CRÍTICA: Amor e Outras Drogas

Críticas
// 27/01/2011

Amor e Outras Drogas, que estreia amanhã em circuito nacional, reúne o melhor (em pequenas quantidades) e o pior (pesando a mão) dos formatos norte-americanos de cinema comercial. O clássico dramalhão, a clássica comédia despretenciosa e até um certo padrão de se explorar a nudez. No final, termina não se decidindo sobre qual gênero quer pertencer.

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Amor e Outras Drogas
por Gabriel Giraud

Eventos de novelas são sempre muito característicos. O núcleo humorístico tem sempre uma comédia bem escrachada; o núcleo romântico é sempre um água-com-açúcar sem fim; os dramas sempre encharcam os personagens em lágrimas (graças a uma glândula lacrimal capaz de projetar lágrimas a uma pressão cinco vezes maior do que uma glândula normal). Só faltava cenas tórridas de sexo e nudez para as novelas serem a síntese dos extremos das sensações humanas.

Pois foi esse o tônus do filme Amor e Outras Drogas, de Edward Zwick. Jamie Randall, vivido por Jake Gyllenhaal, é um bon vivant mulherengo que não conseguiu concluir seus estudos em Medicina. Ele vive de pequenos empregos e, então, torna-se um agente farmacêutico da Pfizer. Nas tentativas de persuadir um dos médicos mais influentes a indicar seus remédios, Randall conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma paciente com mal de Parkinson. Como todo bom mulherengo, ele investe em Maggie, mas a história deles vai ganhando peso e um viés romântico.

Temos então um início de filme com cenas extremamente cômicas e, a partir do encontro do par romântico, cenas de nudez à americana. O Parkinson de Maggie vem como o elemento perturbador da estabilidade emocional que, pela primeira vez, Randall conquistara. Temos o drama. No entanto, não é qualquer drama – há uma cena em que Maggie briga com Randall e quebra um copo e grita e chora e faz uma novela completa na telona.

Como o filme distribui seus personagens em vários núcleos, a saber: o do irmão de Randall; o do supervisor/amigo de Randall; e o do médico mais influente que Randall conquista, temos pontos muito divergentes na narrativa. Quando o casal briga, há uma cena digna de besteirol logo em seguida. Enfim, um filme que não se decide entre a comédia ou o drama. Apesar de a veia narrativa ser dramática, o longa recebeu indicações (de melhor ator e melhor atriz) por comédia ou musical.

Gyllenhaal e Hathaway realmente mereceram as indicações. É claro que o personagem de Jake não chega perto do impressionante protagonista de Soldado Anônimo (Jarhead, de Sam Mendes), mas por essas performances Gyllenhaal se mostra um ator extremamente versátil. Em Amor e Outras Drogas, ele é, ao mesmo tempo, cômico e mocinho. A atuação de Hathaway certamente foi bem mais delicada de se trabalhar, pois os tremores característicos do estágio inicial do mal de Parkinson não poderiam ser muito espalhafatosos. Ela fez isso bem. No entanto, ela fala baixo e muito rápido às vezes, mas como cinema não é teatro, isso é perdoável.

Infelizmente, a forminha de bolos de comédias românticas americana foi bastante usada nesse filme. As musiquinhas pop ao menos embalam bem a forma clichê. Os valores americanos de amor verdadeiro, único e incondicional, competitividade profissional, amizade, e o “impossível ser feliz sozinho” empapam uma história que poderia ser muito bem explorada por vários outros meios. Na verdade, a história que baseou o filme é a da criação do Viagra, de um livro de um ex-representante de Pfizer, Jamie Reidy, chamado “Venda Dura: a Evolução de um Vendedor de Viagra” (tradução livre de Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman). Parece que o Viagra não é durão o suficiente para ser protagonista da sua própria história na tela grande.

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Love and Other Drugs (EUA, 2010). Romance. 20th Century Fox.
Direção: Edward Zwick
Elenco: Anne Hathaway, Jake Gyllenhaal, Oliver Platt

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Categorias
Críticas, Romance