CRÍTICA: As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada

Aventura
// 08/12/2010

Em sua estreia como crítico no Pipoca Combo, Rodrigo Rodrigues (certamente vocês já devem ter visto o nome dele por aqui, caso já tenham apreciado algum de nossos especiais), estabelece de maneira bem ponderada as comparações necessárias entre livro e filme, tornando a leitura das impressões de As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada mais palpável tanto para fãs quanto para leigos.

O filme, que estreia nesta sexta-feira em 2D e 3D, possui um importante valor para a série como um todo, independente de o seu futuro nas telonas ser incerto ou não.

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As Crônicas de Nárnia – A Viagem do Peregrino da Alvorada
por Rodrigo Rodrigues

A saída da produtora responsável por pesados investimentos e também distribuidora dos dois primeiros filmes, a Walt Disney Company, e sua posterior substituição por uma empresa mais modesta e menos aclamada foi o bastante para boa parte dos espectadores temer o futuro da franquia no cinema. Mas agora esse se mostra um pensamento precipitado. A Viagem do Peregrino da Alvorada, terceiro e mais novo episódio do conjunto de adaptações da obra impressa As Crônicas de Nárnia de C.S.Lewis, estreia com uma linguagem audiovisual mais expressiva e coerente, sem as vaidades dos antecessores e um texto (ainda que sutilmente subversivo ao original) mais abrangente no que diz respeito ao alcance de sua mensagem aos diversos públicos.

As alterações devem ser atribuídas sobretudo ao cineasta Michael Apted, que assume a direção, e que aparentemente não teria afinidade com o gênero fantasia, sendo conhecido por dirigir documentários para a TV inglesa, e responsável pelos excelentes Jornada Pela Liberdade e Julgamento Final, ambos filmes de drama social.

O pressuposto do filme é uma viagem oceânica pelo oriente de Nárnia, a bordo do navio Peregrino da Alvorada, com o propósito de localizar os sete lordes expulsos do continente à época em que o maldoso telmarino Miraz deu um golpe de Estado e assumiu o trono. O então governante Caspian recebe em sua jornada a ajuda dos irmãos Pevensie Lúcia e Edmundo quando esses são absorvidos misteriosamente para o mundo mágico por um quadro na casa do insuportável primo Eustáquio (muito dignamente interpretado pelo jovem Will Pouter) e que embarca a contragosto na aventura.

Se no livro chega um momento em que o significado da busca se esgota e a leitura pode ficar monótona: esses excelentes nobres que estavam desaparecidos vão paulatinamente sendo encontrados, mas, afinal, não parecem lá ter muita importância (alguns até resolvem permanecer nas ilhas), no roteiro do filme resolve-se essa questão inteligentemente. A busca é direcionada, além dos lordes, para sete espadas que, reunidas, poderão dar fim a um mal em forma de nevoeiro verde (também inventado) que assola os mares desconhecidos. Um grande reforço ao fio central que conduz os acontecimentos e que dá substância à trama.

Essa suposta perda de foco no volume escrito se justifica pelo real propósito da empreitada, o caráter moralizante do texto de Lewis: a cada parada da embarcação, em cada ilha, as crianças recebem um ensinamento, e superam algumas “tentações”. Lúcia, Edmundo, Eustáquio e Caspian encarnam tipos bem definidos dentro da história e seus eventuais desvios de conduta estão passíveis de correção. E aqui cabe sinalizar que esse corretivo nunca parte (nos livros) da subjetividade das personagens, por uma descoberda interior, mas sempre de fora, por uma imposição, através da opressão. É assim que determinada personagem, quando através da magia vê a possibilidade de se destacar, tornando-se mais bonita,  é reprimida pela simples aparição momentânea de Aslam — tipo de autoridade amada e ao mesmo tempo temida que sufoca qualquer tentativa de individualidade. No filme a descoberta é interior e a lição que se recebe é ironicamente contrária, algo que soa como “Não vale a pena ir atrás desse ideal, busque a si mesmo”. Vale destacar a interessante sequência com a Susana em Miami, criada para essa parte.

Da mesma forma, no longa Caspian tem um momento introspectivo e depois a tomada de decisão, o que no livro acontece sob pressão da tripulação e mais uma vez da intervenção de Aslam sobre o impulso do monarca. Percebe-se com isso as tentativas de aprofundar psicologicamente as personagens, o que normalmente parte da anulação do subtexto religioso. E também o simples aparecimento de uma imagem considerada divina ser motivo de resolução de tantos entraves narrativos pode não agradar a todos os espectadores. É dessa forma que o diretor, especialista em dramas — e que foi um dos defensores da alteração do roteiro — consegue imprimir sua marca no projeto.

Mas sua contribuição está longe de se resumir ao texto. As câmeras sob o seu comando, por exemplo, giram confiantemente (logo na abertura do filme, numa bela paisagem arquitetônica londrina), fazem enquadramentos ousados, têm fundamental papel na construção de significados;  como na cena em que a tripulação do Peregrino vasculha a Ilha Solitária e a visão da plateia parece espreitar o lugar desconhecido, se escondendo atrás de objetos. Um enorme contraste à forma apenas contemplativa e descritiva de paisagem com a qual O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa e Príncipe Caspian foram filmados, às vezes até egocêntrica. O excesso de planos abertos e panorâmicas nos dois primeiros filmes revela um complexo de grandiosidade que nada contribui para contar a história e em certos pontos chega a ser cansativo. Sem contar a evidente preocupação em parecer O Senhor dos Anéis.

A expressividade toma conta de praticamente todos os elementos visuais de A Viagem do Peregrino da Alvorada. Saem as paisagens naturais (não totalmente, é claro) e entram os cenários criados artificialmente, que também cumprem a função de criar sentido, como acontece no sinuoso e divertido jardim do mago Coriakin, na Ilha dos Tontópodes. Ou mesmo nas desérticas e monocromáticas ruínas das Ilhas Solitárias. Os animais fantásticos em CG conseguem manter o nível de realidade alcançado anteriormente, embora apareçam menos.

Há o aparecimento de uma Serpente Marinha computadorizada capaz de causar pesadelos às crianças acostumadas com os simpáticos castores dos primeiros filmes da Disney.

As sequências de batalha são praticamente inexistentes em relação a Príncipe Caspian, mas quando acontecem são muito mais críveis – e não é um mérito do 3D que, diga-se, não exerce qualquer influência , seja ela positiva ou negativa. Os atores mais novos não atrapalham nesses momentos, ao revés do que já vimos antes.  Isso se aplica a todo filme: nenhum deles atrapalha. A única atuação mais surpreendente é a de Will Pouter que convence bastante com seu Eustáquio, embora a melhor interpretação, que conseguirá arrancar algumas lágriamas, venha da animação de um dragão.

Peregrino da Alvorada acaba se tornando uma surpresa positiva. Se preocupa em contar a sua história e usa todos os recursos fílmicos para isso. Não fica à sombra da identidade criada em outras franquias fantásticas de sucesso. Uma grande evolução na cinesérie, comparável àquela imprimida por Alfonso Cuáron em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. O principal: qualquer pessoa poderá se emocionar com a mensagem e não ficará incomodada talvez em nenhuma das passagens. O subtexto religioso vira quase uma verdade universal. Uma metáfora de como o homem se relaciona com o desconhecido, com o além-mar.

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The Chronicles of Narnia – The Voyage of The Down Treader (Reino Unido, 2010). Aventura. Fantasia. 20th Century Fox.
Direção: Michael Apted
Elenco: Ben Barnes, Eddie Izzard, Peter Dinklage.
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