CRÍTICA | Assassin’s Creed

Ação
// 12/01/2017
assassins creed

O espinhoso nicho cinematográfico de adaptações feitas a partir de videogames acaba de atingir um ponto curioso em sua breve e capengante história: o momento em que, por uma combinação da evolução natural do meio de origem – os games – em termos de apuro visual e narrativo, da influência do sucesso na tela grande de um meio adjacente – os quadrinhos – e do puro desespero por material novo por parte dos grandes estúdios, essas adaptações deixam de ser meras representações imbecis dos originais, como os filmes baseados em Double Dragon, Street Fighter e Need For Speed, ou histórias largamente divergentes dos jogos, mantendo poucos elementos e o nome, como a tenebrosa franquia cinematográfica de Resident Evil, e passam a ser tratadas com a devida seriedade – e orçamento de primeira linha.

O outro lado da moeda é pensar que o que vai agradar aos fãs dos games em questão no cinema não é necessariamente o que o público geral, que não tem familiaridade com o material de origem, busca em um filme. Em Assassin’s Creed, o diretor Justin Kurzel (de Macbeth: Ambição e Guerra) adota a abordagem do fan service, ou seja, foca porções significativas da obra em referências visuais e conceituais que só serão reconhecidas e apreciadas por quem conhece bem pelo menos um dos muitos jogos da série, o que aliena a inevitavelmente maior fatia do público que está ali unicamente pelo entretenimento cinematográfico.

A trama, assim como nos jogos, engloba – pelo menos – dois períodos históricos distintos, retratados com admirável fluidez na sequência inicial: a Inquisição Espanhola e o mundo contemporâneo. Isso porque uma organização administrada pela versão atual da ordem histórica dos Templários desenvolveu um aparelho, o Animus, que é capaz de ler as memórias ancestrais gravadas no DNA humano. A partir dessa tecnologia, o diretor da organização, Alan Rikkin (Jeremy Irons, mais à vontade que em Batman v Superman), por meio de sua filha cientista Sophia (Marion Cotillard), busca decifrar nas memórias do assassino Aguilar de Nerha (Michael Fassbender), gravadas na genética de seu descendente Callum Lynch (idem), o paradeiro de um artefato misterioso que pode definir o futuro da humanidade, para o bem ou para o mal.

O longa executa melhor do que os jogos a tarefa de equilibrar o avanço da história “atual” com o desenrolar das memórias de Callum, no que efetivamente resulta em duas tramas interligadas avançando paralelamente. Ao longo de numerosas cenas de luta impecavelmente coreografadas, Fassbender, em formidável forma física, executa movimentos clássicos da série eletrônica, inclusive repetindo-os em mais de um momento, como um personagem de videogame dotado de um número finito de comandos.

Essa atenção aos detalhes plásticos, contudo, acarreta em um desenvolvimento desigual do roteiro, que por vezes avança de forma demasiadamente lenta, para em seguida atropelar elementos sem o devido cuidado, como a tradição da franquia de incluir figuras históricas na trama. Assassin’s Creed representa uma nova fase para as adaptações cinematográficas de games, e é provavelmente a melhor delas desde os dois filmes Silent Hill de 2006 e 2012. Infelizmente, esse título – ainda – não quer dizer tanta coisa assim.


Assassin’s Creed (EUA / França / Reino Unido, 2016)Ação. Ficção científica. Regency Enterprises, Ubisoft.
Direção: Justin Kurzel
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Charlotte Rampling.

6-pipocas

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Ação, Críticas, Games