CRÍTICA | A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2

Críticas
// 15/11/2012

Chega finalmente aos cinemas a conclusão da tão famosa Saga Crepúsculo. Possivelmente na última década, nenhuma série causou tanta controvérsia.  Divididos em Team Edward, Team Jacob, Team Suíça e Team Opositores, embates de gostos e opiniões foram travados em todas as redes sociais da internet, e fora dela. E nunca antes numa sala de cinema houve tanta discussão entre espectadores que compraram ingressos pelo simples intuito de estragar a diversão dos fãs, e estes, que tanto sofrem pela sua série favorita.

Essa crítica – redigida por alguém que leu a obra por completo – se refere não aos fãs, nem aos opositores. Basicamente, ela tenta responder a uma questão crucial: a Saga Crepúsculo é uma boa coleção de livros e filmes?

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A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2
por Eduardo Mercadante

Observações: Como é a última crítica da saga, sabemos que os comentários serão mais enfáticos e conclusivos. Sugerimos que não ataquem ninguém em seus comentários, pois ofensas sem propósito serão excluídas. Fora isso, exercitem seu direito de comentar.

Antes de tudo, é preciso estabelecer algumas regras. A análise de conteúdo literário de uma adaptação cinematográfica de um livro passa por três pontos isolados: obra original, adaptação e resultado final. Dessa forma, esse texto se propõe a avaliar não só o filme A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2, como toda a saga, tanto original, quanto adaptada.

Em primeiro lugar, está a tão famosa obra de Stephenie Meyer. Segundo ela, a inspiração veio num sonho, no qual um vampiro se apaixonava por ela, porém se encontrava dividido por esse sentimento incondicional e a sede quase incontrolável pelo sangue da moça. “Os vampiros me escolheram”, ela declarou. Pois bem, vampiros aqui tem um significado muito diferente do que a maioria conhece. A mitologia de Meyer acaba com a ideia assombradora de Bram Stoker, gerando criaturas que andando à luz do sol – sendo a única adversidade o brilho da pele tal qual incrustada de diamantes –, conseguem sobreviver com sangue de animais, vão perdendo a força física com o passar dos anos e, alguns, possuem dons como ler mentes ou prever o futuro.

A história é o desenrolar letárgico desse conflito de interesses internos em Edward Cullen (Robert Pattinson), enquanto uma Bella Swan (Kristen Stewart) se mostra o reflexo da passividade feminina, contrariando todos os avanços conquistados pelo movimento feminista, ao pôr como únicos objetivos de sua vida ser a companhia do homem que ama e decidir se ama o vampiro ou o lobisomem, Jacob Black (Taylor Lautner), que é tratado como um cachorro de grande porte: é forte e tem quem ache bonito, mas é muito bobão e temperamental.

Amanhacer – Parte 2 retoma a trama no exato momento em que o antecessor parou. Bella acaba de completar a transição e conquistar seu grande sonho de ser vampira ao lado de Edward. No entanto, sua vida dá uma guinada com o fato de que agora ela é mãe de Renesmee (Mackenzie Foy), uma criança metade vampira metade humana. Por acaso, ou para não excluir esse personagem do centro da trama, Jacob acaba tendo um imprinting com a garota. Imprinting é um instinto que os metamorfos da tribo Quileute sofrem que os prendem ao parceiro ou parceira que lhe daria o filhote mais forte. Basicamente, é um alerta genético de que aquele é o melhor cônjuge [vemos aqui um desabafo sobre frustrações amorosas da autora ou a declaração de amor mais piegas do mundo?]. Jacob não está sexualmente atraído a Renesmee; ele apenas sente que aquela é a melhor pessoa do mundo, a quem deve agradar a qualquer custo. O sentimento vai evoluindo – e a questão sexual vai aflorando – conforme a própria garota fosse crescendo.

Perceptivelmente, não houve nenhum problema, além do sentimental, criado para desenvolver a trama de conclusão. Então, surge Irina (Maggie Grace, cujo irmão em Lost se tornou um vampiro conhecido em outra série), uma vampira conhecida dos Cullen que, ao ver Renesmee, acha que ela é uma criança imortal e a denuncia aos Volturi, a família que domina os vampiros nos últimos milênios. Crianças imortais são vampiros gerados na infância, descritos como impossíveis de não se amar, porém capazes de destruir cidades inteiras em ataques de rebeldia infantil. Os Volturi, então, juntam um exército para testemunhar o encontro com os Cullen e punição que receberiam pelo suposto crime. Enquanto isso, a nova família de Bella também sai em busca de amigos dispostos, tanto vampiros quanto lobisomens da alcateia de Jacob – aumentada pela presença de tantos vampiros próximos a sua tribo –,  a testemunhar a inveracidade das acusações.

