CRÍTICA | A Substituta

Comédia
// 03/02/2009
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A professora adoeceu. A alegria se alastra na sala de aula em poucos segundos. A turma da sexta série atinge um êxtase que desaparece diante da discreta entrada da nova professora que domina a cena numa apresentação nada convencional e altamente intimidadora. A Substituta está muito distante da vulnerabilidade dos docentes de ocasião e além das traumatizantes “tias” da primeira série.

Vinda de um distante planeta em busca do amor, a alienígena Ulla se passa por notável e apreciável para os pais, mas não poupa esforços para amedrontar os alunos. Embora soe bem, o amor por que Ulla procura não é um alvo para o sentimento, a E.T. quer entender como e porque essa sensação faz dos humanos seres tão absolutos e fortes ao demonstrarem empatia uns pelos outros em momentos de necessidade. Mas a professora não contava que a turma, às vezes introspectiva uns com os outros, iria utilizar esta demonstração humana para unir forças contra ela. Embora Ulla tenha captado muito bem a noção da coisa, tentando arrancar compaixão dos pais revoltosos mediante as reclamações dos filhos quanto aos métodos anti-didáticos, a alienígena ainda é despreparada para enfrentar essa comunhão entre as crianças que, para ela, pode ser letal.

Com uma trilha sonora belíssima, fotografia, certas vezes, invejável e uma edição majoritariamente primorosa, o longa dinamarquês cria uma atmosfera justa para um roteiro que usa o amor e toda a problemática manjada dos pais que não acreditam na imaginação fértil dos filhos como plano de fundo para focar na ação e união da turma escolar. Algumas cenas são obscuras e instigantes, confiando ao grupo juvenil toda a tarefa de lidar com o caso assustador. Contrariamente aos pais, o longa leva o elenco mirim e seus personagens a sério, afinal, esta não é uma produção rebaixável para a “Sessão da Tarde”. Lideradas por Carl (Jonas Wandschneider), as crianças não estão dispostas e nem possuem capacidade para inventar planos mirabolantes que desrespeitam a física e subestimam a inteligência do inimigo. O medo é visível nos rostos sempre cheios de expressão dos atores, atingindo picos de experiência que tantas vezes não é encontrada nos mais velhos. Sua única chance de se livrarem de Ulla é mantendo-se juntos, confiantes e focados em desmascará-la.

Evidentemente que, por se tratar de um filme voltado principalmente ao público infantil, o visual acinzentado com pouca iluminação precisa ser compensando por alguns simples eventos que caem no clichê; uma saída até melhor do que fugir para a comicidade em horas impróprias ou regressão do nível da história para garantir a parcela juvenil da platéia. Acaba funcionando, mas sem grandes emoções.

Sob tanto primor técnico e competência da direção e elenco, A Substitua parece progredir nos trechos de desenvolvimento e manter uma posterior linha contínua, mas derrapa perto fim. Todo o caráter emotivo da perda da mãe de Carl carregada pelo menino durante a projeção só serve para atrair um raciocínio maduro do personagem no clímax e se esquece de salientar a função do amor nos homens para Ulla, faltando aquela lição de moral que julga-se introduzir.

Apesar dos percalços, A Substituta encanta pelo bom trato com a produção como um todo e diverte pelo padrão estético dos filmes de ficção científica nas mãos de crianças amedrontadas, o que pode levar os menores a se encolherem levemente na poltrona.


Vikaren (Dinamarca, 2007). Comédia. Ficção Científica. Thura Film.
Direção: Ole Bornedal
Elenco: Paprika Steen, Ulrich Thomsen, Jonas Wandschneider

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