CRÍTICA | Amazônia

Críticas
// 26/06/2014

Amazônia é uma produção que convida o espectador a embarcar em uma aventura tridimensional pelo coração da maior floresta tropical do planeta – experiência que poderia até ser interessante caso não estivéssemos na companhia de um sujeitinho tão irritante.

Amazônia
por Eduardo Monteiro

O aspecto que mais deve ter dividido opiniões em relação ao vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2006, A Marcha dos Pinguins, é sua narração: em vez de descrever ou comentar os hábitos dos pinguins-imperadores, o voice over traduzia os supostos pensamentos daquelas aves em cada etapa da peregrinação anual exercida pela espécie – e mesmo incomodando pontualmente pelo excesso de humanização dos animais, a narração era suficientemente didática e impessoal para se justificar e alcançar os objetivos do projeto. Infelizmente, o mesmo equilíbrio não é alcançado por Amazônia: transitando erroneamente entre o documentário e a aventura infantil, a co-produção franco-brasileira falha miseravelmente em ambos os esforços.

Escrito por um total absurdo de seis profissionais, o filme acompanha o macaco-prego domesticado Castanha (voz de Lúcio Mauro Filho) tentando sobreviver e se adaptar à vida selvagem da floresta amazônica depois de sofrer um acidente de avião a caminho do circo que o teria como nova atração. Com isso, o longa se encarrega de expor as belezas da maior floresta tropical do mundo enquanto submete seu protagonista a situações risíveis, incluindo perigos tolos, um romance absolutamente aborrecido e clichês que beiram o inacreditável (sim, os realizadores conseguem a proeza de incluir uma cena em que um personagem desaparece da vista de outro depois que um veículo passa entre ambos).

Incapaz de oferecer uma justificativa narrativa decente para a apreciação da deslumbrante fauna daquele ecossistema (o que não seria necessário caso o filme se assumisse como um documentário legítimo), Amazônia obriga Castanha a repetir insistentemente falas como “Que que é isso?” ou “Caramba! Olha só esse…” e, em seguida, descrever o que está observando toda vez que o diretor Thierry Ragobert decide apresentar um novo animal, planta ou fenômeno natural ao público, o que rapidamente se torna algo irritante. Além disso, com exceção de um ou outro pensamento mais interessante e educativo (“Até os [animais] nojentos são bonitos se a gente olhar direito”), as falas escritas por José Roberto Torero contam com um humor raso que só deve funcionar para crianças muito novas, pecando ainda por tecer comentários presunçosos sobre o uso da tecnologia 3D (mesmo erro cometido pelo patético Brasil Animado, alegadamente o primeiro filme brasileiro lançado em 3D).

O efeito tridimensional, vale apontar, é bastante irregular: sim, há belíssimas imagens (especialmente em planos mais abertos) cuja profundidade contribui imensamente para a apreciação daquelas paisagens, mas os vários planos-detalhe e a necessidade recorrente do uso de zoom e teleobjetivas (já que a proximidade da câmera pode influenciar o comportamento dos animais ou ameaçar a segurança da equipe) praticamente anulam o efeito 3D em boa parte da projeção. Para completar, a trilha sonora é utilizada de forma óbvia e inoportuna para reforçar os vários perigos enfrentados por Castanha – e não fosse a inclusão de um comentário breve (e bastante ingênuo) sobre a “lei da selva” (isto é, a existência da cadeia alimentar), o filme ainda ignoraria, como de costume, que predadores como onças, gaviões, urubus e crocodilos não são vilões da natureza, mas seres com necessidade próprias a serem cumpridas em prol da sobrevivência e da perpetuação de suas espécies.

Por essas e outras, Amazônia torna-se frágil e insípido como aventura e demasiadamente pouco informativo como documentário, estabelecendo-se como um primo não muito distante do horroroso Caminhando Com Dinossauros – com a diferença que a biodiversidade da floresta amazônica é muito mais bela e inebriante que as criaturas digitais jurássicas criadas pela companhia de efeitos especiais Animal Logic.

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Amazônia (França/Brasil, 2013). Documentário. Imovision.
Direção: Thierry Ragobert

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