Em segundo lugar, como adaptação, a maior provável falha do roteiro foi a mais óbvia. Dividir o encerramento em dois filmes acabou com a pouca unidade que havia na sequência lógica. Há, de fato, uma crise a ser solucionada, o que poderia gerar uma trama bastante emocionante. Entretanto, dois terços do filme transcorrem em sequências desconexas, mostrando o crescimento acelerado de Renesmee e a adaptação de Bella às suas recém-adquiridas habilidades vampirescas. Seria muito mais interessante ver o desenvolvimento do casamento aos Volturi em um só tomo, pois seria mais tangível ao espectador a rapidez e volatilidade dos eventos nesta parte da vida de Bella Swan. A transformação dolorosa não ter estado presente quando se pode vê-la na forma vampira quebrou aquela noção que é construída desde o primeiro volume, de que o maior desejo da vida dela é passar a eternidade fria, forte e brilhante, ao lado de Edward Cullen. Logo, não houve a devida conclusão do argumento central da personagem principal. Qualquer aluno de vestibular faria melhor.

A terceira instância é a análise do filme em si. Em especial, como já citado, é necessário abordar o crescimento da criança. Uma escolha muito interessante, e nem de longe bem executada, foi a de usar computação gráfica na garota quase que o filme inteiro. O único momento em que Mackenzie entra em cena e nos momentos imediatamente anteriores ao encontro com o Volturi e no próprio. Olhos minimamente treinados seriam capazes de ver a porca execução do CGI que, além de Renesmee, esteve presente em inúmeras outras situações, seja na inserção de ambientes via chroma key, seja nos lobisomens, que conseguem ser menos verossímeis que os de filmes anteriores. Muitos efeitos, pouco tempo ou dinheiro para realizá-los; não importa a razão, o resultado foi porco.

Outro erro que recai sobre os ombros do diretor Bill Condon (responsável pela Parte 1) são as cenas que supostamente mostrariam os sentidos aguçados da protagonista: uma repetição injustificada de supercloses em formigas andando, animais caminhando na floresta ao longe, corujas crocitando… Na primeira vez já deu para entender. Porém, o diretor resolveu massificar, talvez demonstrando ao espectador que ele realmente não tinha nada para mostrar. Se esta foi uma crítica à superficialidade da obra, com foco na enrolação ao longo de 700 páginas no original Breaking Dawn, parabéns pela coragem.

Definitivamente, coragem foi o tempero que faltou na conclusão. A própria Stephenie revelou em entrevista que seu editor – com sabedoria – sugeriu que ela mudasse o desfecho da obra. Porém ela afirmou que não se via preparada, não tinha coragem de fazer o que ele pedia. Como já foi noticiado em todas as mídias, o filme tem um desfecho diferente do livro. Para evitar spoilers, não haverá comentário oficial na crítica sobre a mudança.

A Saga Crepúsculo chega ao fim, e junto a ele vem à tona a resposta que tanto se buscou nos últimos anos. Será esta uma boa coleção de livros e filmes? A resposta é, sem dúvida, “não”, nem como livro, nem como adaptação, nem como filme. Não só a escritora mostra sua inabilidade técnica e futilidade sentimental ao levar quatro livros para desenvolver o que o seria bem contado em dois, máximo. Meyer criou uma corrente que vem – felizmente – perdendo o fôlego de histórias melodramáticas com toques de sobrenatural. Não se engane achando que ela inaugurou o gênero; somente abriu o mercado para obras que, definindo o sentido de clichê, beiram o vazio de sentido inovador. O único benefício que de fato trouxeram foi a inserção de milhões de jovens no mundo da leitura. Isso, Meyer, é seu único trunfo; não se dê crédito demais.

Os filmes, adaptados por Melissa Rosenberg, são o reflexo de uma roteirista que venera o original mais do que se pretende a melhorá-lo, ao esquecer que no papel é muito mais fácil transmitir sentimento. Além disso, chamar um trio como Pattinson, Stewart e Lautner para papéis essencialmente sentimentais, nas piores atuações de suas carreiras, mostra que ninguém teve a coragem de corrigir os erros. Mesmo quando a série parecia tomar uma guinada positiva, com Eclipse, vem a decisão de dividir o desfecho e regride-se quase à estaca zero.

O fim chega com o segundo pior filme – perder para Lua Nova seria um feito ainda mais impressionante –, e a conclusão fica clara: a coragem que tanto faltou a toda a obra está concentrada na legião de fãs que ainda conseguem gostar dela. Parabéns.

 

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The Twilight Saga: Breaking Dawn – Part 2 (EUA, 2012). Romance. Fantasia. Summint Entertainment/Lionsgate.
Direção: Bill Condon
Elenco: Robert Pattinson, Kristen Stewart, Taylor Lautner

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Categorias
Críticas, Fantasia, Romance