CRÍTICA: A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte I

Críticas
// 19/11/2011

Não é que estejamos atrasados. Mas tentar assistir a qualquer filme da série Crepúsculo em seu fim de semana de estreia é uma missão quase impossível. Quem já tentou sabe do que estamos falando. E, como não houve exibição prévia para a imprensa (nem imaginamos o porquê), a crítica está sendo publicada agora.

Para os fãs, a nota pouco importa. Indiferente dela eles irão assistir duas, três, quatro vezes. Mas foi justamente para eles que o longa foi feito. E se eles estiverem satisfeitos, menos mal (alguém deveria ficar). Até porque, a julgar pelo conteúdo de Amanhecer – Parte 1, é muito difícil acreditar que havia o interesse de extrair elogios do público em geral.

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Observação: É comum em publicações de trailers e críticas dos filmes da série Crepúsculo observarmos agressões entre os próprios leitores. Seja de um fã que não aceita o argumento de um não-fã, seja deste desrespeitando o gosto do fã. Qualquer comentário do gênero será apagado, e os demais do mesmo autor também. Fora isso, sintam-se livres para comentarem o que bem entenderem.

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1
por Eduardo Mercadante 

Na última década, a juventude – em especial, os adolescentes – mudou a demanda da indústria cultural. Com o surgimento da série Harry Potter e a adaptação para os cinemas da trilogia O Senhor dos Anéis, os jovens se tornaram o principal público-alvo. Não é à toa que todas as dez maiores bilheterias mundiais da história do cinema, segundo o site Box Office Mojo, são focadas nessa faixa etária (à exceção, talvez, de Titanic).

A Saga Crepúsculo é um dos maiores exemplos dessa onda de novas produções. No entanto, o que provavelmente a destaca da maioria é o fato de, dentre as que abordam o romance em vez da ação, ser aquela com o maior número de pessoas avessas – incluindo no segundo grupo a crítica internacional – em contrapartida ao de apaixonados pela série. Talvez por isso seus três primeiros filmes não tenham alcançado bilheterias tão expressivas: o primeiro nem entra na lista das cem maiores arrecadações, enquanto que o segundo e o terceiro estão na 44ª e 46ª, respectivamente.

A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 é um filme que de início já preocupa quem leu a série justamente por ser uma “primeira parte”. De fato, o quarto e último livro é o maior, mas não há material que justifique a divisão. A trama é dividida em três partes, sendo a primeira e a terceira narradas a partir da perspectiva de Bella Swan (no filme, Kristen Stewart), e a segunda na visão de Jacob Black (Taylor Lautner). O momento escolhido para a cisão foi o fim da segunda parte do livro. No entanto, mesmo se fosse escolhido o encerramento da terceira parte (e assim um único filme) ainda faltaria material para a adaptação não fosse superficial – o que acabou sendo, mesmo considerando os padrões da série.

Na Parte 1, Bella e Edward Cullen (Robert Pattison) finalmente se casam, exigência dele para finalmente transformá-la em vampira. O casal então segue para Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, para uma lua de mel convencional. Obviamente, “convencional” está longe de caracterizar o pós-noivado e os momentos do casal transitam entre desconforto – para eles e para os espectadores – e melodrama mais do que o esperado. Tudo muda quando Bella descobre que está grávida, e os dois voltam para a casa dos Cullen, onde ela passará o período de gestação do bebê metade humano, metade vampiro. Bella acaba se juntando a Rosalie (Nikki Reed), pois todos os outros concordam que ela deveria abortar a criança. Além disso, os lobos da reserva decidem que os Cullen romperam o trato ao gerar tal criança demoníaca e pretendem atacá-los, o que leva Jacob a abandonar a alcateia e formar a sua própria, fazendo guarda na casa dos Cullen. A história se desenvolve a partir dessa realidade: Bella sofrendo, todos contra a gravidez e o iminente confronto entre lobos e vampiros.

Se nos três longas anteriores houve alguma margem para a grotesca situação feminina de Bella, em Amanhecer a situação piora. O que ocorre é que, para alguns, a autora Stephenie Meyer propôs em seus livros uma visão antiquada e estereotipada da mulher, sempre a um degrau abaixo da figura masculina, para que assim potencializasse a carga romântica da história. Besteira. Primeiro porque é notável a partir da escrita de Meyer que ela estaria longe da capacidade necessária para produzir este tipo de coisa e, se esta impressão é passada ainda assim, certamente foi um acidente da má escrita. Contudo, se de qualquer forma quisermos considerar a hipótese como verdadeira, no derradeiro capítulo Stephenie joga tudo para o alto e lança sua protagonista a uma imagem ainda inferior: a de objeto funcional, mas sem importância suficiente para resolver seus próprios assuntos. Se antes todo o conteúdo de Bella se resumia a uma indecisão entre Edward e Jacob, agora o centro de observação vem dos outros personagens, “aptos” para decidirem sobre a vida da jovem. O foco já não é mais Bella, o que pretende ou o que sente não tem mais relevância.

A falta de eventos marcantes fica tão evidente no roteiro de Melissa Rosenberg que a solução adotada para tapar os buracos foi entupir o filme de canções. Provavelmente, há mais tempo de trilha sonora do que de diálogos – totalmente previsíveis, como sempre. Na verdade, o enredo de Amanhecer – Parte 1 até se distancia dos três primeiros longas ao retratar temas como casamento e gravidez, que não são (ou não deveriam ser) adolescentes. Antes mesmo da cena do casamento, percebe-se essa tentativa no flashback que retrata a época em que Edward se afastou dos Cullen e cedeu ao impulso de matar, provavelmente o único suspense da história, já que o resto é previsível a qualquer olhar. Outras cenas favoráveis a esse amadurecimento da saga é a passagem em que a alcateia não retoma a forma humana para fazer uma reunião, além das tomadas sobre o corpo de Bella ao longo da gravidez, quando aos poucos definha e se torna perturbadoramente magra, uma vez que o bebê não a deixa absorver nutrientes.

Apesar desse positivo amadurecimento, a transição de romance “adolescente” para “adulto” é mal dosada, e se torna profundamente brega e clichê. Todo o casamento de Bella é tão piegas que poderia ser reutilizado no último capítulo de qualquer novela das seis. O destaque vai para os brindes na festa, nos quais reside uma clara tentativa frustrada de humor; mas é tão espantosa a incapacidade de se velar os clichês que fica impossível rir. O único momento em que a comédia existe (apesar de ser certamente não intencional) – para lusófonos somente – é quando Edward fala português. Aparentemente, foi tão difícil tirar de Pattinson o português lusitano mal falado, que desistiram de extrair mais do ator.

A impressão passada é que o diretor Bill Condon (roteirista de Chicago e Dreamgirls) mais uma vez tenta fazer algo impossível com a história de Stephenie Meyer. Enquanto romance, é pegajosamente piegas; enquanto suspense, extremamente ralo. A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 1 mostra, de novo, que ninguém sabe fazer a história funcionar no Cinema. O quinto e último filme terá a mesma ficha técnica. Se um milagre não acontecer, e a segunda parte seguir a linha da primeira, a saga sairá dos cinemas sem um longa que case o seu público com o geral; tampouco com a crítica.

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The Twilight Saga: Breaking Dawn – Parte 1 (EUA, 2011). Romance. Fantasia. Paris Filmes
Direção: Bill Condon
Elenco: Kristen Stewart, Robbert Pattinson, Taylor Lautner
Trailer
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Categorias
Críticas, Fantasia, Romance