CRÍTICA: A Troca

Críticas
// 17/01/2009

Recém lançado no Brasil, o drama A Troca, do diretor Clint Eastwood, promete derreter corações ao apresentar a história real de uma mulher e sua busca desesperada pelo filho desaparecido. Confira.

A Troca
por Matusael Ramos

Não é de hoje que a figura da mãe obstinada, movida pelo ímpeto do amor materno, passa por apuros para reaver seu filho. Juliane Moore e Jodie Foster que o digam. Suas personagens em Os Esquecidos e Plano de Vôo, respectivamente, passaram por maus bocados a procura de suas crias. Nada, nem ninguém, porém, desbanca o posto de mãe coragem conquistado por Angelina Jolie no recente A Troca.

No novo filme do diretor Clint Eastwood, ambientado em fins da década de 20, Angelina Jolie interpreta uma supervisora de telefonia cujo filho de 9 anos de idade desaparece misteriosamente, enquanto ela substituia uma colega no trabalho. Tão logo retorna para casa e dá pela falta do garoto, Cristine contacta a polícia, que lhe nega o pedido de busca, alegando que a criança voltaria por si só e que, em todo caso, viaturas só poderiam ser enviadas 24 horas após o ocorrido. Trata-se pois, da primeira mostra de negligência policial no filme, sendo esse um dos principais temas discorridos no decorrer da trama. A então brigada polical de Los Angeles, mergulhada em acusações de corrupção, incompetência e abuso de poder, vê no sofrimento da jovem mãe uma oportunidade valiosa de levantar o moral da instituição perante a população e entrega a Cristine um garoto que se diz seu filho. Ela nega de imediato, porém é dissuadida e levar a criança para casa e, nas palavras do chefe de polícia, ‘testá-la’.

O que se segue é a árdua e sem precedentes luta de Cristine em encontrar o verdadeiro filho: acusada de se indispôr com o trabalho da polícia, é encaminhada a um hospital psiquiatrico, garantindo-lhe toda sorte de infortúnios.

Jolie – radiante em figurinos copiados do guarda-roupa da própria Christine Collins – brilha, dosando a delicadeza inerente da mulher no início do século com o desespero de uma mãe que já não sabe que caminhos tomar. Talvez pela sua considerável experiência como mãe, Jolie convence e sustenta, por assim dizer, os mais de 140 minutos de projeção sem deixá-lo cair no piegas.

Mérito esse, aliás, compartilhado com o igualmente experiente diretor Clint Eastwood, que manteve pulso firme num roteiro que, talvez em outras mãos, invariavelmente se transformasse num melodrama sem grandes novidades. Eastwood, entretanto, agrega a rudeza típica de boa parte de seus filmes, onde nada é fácil e nem sempre como queremos. Cena após cena, a esperança se esvai – sem nunca acabar por completo.

O visual da produção, tal qual sua trilha sonora pontuada, remonta ao que há de mais clássico. A fotografia, que privilegia ambientes escuros e ora ou outra obscurece a face dos personagens é bastante conveniente – são excepcionalmente belas as tomadas em que os lábios muito vermelhos de Jolie contrastam com seu semblante enegrecido. O charme dos anos 20, como não deixaria de ser, emana dos figurinos, da maquiagem, dos trejeitos.

Em tratando-se de um filme inteiramente baseado em fatos reais, o que mais incomoda é saber que dramas similares são e serão vividos por mães em todos os lugares e épocas. Sras. Collins que todos os dias precisam conviver com uma dor pior que a própria certeza da morte: a dor da eterna dúvida.

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Changeling (EUA, 2008). Drama. Universal Pictures.
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Angelina Jolie, John Malkovich, Michael Kelly

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Críticas, Drama