CRÍTICA | Alice Através do Espelho

Críticas
// 25/05/2016
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Chega aos cinemas a continuação da história de Alice Kingsleigh, que da personagem pouco tem. Com pouca ou quase nenhuma inovação positiva em relação ao anterior, o longa dirigido por James Bobin e produzido por Tim Burton não precisava ter sido feito, ou pelo menos deveria ter ido direto para o serviço de streaming mais perto do seu controle remoto.

 

Lewis Carroll criou em Alice uma das personagens mais icônicas e interessantes da literatura mundial. Com bastante doçura para as crianças, psicodelia para os adultos e fantasia para todos, seus dois livros são clássicos de valor inestimável. Como esperado, Hollywood busca angariar o máximo desse valor produzindo adaptações e surge, enfim, a versão do segundo livro, Alice Através do Espelho.

O filme se insere em um futuro não muito distante do anterior e acompanha Alice (Mia Wasikowska) em uma nova visita ao mundo Subterrâneo, dessa vez com o objetivo de ajudar o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp). Nessa empreitada, o Tempo se provará um obstáculo à jornada da personagem, enquanto tenta mais uma vez realizar aquilo que não pode ser feito.

O principal elemento da obra talvez seja sua maior falha. O enredo difere totalmente do livro cujo título carrega, ao ponto de quem minimamente conhece a história original se perguntar por que não foi adotado um nome diferente. Abandonando a grandiosa riqueza metafórica de Carroll, o roteiro de Linda Woolverton — que, além da prequência, assinou Malévola e os brilhantes Rei Leão e A Bela e a Fera — sequestra os personagens e o mundo criados pelo autor e desenvolve uma trama incrivelmente clichê — especialmente, com a repetição incessante do argumento do impossível, reciclado do roteiro anterior — que não impressiona letrados.

Apesar de ser a protagonista, Alice é apenas um meio para a aventura se desenvolver. Ela executa as ações que desenvolverão os arcos dramáticos do Chapeleiro Maluco e da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), cujas histórias são muito mais relevantes — apesar de muito pouco interessantes. A quantidade de lugares comuns aproveitados para preencher lacunas narrativas assusta, em contraste com o potencial que a obra possuía. De fato, o único elemento significante são as piadas com o Tempo, que funcionam perfeitamente na sequência da hora do chá. No entanto, são tão massificadas ao longo de todo o filme que muito de sua inventividade e seu efeito cômico é desgastado.

Tecnicamente, a direção de James Bobin — responsável pelos dois filmes dos Muppets — anula a sedutora melancolia psicodélica que Tim Burton soube incutir no primeiro longa. As sequências de Através do Espelho parecem versões pálidas e sem vida das mesmas aventuras que foram vistas anteriormente. Até as atuações se provam aquém do que já foram, provocando um sentimento de pena pelos atores que parecem estar presos em papeis sem fôlego, obrigados a repeti-los enquanto o contrato mandar. Depp, que sempre costuma ser um circo próprio, está mais para funeral, enquanto Mia, Helena e Anne Hathaway (Rainha Branca) são apenas fantasmas de suas personagens. O também excêntrico Baron Cohen é o único com alguma fagulha, mas talvez seja impressão, por ser sua primeira aparição e ainda não estar desgastado.

Ainda na conta de Bobin, pouca inovação é exibida, seja na fotografia, seja no figurino, seja no design de produção — tendo estes dois últimos rendido estatuetas do Oscar para o primeiro filme —, com a exceção da computação gráfica de Absolem (Alan Rickman, que agracia o público em pouquíssimo tempo de tela). Ademais, especial é o fracasso da tecnologia 3D, aplicada sobre planos quase sempre compostos de dois personagens nítidos contra fundos desfocados.

Com esparsas e fracas sequências centradas em Alice, uma inferioridade técnica que deve muito à direção de Bobin, um enredo mais adequado a um spinoff em série de televisão ou mesmo um filme que pulasse a exibição em cinemas, Através do Espelho se apresenta como uma grande piada com o Tempo. Mais precisamente: o espectador e o dele que foi perdido.


Alice Through the Looking Glass (EUA, 2016). Fantasia. Disney Pictures.
Direção: James Bobin
Elenco: Mia Wasikowska, Helena Bohan Carter, Johnny Depp, Sasha Baron Cohen

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Críticas, Fantasia