CRÍTICA | As Aventuras de Pi

Aventura
// 23/12/2012

Apropriadamente programado para estrear na “temporada de premiações”, As Aventuras de Pi traz aos cinemas mais do que a versão nacional do título faz parecer. A produção é muito mais do que simples relatos de aventuras incríveis. É uma história sobre superação, esperança e, sobretudo, sobre o poder transformador da fé.

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As Aventuras de Pi
Por Victor Martz

Considerado inicialmente como infilmável, inclusive pelo próprio autor do livro original, Yann Martel, As Aventuras de Pi (Life of Pi, no original) encontrou em Ang Lee o diretor ideal, capaz de trazer às telas a sensibilidade necessária aliada a uma versão cinética e visual poderosa, responsável por fazer com que o espectador fique ao mesmo tempo deslumbrado e emocionado. Dono de uma filmografia, se não com qualidade constante, pelo menos ousada (e cito aqui um dos filmes mais premiados do diretor, O Segredo de Brokeback Mountain), Lee traz de volta aos holofotes de Hollywood (e por que não dizer do Oscar?) a cultura indiana, visitada com excelência quatro anos antes por Danny Boyle e seu Quem Quer Ser Um Milionário?.

A história original – inspirada (ou plagiada) em um livro escrito pelo brasileiro Moacyr Scliar, Max e os Felinos – gira em torno de Piscine Molitor “Pi” Patel, um rapaz de dezesseis anos que, nascido e criado na Índia, acaba sendo obrigado a se mudar para o Canadá junto de sua família e os animais do zoológico que administram. No entanto, durante a travessia pelo Pacífico, o cargueiro japonês em que viajam é atingido por uma tempestade que faz com que a embarcação naufrague. Através de uma sequência de golpes do destino, Pi vai parar sozinho em um bote salva-vidas com companheiros improváveis: uma hiena, uma zebra, um orangotango e Richard Parker, um tigre de bengala.

Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a suposta lentidão do primeiro ato do filme se mostra extremamente necessária para construir o personagem que Pi Patel é e como será seu comportamento diante dos acontecimentos posteriores. É preciso mostrar que, apesar de uma religiosidade forte a ponto de fazer com que o pequeno Pi, ávido por uma transcendência (retratada de forma interessante por uma cena em que o menino tenta alimentar de forma imprudente o supracitado tigre), seja capaz de seguir até três religiões ao mesmo tempo, o menino consegue tomar decisões bastante pragmáticas em relação às suas dificuldades. A exemplo disso está a luta para mudar a conotação ridícula que carrega o seu nome Piscine (uma referência a uma piscina francesa e uma homenagem ao tio que o ensinou a nadar). Também é essencial pintar toda a vida em seu país natal com detalhes, inclusive esboçando as cores de um amor adolescente, justamente para mostrar o quanto o personagem deixou para trás ao embarcar para uma terra estranha e ser engolfado por tão sofridas desventuras.

Logo, é importante elogiar a atuação excelente do novato Suraj Sharma no papel do protagonista. Entregando ao mesmo tempo um Pi prático, ousado e emocional, o jovem ator leva o mérito de carregar a exibição nas costas, já que boa parte da trama se sustenta em sua performance solitária e sua relação com animais construídos digitalmente. E, apesar do tempo encurtado de exposição não permitir que sinta-se pena pelos outros animais náufragos, gradativamente devorados por Richard Parker, é no brilhantismo de construção deste último que vemos o fenomenal trabalho de desenvolvimento da criatura, que acaba passando de simples besta feroz para um companheiro de viagem não só do jovem Pi, mas também de todos os espectadores.

E não é à toa a indicação ao Annie Awards justamente pelo tigre virtual que contracena com Suraj. Aliás, Ang Lee e os responsáveis pelos efeitos visuais do longa entregam cenas que poderiam ser perfeitamente descritas como poesias visuais (apesar de, em alguns momentos, a sensação de “estar em um set” incomodar um pouco). E para auxiliar ainda mais essa característica, a fotografia praticamente impecável de Claudio Miranda (vencedor do Oscar por O Curioso Caso de Benjamin Button) cria cenas de uma beleza ímpar, onde o céu se confunde com o mar e o infinito da paisagem também se faz de prisão para o personagem. Afinal, para onde ir?

Com um 3D preciso e imersivo, o uso se torna essencial para se acompanhar a narrativa. O atributo, que tem se mostrado um dos maiores caça-níqueis de Hollywood, aqui ganha um outro nível de significação e vira uma ferramenta efetiva para a narrativa, principalmente evidenciado na manifestação do mar, literalmente como uma camada que guarda beleza inimagináveis em suas profundezas, mas também capaz de esconder perigos mortais. É uma pena, porém, que O Hobbit, e não este filme, foi agraciado pelo benefício da precisão e fluidez de movimentos conferidas pelos 48 quadros por segundo. A produção se tornaria muito mais bela e mais assustadora – e, acima de tudo, menos borrada.

E mesmo com uma técnica soberba, o filme acima de tudo é sobre o desafio a fé. Seja a do protagonista, que através do seu relacionamento improvável com uma criatura antagônica passa a conhecer melhor a si mesmo, seja a do espectador, que é levado no final a questionar a veracidade da história contada. Um embate levemente injusto, visto que pela grandiosidade das imagens exibidas, se é facilmente tragado por sua corrente emocional que dificilmente gera questionamentos sobre aquilo tudo não se passar do devaneio de uma mente traumatizada.

Sobre a capacidade de se despedir do passado e abraçar o futuro, com todas as suas vicissitudes, dificilmente existe alguém imune emocionalmente  não só para aventuras, mas para toda a vida de Pi.

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Lif of Pi (EUA, 2012). Aventura. Fox Filmes.
Direção: Ang Lee
Elenco: Suraj Sharma, Tobey Maguire, Irrfan Khan.

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Aventura, Críticas