CRÍTICA | Animais Fantásticos e Onde Habitam

Críticas
// 18/11/2016
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Raramente, mas muito raramente, temos uma quebra positiva de expectativa. Pelos filmes, criamos uma ânsia tão maior do que a capacidade que aquela obra poderia ofertar que chegamos aos créditos finais ainda sedentos, insatisfeitos. Animais Fantásticos e Onde Habitam é essa exceção, que ocorre a cada super lua. É aquela grata surpresa que se dá por termos sido inábeis de criá-la em nossa mente – e isso em boa parte é culpa dos trailers e vídeos, que não só ficaram longe de encostar no potencial do filme, como ainda induziam a um erro de julgamento.

O barato desse retorno ao universo mágico desenvolvido por J.K. Rowling está em nos levar a um ambiente que, mesmo novo e alguns anos distante da nossa contemporaneidade, é alicerçado por conceitos muito familiares. Anula a necessidade de qualquer apresentação e possibilita o imediato desenvolvimento de uma história original cujas chaves para acompanhá-la são entregues por ela própria na solidez de seus personagens (nesse ponto, para quem alguma vez teve contato com uma linha sequer escrita por Rowling, não há novidade).

Mesmo que a ausência de pontas soltas fosse prevista (afinal, estamos lidando com um roteiro escrito pela própria geradora desse universo e já pensado para a narrativa cinematográfica), o mesmo não poderia ser assegurado sobre o quão bem Animais Fantásticos se conectaria ao que vivenciamos em Harry Potter sem se moldar como uma prequência direta daqueles eventos. Agarra-se, sim, ao ambiente mágico familiar quando transforma a magia em uma ferramenta intrínseca aos personagens, mas é para posicionar o espectador como um profundo conhecedor daquele campo para fazê-lo de novato por meio da trama.

Com o palco montado, Animais Fantásticos não subestima. Diferente (e muito) do início da série original, o filme se vale da ciência já dominada pelo público para explorá-la além das gambiarras que ela oferece para um bruxo, mas também às limitações que ela impõe com suas ameaças. Não satisfeito, toca pela primeira vez em um argumento que sustenta o declarado receio da comunidade mágica em se expor para os trouxas sem usar qualquer alegoria, e sim um movimento que faz parte do passado do mundo real – o primeiro passo para potencializar a sensação aqui fora de que a magia realmente existe a cada esquina, nós é que não estamos inclusos.

Para coordenar o processo, o longa repete quase que exclusivamente os melhores acertos técnicos que os oito filmes Harry Potter entregaram. E mesmo que a animação gráfica não convença em alguns poucos animais em cena (enquanto impressiona em três deles), os efeitos visuais são lineares (em um grau elevado) e atingem um patamar muito maior do que demais produções pelo seu uso inteligente. Sua coordenação com a fotografia (a melhor já empregada em toda a franquia, superior inclusive à de Enigma do Príncipe) promove planos abertos que enchem os olhos, com padrões que dão o tom certeiro à cena e enaltecem uma Direção de Arte que consegue, mesmo com uma cidade regular como Nova Iorque, se equiparar ao impacto causado por Hogwarts.

A fuga desesperada de clichês é, talvez, a maior característica da boa dupla que J.K. Rowling e David Yates foram como roteirista e diretor. Jacob (Dan Fogler) é o esperado gordo para alívio cômico que felizmente quebra a probabilidade com piadas que nunca se baseiam em seu físico ou num hipotético desmantelo, mas sim no enorme choque que é um non-maj (pessoa sem magia) em contato com feitiços e animais exóticos muito mais certeiro do que era Harry em  Pedra Filosofal. Sua interação com Queenie (Alison Sudel) acaba promovendo algumas das melhores entregas em atuação no longa (acima de Eddie Redmayne) em contextos muito bem alimentados pela ótima trilha sonora de James Newton Howard (que há um bom tempo não se ouvia em sua melhor forma).

O retorno do mundo de Rowling ao Cinema pode até soar como uma manobra caça-níqueis para os céticos. Mas não se porta como tal. Animais Fantásticos e Onde Habitam quebra os paradigmas criados por toda informação que circundou sua produção. Prova com um êxito quase inédito na série Harry Potter que há, sim, uma legítima história para ser contada, com um belo potencial em trazer novas ferramentas alusivas para completar aquele molde social tão peculiar e efetivo (e muito necessário ao nosso momento) que os sete livros gerenciaram ao longo de dez ótimos anos.

Bem feito feito.


Fantastic Beasts and Where to Find Them (EUA, 2016). Fantasia. Warner Bros.
Direção: David Yates
Elenco: Eddie Redmayne, Dan Fogler, Colin Farrell, Ezra Miller, Katherine Waterston, Alison Sudel

9-pipocas

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Críticas, Fantasia