CRÍTICA: As Aventuras de Tintim

Animações
// 19/01/2012

Não dá para assistir a As Aventuras de Tintim sem se espantar com o aparato técnico da animação. Com uma qualidade que beira a perfeição e uma trama cem por cento de aventura, o longa é exatamente aquilo que Steven Spielberg mais gosta de fazer. E o público, de ver.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

As Aventuras de Tintim
por Arthur Melo 

É imprescindível, antes de analisar qualquer nova produção de Steven Spielberg, dar uma breve olhada em seus trabalhos anteriores. Indiferente se está se enveredando pela aventura ou pelo drama, sua estampa sempre poderá ser observada. Em As Aventuras de Tintim isso se repete – o que é muito bom.

No filme, Tintim compra um modelo em miniatura do histórico navio Unicórnio sem saber que dentro do objeto há um pergaminho que, unido a outros dois, aponta a localização do tesouro naufragado com o verdadeiro navio Unicórnio. O desconhecimento dessa informação coloca o jovem como vítima de um sequestro, sendo aprisionado em um navio de buscas. Agora, junto do Capitão Haddock, descendente do capitão do Unicórnio e também aprisionado, precisa encontrar todos os três pergaminhos e chegar ao tesouro antes do vingativo Sakharine (descendente daquele que causou o naufrágio do Unicórnio).

Colocando os pés pela primeira vez no campo das animações, Spielberg se aproveita do espírito da trama para converter o ambiente em uma zona de conforto, da qual está pouco disposto a sair (o que nem deve ser feito, a julgar pelo bom resultado do que vem apresentado até agora em boa parte das vezes). E, assim como em todas as superproduções que já realizou, tem um material único a apresentar que, muito provavelmente, não obteria a mesma qualidade em mãos menos criativas – ou detalhistas.

Em uma piscada bem apressada às realizações mais megalomaníacas do diretor, é fácil e digno afirmar: Steven Spielberg significa Efeitos Visuais sem prazo de validade determinado. Enquanto grandes produções arrecadam prêmios na categoria, apenas as de Spielberg conseguem a proeza de ainda convencer pelos anos seguintes de sua qualidade (uma breve comparação entre as composições de fundo de seu Jurassic Park, de 1993, e King Kong, Peter Jackson – 2005 –, pode ilustrar isso), mesmo quando não vitoriosas. E se em um longa de animação desenvolvida por CGI os efeitos estão diluídos por conta da imagem totalmente artificial, coube ao diretor compensar em outro aspecto: gráficos.

É quase surreal ter de admitir que em pleno ano de 2012 a estética e o gráfico de um filme não live-action possam chocar pela qualidade. Em um momento onde a Pixar consegue proezas ao tornar confusa uma seleção do que é real e do que não é, a Weta Digital foi além: tomou para si a única falta da Pixar (o desenvolvimento de figuras humanas) e transformou em seu diferencial. Tintim e Capitão Haddock são espantosos e em alguns closes, assustadores. Nunca um realismo de tamanha grandeza foi alcançado por qualquer criação no mundo das animações. O detalhe da íris dos olhos e sua coloração são ainda mais impressionantes do que em Avatar, isso sem mencionar o conjunto mais assombroso: rugas de expressão, manchas e pequenas marcas de formação da pele,  pelos unidos à nuca pelo suor e até oleosidade na região da testa, nariz e queixo do rosto jovial do protagonista. A produção entrega, à semelhança dos blockbusters da filmografia de Spielberg, um espetáculo que visualmente não pode ser sequer posto em uma balança com qualquer um.

Para o bem do filme, entretanto, os gráficos não encerram suas virtudes. É notório imediatamente que Tintim é uma realização em animação de um filme que, na verdade, é um live-action (ou ao menos é tratado como). Os desenhos de produção são um deslumbre em forma de cenários que também ganharam um espacinho à sombra do potencial de renderização da Weta e a edição de som tem momentos de eficiência extrema (como quando um bloco de vídeo é quebrado em milhares de pedaços em câmera lenta).

Felizmente, a trama que acompanha todo o trabalho, bem adaptada se consideradas as necessidades do longa. Tintim não faz parte das referências de boa parte do público ao qual se destina o filme. No entanto, o roteiro opta não por ceder às apresentações para definir quem o personagem é, mas sim por colocá-lo em situações imediatas no início do longa que marcam o seu tipo de herói: um jornalista investigativo movido por uma coragem que só é superada pela curiosidade – quesitos estes responsáveis por colocá-lo em busca da verdade dos fatos da história (porque necessidade, na realidade, não havia). Sustentado pelo texto, Spielberg estica as pernas e desenvolve ótimas sequências tantas vezes melhores do que aquelas vistas em live-actions. Algumas chegam ao cúmulo da criatividade, como o impecável flashback da luta pirata em que duas embarcações a vela enroscam seus mastros em meio a uma tempestade, culminando em uma ótima simulação do barco viking de parques de diversões.

Tintim, aliás, não é apenas um depósito das qualidades já comprovadas de Spielberg. O longa entende com clareza o estilo dos livros de Hergé e a série em animação de TV. Respeita ambos e atinge um equilíbrio ao mesclá-los (um inteligente recurso para se direcionar àqueles que já conhecem o personagem, mas que podem tê-lo feito por meio de fontes diferentes). O tino aventuresco, obviamente, está lá como carro chefe, assim como as pinceladas de suspense elevadas pela trilha sonora (apenas boa, mas nada que relembre o que John Williams costuma fazer), bem como uma ou outra tirada cômica protagonizada pelo cão Milú ou por incompetência da vilania.

Praticamente perfeito no que se propõe a ser, As Aventuras de Tintim vale o Globo de Ouro que recebeu, mas pode não ser o suficiente para um Oscar (que deve cair para Rango). Enquanto a ação e os gráficos de Tintim são o suficiente para atraírem a atenção do time de colegas de profissão do personagem, votantes dos Globos, podem não ser o essencial quando uma carga dramática totalmente ausente aqui, e mais marcante em Rango, for requisitada para um prêmio da Academia. E se formos citar o aparato qualitativo, o camaleão da Industrial Light & Magic (por sinal maior concorrente da Weta Digital) também impressiona muito – mesmo. Mais vale guardar a expectativa para o que Peter Jackson fará com o gancho da continuação deixado em O Segredo do Unicórnio. A técnica certamente voltará com um peso maior, mas a julgar pelo o que Jackson já fez no Cinema, tudo o que não fosse sustentado pelo seu fanatismo pela Terra Média não foi muito merecedor de aplausos. E substituir Spielberg no universo em que ele é perito é um trabalho bem ingrato.

—————————————-
The Adventures of Tintin (EUA, 2011). Aventura. Sony Pictures
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Jamie Bell, Daniel Craig, Simon Pegg
Trailer

Comentários via Facebook