CRÍTICA | Águas Rasas

Críticas
// 24/08/2016

Honesto, ainda que pouco crível, Águas Rasas é um exercício narrativo que se encaixa em um nicho cinematográfico bem específico: os suspenses de um ambiente (e um protagonista) só. O filme, que pode até ser encarado como a redenção cinematográfica de Blake Lively (Gossip Girl, o insosso Selvagens), eleva a tensão a níveis que beiram o insuportável – de um jeito bom – mas, como o título deixa explícito, não se aprofunda em nenhum outro quesito.

É inevitável, enquanto buscamos estabilizar os nervos em frangalhos durante a exibição do longa dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra, que ocorra o questionamento: o quanto do pavor que sentimos diante de um grande tubarão branco é simplesmente o instinto humano básico relativo a um predador quase perfeito, e o quanto foi simplesmente precipitado sobre nós por um certo cineasta americano cujo sobrenome rima com Lindberg? Especulações filosóficas à parte, Collet-Serra, responsável por uma filmografia heterogênea que inclui o esquecível Sem Escalas, o interessante Desconhecido, ambos com Liam Neeson, e o ótimo e subestimado horror-slasher A Casa de Cera, com Elisha Cuthbert e Paris Hilton (!), entrega aqui um representante digno tanto do nicho de filmes que têm como antagonista o maior peixe predador existente quanto do próprio gênero suspense.

Estrelado por Blake Lively, que declarou ter se interessado pelo projeto a partir da experiência de seu marido, Ryan Reynolds, no filosoficamente semelhante Enterrado Vivo, de 2010, Águas Rasas conta o drama da surfista e estudante de medicina Nancy Adams, que, impactada pela morte da mãe, viaja para uma deslumbrante praia deserta no México (#firstworldproblems). Por meio de uma série de decisões equivocadas, a jovem acaba isolada sobre uma formação de corais a menos de 200 metros da praia, com o seríssimo contratempo de um obstinado tubarão branco entre elas e uma simpática gaivota (Sully ‘Steven’ Seagall, interpretando a si mesma) como única companhia.

A exemplo de outras obras que assumem o desafio de manter a tensão e uma narrativa imersiva a partir do foco predominante em um único protagonista e cenário, como o já citado Enterrado Vivo, o bom Locke, com Tom Hardy, e o celebrado 127 Horas de Danny Boyle e James Franco, Águas Rasas utiliza o expediente de alternar situações-limite urgentes com momentos de calmaria e contemplação para criar uma dinâmica que prende a atenção e brinca com as expectativas do público. Lively consegue o feito de apresentar diversas facetas de Nancy mesmo que a grande maioria de suas interações tenham como contraponto apenas a gaivota ou o apavorante predador aquático. Evidentemente, em um confronto humano versus tubarão de uma hora e meia, há extrapolações e mesmo exageros que colocam à prova também a suspensão de descrença do espectador, acima de tudo na apoteótica conclusão, que pode irritar quem exige verossimilhança em seus dramas de superação e sobrevivência.

Filmado na Austrália, a despeito da locação latina da história, Águas Rasas acerta mais do que erra dentro da proposta apresentada, ainda que essa proposta não seja do tipo que visa agradar todos os gostos. Ao mesmo tempo em que consolida o caráter experimentalista de Collet-Serra, não no que tange ao formato e execução, mas sim aos conceitos ousados da obra do diretor até aqui, o filme também estabelece Lively como uma atriz capaz de sustentar um longa praticamente sozinha na tela grande. Tudo isso, claro, além de acrescentar mais algumas passagens arrepiantes à enciclopédia de momentos aterrorizantes envolvendo tubarões no cinema.


The Shallows (EUA, 2016) Thriller/Drama. Columbia Pictures.
Direção: Jaume Collet-Serra
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaenada, Angelo Jose.


7-pipocas

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Críticas, Drama