CRÍTICA | Almas Gêmeas

Críticas
// 27/04/2009
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Que a filmografia do diretor neo-zelandês Peter Jackson é um tanto singular, muitos sabem. Responsável por deliciosas pérolas trash e também por uma das franquias mais bem sucedidas da história do cinema, Jackson carrega ainda, na sua improvável bagagem, o filme considerado por muitos como sua obra mais complexa: o drama Almas Gêmeas, estréia da jovem Kate Winslet nas telonas.

Baseado num caso verídico que chocou a Nova Zelândia na década de 50, Almas Gêmeas fala das consequências desastrosas resultantes da amizade doentia entre duas garotas. Pauline é uma adolescente retraída e sem amigos, que vive num pensionato do qual a mãe é proprietária. Juliet é uma garota impetuosa e inteligente que se muda com a família para a Nova Zelândia. Logo em seu primeiro dia de aula, Juliet revela toda a sua sagacidade, exercendo verdadeiro fascínio sobre a suscetível Pauline. Os dias se passam e nasce entre elas uma amizade sem precedentes, potencializada pela irreverência hipnótica de Juliet. Tudo transcorre normalmente, até que os pais passam a desconfiar da cumplicidade das filhas, exageradamente apegadas e emotivas. Essa desconfiança, aliada a tuberculose que acomete Juliet e a uma iminente viagem de volta a Inglaterra parecem assinalar o fim da amizade entre as garotas; mas juntas, elas traçarão um inconsequente plano que não poupará sequer a vida dos pais.

Quando, na cerimônia do Oscar desse ano, Kate Winslet agradeceu a Peter Jackson (ao receber a estatueta pela sua interpretação em O Leitor), não foi por menos.

Aos 17 anos, em sua estréia no cinema, Winslet está contagiante numa interpretação que beira o teatral. Na pele da insolente Juliet, ela traz significado à vida da solitária Pauline e às cenas em que aparece. Por outro lado, se apóia nessa garota que aviva suas idéias, elevando a cumplicidade a um nível que já não permite a separação.

Um dos grandes méritos de Almas Gêmeas foi a incursão na imaginação da dupla, talvez o verdadeiro agravante da obsessividade da relação. Juliet e Pauline vivem, literalmente, num mundo criado por elas próprias, onde assumem outros nomes e papéis e onde os familiares são vistos com certa indiferença. São particularmente interessantes as cenas em que ao som de belas óperas (presentes em todo o longa), elas visitam cenários bucólicos e fantásticos.

Jackson fez questão de que todas as cenas fossem filmadas nos locais em que originalmente os fatos aconteceram e que o diário de Pauline, à época bastante útil à polícia, servisse de linha narrativa ao longa. Um quê de morbidez que aliado à impecável sequência final do filme, reafirma sua competência em tratando-se de suspense/terror.

Relegado a uma única indicação ao Oscar (na categoria de melhor roteiro original), Almas Gêmeas consegue ser o trabalho mais conciso e humano do diretor.

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Críticas, Drama