CRÍTICA | Argo

Críticas
// 08/11/2012

Argo, cercado de suspeitas de aparecer no Oscar 2013, estreia neste fim de semana. A crítica norte-americana o tem adorado, enquanto a crítica brasileira o recebe muito bem. Mas será que Argo tem o peso de um grande filme? Será que Ben Affleck realmente surpreende na direção?

 

Argo
por Henrique Marino 

Na maioria dos aspectos objetivos de avaliação de um filme, Argo é inquestionavelmente bom. Roteiro bem construído, montagem excelente, fotografia, direção de arte e figurino acertados para o período histórico, trilha sonora de um mestre em ascensão etc. Tudo isso sob a direção coerente de Ben Affleck.  Mas no tocante ao tema abordado (baseado em fatos reais), este não passa de um pano de fundo para o suspense. O tema é negligenciado, sem ter qualquer olhar interessado a ele.

É discutível se a negligência do tema é positiva ou negativa. Se utilizado como lente crítica para observar o tal momento tenso da história americana, como indicam as primeiras cenas, o filme peca por inteiro. Por outro lado, ele sendo encarado apenas como um filme, a negligência é bem-vinda, já que o torna despretensioso e, portanto, dum ponto de vista político, muito mais leve.

No entanto, se Argo é apenas um filme despretensioso sobre uma determinada situação complicada, então não deve ser encarado com tanta seriedade. O próprio roteiro indica que, na verdade, estamos diante de mero suspense com alguns diálogos divertidos de ironia pouco fina. Neste sentido, o longa-metragem é certeiro, embora deslanche com lentidão ao longo do segundo ato (ou o miolo), o que pode desagradar o público que só está interessado justamente no “suspense divertido”.

Seja como for, se você simplesmente gosta de cinema, sem ser um viciado em entretenimento ou um maníaco por política, então você provavelmente gostará de Argo. O longa-metragem, como já dito, possui muitas qualidades objetivas, a saber:

A montagem (assinada por William Goldenberg) bem elaborada, que atinge seu ápice juntamente com o clímax da trama. Isso ocorre porque é necessário o esforço de duas equipes diferentes para os personagens centrais atingirem seu objetivo, o que fragmenta o filme em dois espaços distintos, mas concorrentes no mesmo tempo; além desse, há o momento crucial, de perseguição, que exige muito da montagem. A intercalação das cenas nesses dois momentos é o que move e mantém o clímax tenso;

O figurino (de Jacqueline West) e a direção de arte (de Jan Pascale e Sharon Seymour) (e até a maquiagem) recriam minuciosamente o fim dos anos 1970, de modo que não seria nenhuma surpresa o filme aparecer entre os indicados das duas primeiras categorias. O que chama a atenção da direção de arte, em especial, é a sensação de clausura que transmite a residência do embaixador canadense, esta servindo de esconderijo para os americanos;

A fotografia de Rodrigo Pietro, que é especialmente usada para reforçar a sensação dos anos 1970. Nas primeiras cenas, referentes à invasão iraniana a embaixada dos Estados Unidos, uma fotografia (câmera e película) antiga é utilizada para dar a sensação de que são imagens históricas. Além disso, o longa-metragem foi filmado analogicamente, o que gera bastante granulação e ruído na película, como eram os filmes antigamente;

A trilha sonora composta por Alexandre Desplat também é notável. Na verdade, todos os últimos trabalhos do compositor têm tido bastante atenção, inclusive dos produtores, que o contrataram para diversos filmes. Aqui Desplat acerta tanto ao criar ambiente sonoro de conflito como para dramatizar sensivelmente os personagens.

Por essas razões enumeradas acima, Argo se faz um bom entretenimento. Ben Affleck soube trabalhar bem sua equipe e construir um produto satisfatório. Sua direção não chama a atenção senão por ser regular. O diretor soube, também, retirar o peso, das conturbadas relações dos Estados Unidos com o Irã, do seu filme, para então fazer um projeto despretensioso e agradável.

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Argo (EUA, 2012). Drama. Warner Bros. Pictures
Direção: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, John Goodman, Bryan Cranston, Michael Parks

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Críticas, Drama