CRÍTICA: Água Para Elefantes

Críticas
// 28/04/2011

À primeira vista, o diretor de filmes como Eu Sou a Lenda e Constantine – além de videoclipes de cantoras pop como Britney Spears e Jennifer Lopez – poderia não parecer a escolha ideal para comandar um filme de época sobre um romance proibido passado num circo. Francis Lawrence, no entanto, não faz feio em Água para Elefantes, e adiciona camadas insuspeitas a uma história que poderia ser contada de forma superficial e até boba em mãos menos cuidadosas.

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Água Para Elefantes
por Gabriel Costa

Baseado no livro homônimo de Sara Gruen, que atingiu o topo da lista de best-sellers do The New York Times, Água para Elefantes conta a história de Jacob Jankowski, interpretado pelo veterano Hal Holbrook nas breves sequências contemporâneas e pelo galã de Crepúsculo, Robert Pattinson, no longo flashback da década de 30 que é, na verdade, o próprio filme.

Jacob é um estudante de veterinária que, após encarar a morte inesperada dos pais no dia em que concluiria seu curso, descobre que ambos estavam falidos após se desdobrarem para pagar sua educação. Em pleno período de depressão econômica dos Estados Unidos, frustrado e sem perspectivas, o jovem sai praticamente sem rumo, e acaba subindo clandestinamente no trem que leva todos os funcionários e animais de um espetáculo circense.

Resolvidos os desentendimentos óbvios, Jacob acaba por se juntar ao circo viajante, primeiro como trabalhador braçal, depois como veterinário dos animais e, finalmente, como adestrador da simpática elefanta Rosie. Na estrada, ele descobre uma vida completamente diferente da que planejara como universitário, amigos entre figuras curiosas e, é claro, o amor, na forma da fascinante estrela do espetáculo, Marlena (Reese Witherspoon). A paixão, no entanto, esbarra num sólido obstáculo: o inescrupuloso proprietário do circo, August, em mais uma impressionante performance de Christoph Waltz.

Lawrence evidencia, por meio dos olhos de Jacob, não apenas a atmosfera alegre e mágica da vida como parte de uma trupe circense, mas também o lado sórdido e brutal dos que escolhem viver na estrada. Festas orgiásticas acontecem todas as noites, homens são jogados do trem para conter despesas após espetáculos malsucedidos, animais são maltratados e alimentados com lixo. O espectador desavisado que vá ao cinema esperando apenas uma “história de circo” pode acabar surpreendido por uma série de momentos mais sombrios do que esperaria em uma produção do tipo.

Nem por isso, contudo, a representação dos espetáculos sai prejudicada. Belos figurinos e cenários, bem como animais que são tão encantadores como assustadores – em especial a própria Rosie – recriam com zelo o fascínio da experiência circense, algo pouco familiar e muitas vezes até inédito para um número cada vez maior de pessoas no mundo do início desta segunda década do século 21.

O filme também sai vitorioso ao não cair no maniqueísmo de postular Jacob como o “salvador” de Marlena das mãos do rival – mesmo que o próprio se veja dessa forma. A personagem de Witherspoon, afinal, é casada com August, e demonstra sentimentos reais pelo marido, ao mesmo tempo em que gradualmente é abalada pelos encantos do jovem quase-veterinário.

Pattinson, se não chega a brilhar, também não vacila frente aos premiados Waltz e Witherspoon. A própria atriz, aliás, destaca-se mais pela beleza nos exuberantes figurinos circenses de Marlena do que pela própria atuação e, embora a tensão afetiva e sexual entre os dois protagonistas seja quase paupável em determinados momentos, a química entre ambos parece forçada e rígida em outros.

No papel de August, Waltz reprisa, de certa forma, o caráter de “anti-vilão” que lhe rendeu o Oscar pelo trabalho como o Coronel Hans Landa em Bastardos Inglórios. Embora a crueldade, ganância e mesmo insanidade do personagem estejam constantemente em evidência, não faltam momentos em que a humanidade, bem como o caráter cômico de August, são escancarados, tornando difícil não simpatizar com a conturbada figura.

E já que estamos falando dos protagonistas, cabe uma ressalva relativa à elefanta que justifica, ao menos em parte, o título da obra. Embora desempenhe funções fundamentais no enredo, Rosie permanece estranhamente ausente em grande parte do terço final do filme. Uma negligência que evidencia seu uso como simples ferramenta de roteiro, e não condiz com a atenção dispensada à “personagem” ao longo da porção anterior da história.

Quando por fim sobem os créditos – após uma desnecessária montagem “de época” – a impressão que Água para Elefantes deixa é de uma obra construída com dedicação por parte de direção e elenco. É um filme que cumpre o que propõe: não surpreende, faz pensar ou perturba. Mas diverte, cativa e faz sorrir.

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Water for Elephants (EUA/2011). Drama. Fox.
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Robert Pattinson, Reese Witherspoon, Christoph Waltz
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Categorias
Críticas, Drama, Romance