CRÍTICA: Anjos da Lei

Ação
// 03/05/2012

Em meio às dezenas de remakes, reboots e adaptações que caracterizam a atual indústria hollywoodiana, Anjos da Lei ganha destaque pela abordagem ligeiramente mais ousada: transformar em comédia o que originalmente era uma série policial dramática. E ainda que os diferentes elementos da trama nem sempre coexistam de forma harmônica, o desenrolar garante uma boa quantidade de risadas – e algumas surpresas.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Anjos da Lei
Por Gabriel Costa

Originalmente, Anjos da Lei foi uma série oitentista estrelada por Johnny Depp – que aqui faz uma breve porém relevante participação – sobre um grupo de jovens policiais infiltrados em escolas e universidades para desbaratar esquemas de drogas e outros crimes. A dupla de diretores Phil Lord e Christopher Miller (de Tá Chovendo Hamburguer) substitui o drama da produção televisiva por um tom cômico nada sutil, que chega a beirar o “nonsense” em alguns momentos. Apesar disso, o filme não deixa de lado os tiroteios e perseguições característicos de obras policiais, mas faz questão de desconstruir alguns dos clichês onipresentes do gênero.

O público é apresentado aos protagonistas Morton Schmidt (Jonah Hill) e Greg Jenko (Channing Tatum, de G.I. Joe – A Origem de Cobra e Inimigos Públicos) em caracterizações estereotipadas dos tempos de escola. Schmidt era o nerd sem sem jeito com garotas, enquanto Jenko era o esportista bonitão, popular e pouco empenhado nos estudos. Flash forward alguns anos e ambos se reencontram na academia de polícia, por motivos que não chegam a ser explicitados. Nas novas circunstâncias, a dupla percebe que seus diferentes talentos se complementam, e uma amizade é forjada. Após a conclusão do treinamento, no entanto, logo fica claro que Schmidt e Jenko, não são exatamente competentes na profissão, o que acarreta na transferência para o programa que é a base do enredo.

Hill já provou seu talento mais de uma vez, e não decepciona aqui como o responsável por boa parte dos momentos engraçados. É curioso notar, contudo, que o perfil de Schmidt fica bem mais próximo ao dos personagens ingênuos tradicionalmente interpretados por Michael Cera, colega de Hill em Superbad, do que, por exemplo, de Seth, personagem por ele interpretado na comédia adolescente. Tatum, por sua vez, rouba a cena em diversos momentos. Ao iniciar o trabalho infiltrado, o antigo macho alfa do colegial logo percebe que as coisas não são mais as mesmas, como o próprio Shmidt ressalta: agora quadrinhos, tolerância e consciência ambiental são coisas populares entre os jovens, e o bullying perdeu espaço como indicador de status no ambiente escolar. Essa constatação propicia um par de falas não menos que antológicas por parte de Jenko, que acaba se revelando um personagem cativante em sua idiotice bem intencionada. Em uma participação relativamente pequena, Ice Cube encarna o superior dos protagonistas. Trata-se daquele papel típico de chefe negro inversamente racista (análogo ao de Sean Combs em O Pior Trabalho do Mundo, que também tem Hill no elenco), mas o rapper, bem à vontade, demonstra tal convicção que torna inevitável rir da postura. E o irmão mais novo de James Franco, Dave Franco, é uma grata surpresa como o rebelde Eric.

Ao longo da maior parte da produção, o humor é intercalado e integrado a contento com as cenas de ação, e o intercâmbio entre os dois universos geram alguns momentos no mínimo interessantes, como a sequência em que, para ganharem popularidade no colégio, Schmidt e Jenko organizam uma festa. O processo para tal, que é basicamente todo o enredo de filmes como o próprio Superbad e o recente Projeto X, é completamente subvertido aqui, uma vez que os personagens de Hill e Tatum são maiores de idade perfeitamente capazes de comprar qualquer quantidade de bebidas alcoólicas – e também policiais com acesso à sala de evidências repleta de drogas da delegacia.

No terceiro ato, porém, os diretores parecem perder foco, e o casamento da comédia com os elementos policiais da trama já não é tão homogêneo. Ao mesmo tempo, situações indicadas anteriormente não são resolvidas a contento, o que evidencia a sensação de perda de fôlego por parte de Lord e Miller, ou mesmo de uma edição deficiente. Se considerarmos a estrutura e desenvolvimento geral da história, não há como negar que Anjos da Lei seja um filme previsível. Mas é nas entrelinhas, nas pequenas e numerosas surpresas e na constante quebra de expectativas óbvias que a obra garante sua relevância enquanto reimaginação de uma proposta anterior.

——————————

21 Jump Street (Estados Unidos, 2012) Comédia/Ação. Columbia Pictures
Direção: Phil Lord e Christopher Miller
Elenco: Jonah Hill, Channing Tatum, Ice Cube

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Comédia, Críticas