CRÍTICA | As Vantagens de Ser Invisível

Críticas
// 19/10/2012

As Vantagens de Ser Invisível não é excepcional ou extraordinário, e tampouco pode ser considerado original, mas algo ali, entre a força da temática e o bom desempenho do elenco, faz com que o drama adolescente estrelado por Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller se sobressaia diante de produções semelhantes.

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As Vantagens de Ser Invisível
por Eduardo Monteiro 

Como discutido no longa australiano Griff, O Invisível, em tempos de bullying, introversão não mais implica em pouca visibilidade. Prestes a ingressar no Ensino Médio, o acanhado Charlie (Logan Lerman) não parece preocupado em esconder, ao longo da carta que escreve a um amigo (que na realidade sequer deve existir), a própria hesitação em relação aos dias de calouro que o aguardam – e o rapaz, inteligente, solitário e assombrado pelo suicídio recente do melhor amigo e por traumas obscuros do passado, logo se confirma como uma vítima fácil dos valentões do colégio. Porém, o que talvez o afaste de um esperado quadro depressivo é seu empenho tímido, mas aparentemente genuíno, de mudar a própria vida, sem o qual provavelmente não criaria as chances de conhecer e se aproximar dos meios-irmãos Sam (Emma Watson) e Patrick (Ezra Miller) e dar início a amizades capazes de redefinir sua adolescência.

Escrito e dirigido por Stephen Chbosky com base no romance homônimo de sua própria autoria, As Vantagens de Ser Invisível se vale do caráter intimista da estrutura epistolar da obra original (que reúne as tais cartas escritas pelo protagonista) para narrar de forma sensível o ano em que Charlie cria novos e importantes vínculos pessoais e se vê obrigado a enfrentar seus próprios demônios. Sem uma trama muito bem definida, o longa acompanha a evolução da desenvoltura social do rapaz em casa, no colégio ou em festas e ainda encontra tempo para abordar os dramas particulares de personagens secundários, como os percalços acadêmicas de Sam ou a rejeição que Patrick eventualmente sofre por ser homossexual.

Liderando o elenco, Logan Lerman (Percy Jackson) desponta como o grande destaque do projeto, imprimindo com admirável competência a ingenuidade e o caráter bondoso de Charlie e esbanjando expressividade em uma performance extremamente sensível – e basta observar a naturalidade e afabilidade com que o rapaz consola Patrick após certa extrapolação de intimidade deste último para perceber que Lerman é um nome a ser observado nos próximos anos. Aliás, são as sutilezas e as nuances da atuação do jovem ator que surpreendem e comprovam o pleno controle que possui sobre o personagem: a postura distante e melancólica ao longo do relacionamento com Mary Elizabeth (Mae Whitman) ou o modo ao mesmo tempo tímido e decidido como se aproxima de uma agitada pista de dança, por exemplo, são reveladores sem a necessidade de excessos.

Menos sutil, por outro lado, é o trabalho de Ezra Miller, que empresta a Patrick o desprendimento e a hiperatividade que o ator costuma exibir em entrevistas e, ainda assim, consegue se sair bem em momentos mais dramáticos e transformar o excêntrico personagem em uma figura suficientemente amigável. Por fim, é uma pena que a personagem de Emma Watson seja a menos interessante do trio, arruinando as oportunidades da atriz de comprovar seu talento; a única faceta de Sam que renderia um bom estudo é extremamente mal trabalhada, dando lugar a pequenos e abruptos ataques histéricos diante de certas músicas e a dois ou três conflitos inseridos como entraves óbvios à consumação do romance com Charlie.

Aliás, apesar da dificuldade de contornar diversas obviedades, o interesse de Charlie pela garota é fundamental para as discussões sobre felicidade e amor próprio que o roteiro levanta no terceiro ato, rendendo diálogos ricos e precisos. Como era de se esperar, Chbosky conhece como ninguém os personagens e seus dilemas e, felizmente, consegue transmitir a sinceridade de sua obra e conduz com segurança o projeto que vinha idealizando há anos, embora, como diretor e roteirista, falhe ao incluir algumas passagens redundantes e, vez ou outra, ao executar elipses de forma relapsa, prejudicando pontualmente o ritmo. Além disso, mesmo moldando o conteúdo a uma classificação etária mais abrangente, o filme não deixa de tocar com franqueza nos assuntos polêmicos que levaram o livro a ser proibido em alguns lugares do mundo, como suicídio, consumo de drogas por menores ou abuso sexual.

Com uma trilha fabulosa escolhida a dedo e um elenco de apoio que inclui boas pontas de nomes fortes como Paul Rudd e Joan Cusack, As Vantagens de Ser Invisível é emotivo na medida certa e traz uma história de amizade delicada e inspiradora em uma fase naturalmente dramática na vida de qualquer um – e, por essa razão, não é muito difícil imaginar as razões que fizeram o livro tocar intimamente tantas pessoas desde seu lançamento. Agora, o caminho está aberto para que a versão cinematográfica faça o mesmo.

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The Perks of Being a Wallflower (EUA, 2012). Drama. Paris Filmes.
Direção: Stephen Chbosky
Elenco: Emma Watson, Logan Lerman, Paul Rudd, Nina Drobev

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