CRÍTICA | À Prova de Morte

Críticas
// 14/08/2010
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Quando a atualização de gêneros consagrados resulta autêntica, ao invés de mera cópia a morrer no cemitério do lugar-comum e do status quo? Quando um filme move o cinema ao futuro, como criação e interrogação, em vez de anular-se por si mesmo, como celebração vazia e regressiva do meio?

Uma das melhores respostas está em À Prova de Morte.

O sexto longa de Quentin Tarantino estreia nas salas brasileiras na segunda quinzena de julho. Até que enfim! Lançado em 2007 nos EUA, originalmente foi exibido em dobradinha com Planeta Terror, de Robert Rodriguez. Comprava-se o ingresso para assistir simultaneamente aos dois, intercalados por um trailer fake (Machete). A projeção casada somava 191 minutos, sob o título Grindhouse. Se, no passado, o formato duplo funcionava em salas americanas especializadas em filmes B (as grindhouses), parece não encontrar mais aceitação, diante das impacientes plateias de hoje. O fracasso de bilheteria forçou os produtores a relançá-los em separado. No Brasil, contudo, isso só aconteceu com o terror trash do diretor mexicano, que pelo menos chegou em DVD. À Prova de Morte nem isso.

Como na filmografia pregressa do cineasta, tem-se um filme explícito de gênero hollywodiano. Neste, paga-se tributo ao exploitation dos anos 1970, com os seus filmes B repletos de sexo e violência. Nesse sentido, Tarantino compõe o pastiche com personagens caricatos, papo-furado feminino, signos da cultura pop americana e muita ação automobilística. Privilegiam-se as motivações imediatas, as cores primárias, os lugares prosaicos e músicas populares da época: “Baby It´s You” (Burt Bacharach), “Down in Mexico” (The Coasters), “Hold Tight” (Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich), entre outras da inspirada trilha.

A temática é conhecida: psicopata sádico persegue gostosas para trucidá-las em cenas brutais. A câmera fetichista abusa nos closes em shortinhos apertados e pés desnudos, com direito à dança erótica (lap dance), e não poupa sanguinolência nas batidas. Kurt Russell é Stuntman Mike: ex-dublê machão, com cicatriz e tudo, que pilota um Dodge Challenger extraído diretamente de Corrida Contra o Destino (1971). Ao som de “The Last Race” (Jack Nitzsche) e “It´s So Easy” (Willy DeVille), o assassino ao volante escolhe “namoradas” pela cidade e as mata com o seu muscle car preto. O personagem sublima a falta de amor/sexo de belas mulheres por meio de perseguições e rachas excitantes. Para ele, o possante carro é como extensão do pênis, e não à toa deseja literalmente penetrar as mulheres com o veículo.

Para acentuar o efeito retrô, aparecem imagens riscadas, cortes descontínuos, planos perdidos, manchas brancas e pretas, interrupções do áudio e falhas de montagem. O procedimento também serve para desnarrativizar a história, como no primeiro Godard (cujo cinema também glorificava os carros): perturba o espectador e afirma a implicação do diretor/autor à obra. Isto fica claro no impressionante faux-raccord do principal acidente, quando se sucedem quatro cenas do mesmo acontecimento (o tempo da narrativa vai e volta), cada qual no ponto de vista de uma das vítimas trucidadas.

Entretanto, afora essa seqüência, À Prova de Morte é narrado de modo contínuo. Organizado como díptico, divide-se em duas partes de mesma estrutura de personagens e ação, que se antagonizam no desfecho. Se, na primeira, o psicopata motorizado é bem-sucedido em massacrar as três gostosas; na segunda, elas renascem na pele de outras atrizes, para, fortalecidas, vingar-se. Ao invés das modelinhos frívolas da primeira metade, e contrariando a expectativa, ingressam na história três garotas da pesada, duas negras e uma neozelandesa, que não hesitam em dar o troco quando fustigadas pelo Dodge Challenger.

Eis o tema tarantinesco da mulher poderosa, a exemplo de Jackie Brown (Pam Grier, no filme homônimo), Beatrix Kiddo (Uma Thurman, em Kill Bill) ou Shosana Dreyfus (Melanie Laurent, em Bastardos Inglórios). Todas elas se vingam de homens prepotentes e controladores. Encontram a grande alegria na degustação da pura vingança. Se não há moral no universo de Tarantino, existe uma ética da potência, na medida em que os personagens lutam por si mesmos, na relação de forças, para sobrepujar os agressores.

Mas onde Tarantino ultrapassa os lugares-comuns do gênero e entra no terreno da criação?

Na composição. Porque tudo nesse filme é um pouquinho diferente dos filmes B exploitation, um pouquinho que faz toda a diferença. Os diálogos são superficiais, mas envolventes. Os personagens são caricatos, porém sedutores. Os cenários são pop, mas também pop art, na invocação da participação do espectador, na desmistificação do bom-gosto e do sublime da arte clássica. Superficial, aliás, é a tônica warholiana de Tarantino, ao trilhar o caminho inverso da comunicação de massa. Se a sociedade capitalista se apropria e banaliza a arte, agora é ela quem rouba o capitalismo de seus ícones e produtos. Para recompô-los artisticamente contra o próprio sistema que os engendrou.

Portanto, À Prova de Morte abre mão de qualquer transcendência. Transcender o gênero seria perder a sua essência e, assim, a sua potência. O filme não adota o gênero para reeditar a história (farsa) ou para cultuar o cinema pelo cinema (religião). É da vitalidade escondida no gênero e seus lugares-comuns, na imanência da comunicação popular, que Tarantino abre o seu caminho na história para um cinema singular e potente.


Death Proof (EUA, 2007). Suspense. PlayArte.
Direção: Quentin Tarantino
Elenco:
Zoe Bell, Jordan Ladd, Marley Shelton, Rose McGowan, Mary Elizabeth Winstead, Quentin Tarantino, Rosario Dawson, Eli Roth, Kurt Russell

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Críticas, Suspense