hardy (Eames) e Ken Watanabe (Saito) trazem certa profundidade para personagens que são poucos explorados pelo roteiro, Marion Cotillard (Mal Cobb) surge perfeita como a esposa morta do personagem de DiCaprio e Michael Caine faz milagre – como sempre – com um personagem que aparece em apenas três cenas. O destaque do elenco, porém, recai sobre Joseph Gordon-Levitt (Arthur) que se sobressai sempre que surge em tela, seja demonstrando a seriedade de seu personagem nas cenas de ação, seja servindo de alívio cômico em algumas partes.

Com um elenco brilhante, um roteiro fechado e sem grandes falhas e uma direção impecável, A Origem já figura como um dos maiores filmes de ficção da década. Em um cenário cinematográfico onde a maioria dos blockbusters de ficção são baseados em obras de outras artes que já possuem um público determinado, isso não é muito difícil. Como Nolan já sabia, contudo, é que o mercado não está pronto para aceitar roteiros originais de ficção, uma vez que eles necessitam de uma grande quantidade de dinheiro para serem produzidos. Uma pena. Sorte nossa que Nolan conseguiu construir seu caminho pelo mundo do cinema e nos presentear com a sua melhor história até hoje.

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Inception (EUA, 2010). Ação. Ficção. Warner Bros. Pictures
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph-Gordon Levitt, Michael Caine

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