CRÍTICA | Aquaman

Ação
// 13/12/2018
Aquaman

Já está escancarado pra todo mundo ver que a DC Comics, nos Cinemas, tem comido uma poeira sincera da Marvel Studios. A bilheteria não é das melhores, o apoio dos fãs tá longe de ser unânime e o respaldo da crítica especializada praticamente não existe. À exceção de Mulher-Maravilha, o Universo DC esteve em um sono profundo há anos, nunca ouvindo o feedback que sua plateia dá e quase nunca aprendendo com seus erros. Aquaman não é exatamente esse caso. Com um formato errante, mas muito próximo dos filmes solo dos heróis da equipe dos Vingadores, o filme é tão divertido e despretensioso que parece até uma adaptação atual de um quadrinho do Stan Lee.

Apesar dos eventos acontecerem após Liga da Justiça, o longa reapresenta Arthur Curry (Jason Momoa) através da história de amor de seus pais e seu nascimento, fatos esses que culminaram em um sacrifício punitivo de sua mãe Atlanna (Nicole Kidman). Mas antes que se instale qualquer projeto de preguiça por uma narrativa que, a priori, poderia ser cansativa, o roteiro trabalha agilmente para expôr só o que é relevante para o entendimento. Nem surgem pontas soltas e nem se alonga sem necessidade, chegando-se em poucos minutos ao melhor que o filme propõe: a ação. A velocidade com que a história entrega as informações e parte para a próxima etapa é elogiável se observado que não existem atropelos e a linearidade se mantém – um aprendizado (finalmente!) com os vários tropeços que o Universo DC vem cometendo em seus recentes filmes.

A boa forma do longa em muito se sustenta em sua dupla de protagonistas. Momoa convence muito mais aqui do que na produção da Liga, acertando o tom da comédia em um nível superior ao próprio filme, que em certos momentos parece se perder e não entender com qual público está conversando. Na busca por seguir a cartilha Marvel, Aquaman pesa em excesso no humor a ponto de ser quase cartunesco de tão inocente (pra não dizer que seja bem bobo), como na cena em que o herói despenca de um desfiladeiro na Itália e edição de som tem a pachorra de acrescentar (não tão discretamente) um assovio que acompanhava todas as quedas dos Looney Toones na TV. É interessante observar, contudo, como a falta de traquejo com essa partícula do longa é gratificantemente compensada nas sequências de ação. Não existe uma luta corporal mal coreografada, uma explosão mal sonorizada. Enquadramentos descompassados, câmera tremida e excessos em tela para mascarar defeitos? Não. Em Aquaman, absolutamente nada na questão técnica está fora do lugar. Pelo contrário, é gritante como o filme se mostra ciente do seu valor de produção e arreganha suas construções em tela para impactar personagens em ação diante de cenários suntuosos, desde os incríveis diálogos subaquáticos em Atlântida (um primor da tecnologia atual) ao reino em si e até ao simples porém bem executado ambiente do embate final.

Aquaman pode se gabar ainda de não cair em repetição em seu desfecho. Com um clímax poderoso digno de final de franquia cinematográfica, a trama emerge em seu final com uma conclusão pouco convencional mesmo sem apelar para reviravoltas (algo que praticamente não há). Mas não pode trazer para si qualquer estandarte. O pequeno alarde que transformou o filme solo do personagem em um potencial “salvador” do Universo DC não se sustenta. Não por demérito do filme, cujo papel de entregar um entretenimento regular e sólido foi cumprido, mas não há ali qualquer integração firme com as demais histórias. Vale, claro, para dar alguma “moral” na média da pontuação qualitativa da atual safra de filmes da editora, mas não avança desse ponto.

O mais difícil é encontrar o valor deste filme, em singular, no panorama dos longas de heróis. Enquanto a “Casa das Ideias” usa seus personagens e histórias para fazer alusões com política, sociedade, empatia e representatividade nos cinemas e propor um papo saudável com o público, aqui a franquia demonstra mais uma vez não estar preparada para se aprofundar. Talvez a resistência de Arthur Curry em penetrar além da superfície seja, de fato, a única alegoria que o filme carrega.


Aquaman (EUA, 2018). Ação. Aventura. Warner Bros.
Direção: James Wan
Elenco: Jason Momoa, Nicole Kidman, Amber Heard, William Dafoe, Patrick Wilson.

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