CRÍTICA: Avatar – O Último Mestre do Ar

Ação
// 19/08/2010

Depois de tanta má repercussão, não havia mais como se decepcionar com Avatar – O Último Mestre do Ar, apenas constatar um erro. Dos grandes. M. Night Shyamalan dá as primeiras apunhaladas em uma possível franquia infantil de sucesso com um roteiro sem atrativos e cenas de ação que não aproveitam o que tem em mãos.

Leia a crítica clicando em

Avatar – O Último Mestre do Ar
por Arthur Melo

Se existe alguma prova sólida de que um bom filme não necessariamente garante o bom senso de um diretor eternamente, ela se personifica em M. Night Shyamalan. Lançado ao sucesso depois do excelente resultado com o suspense O Sexto Sentido, Shyamalan ganhou todas as oportunidades que um iniciante do campo comercial poderia desejar para produzir suas ideias. É uma lástima pensar que a história que lhe deu renome foi um lampejo de lucidez que a cada filme lançado parece mais improvável de se repetir. Avatar – O Último Mestre do Ar é só mais um exemplo de quão falhos são os rótulos em Hollywood.

A história se passa em um mundo habitado por quatro nações, cada uma dominante de um elemento da natureza. Destas, a Nação do Fogo, movida pela ganância e prepotência, declara guerra às demais, instaurando o caos e fazendo povoados completos seus prisioneiros, matando aqueles que tivessem a capacidade de domar o elemento respectivo ao seu grupo. A esperança do mundo está em Aang, a encarnação de uma divindade capaz de comandar os quatro elementos e mudar os corações daqueles que planejam o mal. Mas Aang é apenas um garoto cujo treinamento ainda não passara das habilidades com o ar. Agora, o menino precisará contar com a ajuda de Katara e Sokka para chegar até a Tribo das Águas do Sul e dar continuidade ao trabalho iniciado quando em seu povoado.

Adaptado do popular desenho da Nickelodeon (Avatar – A Lenda de Aang), o longa afunda principalmente naquilo que Shyamalan vem causando “decepções” há tempos (devidamente entre aspas, porque já não há mais o que se esperar): o roteiro. Um ponto que merece a devida atenção. Apesar da má recepção da crítica e de maioria esmagadora do público, M. Night continua atraindo bons visitantes às suas salas de exibição. O motivo é muito simples, Shyamalan é, mesmo sob todos os argumentos contra, criativo. Sua maneira de filmar é simples e suas histórias, de fato, originais (uma raridade hoje). Mas os maus rumos dados às suas tramas, inicialmente instigantes, revelam um declínio considerável em relação à sua “obra-prima” e, observadas amplamente, compõem um quadro crítico quanto à saúde do diretor como roteirista. A cura paliativa estaria em O Último Mestre do Ar, uma história externa, fechada e aparentemente imune à mão de Shyamalan, cujos únicos crimes possíveis só alcançariam a direção.

O problema de O Último Mestre do Ar não está em aspectos isolados – eles até existem, mas só para completar um estrago maior. Como no desenho original, a história é subdividida em grandes volumes e o “Livro Um: Água” compreende todo este longa, pensado como o início de uma trilogia. Entretanto, o roteiro adaptado de Shyamalan acelera e atrasa passagens de mais de uma temporada do seriado, procurando estabelecer uma narrativa autossuficiente. De fato ela é, mas termina dando margem para furos gigantes. Não que a trama seja incoerente, há um propósito para cada caminho tomado pelos personagens, mas nem sempre eles são claros. O que é curioso, visto que o roteiro foi obviamente arquitetado mais para dar respaldo a uma história que precisa ser contada do que dar palco para sequências de pancadaria. Mas faz errado quando esquece o tipo (e a idade) do público alvo, investindo numa guinada espiritual incompreensível para os menores e medíocre para os mais velhos – isto sem mencionar a subdivisão étnica e certa grosseria na distribuição de seus papéis. O resultado é um filme de ação sem ação que não compensa pelo conteúdo.

O elenco também não ajuda, mediante uma seleção que não poderia ser pior. Desinteressada em perder tempo com treinamentos e workshops, a produção achou conveniente escalar um campeão júnior de tae-kwon-do (Noah Ringer, que não é ator) para dar “vida” a Aang, e um bom talento para se desperdiçar em uma atuação risível, como o vilão Príncipe Zuko (Dev Patel, de Quem quer Ser um Milionário?). Inesperado, Jackson Rathbone (o Jasper de Crepúsculo, como bem destaca o apelo do comercial de TV no Brasil) se destaca mais pelo demérito de seus companheiros do que por seu trabalho em cena – que não é ruim.

Mas o mais desesperador no longa é notar o grande desperdício que ele é. A direção de arte é um primor (os navios da Nação do Fogo são um deslumbre pelas mãos do desenhista de produção); a trilha sonora de James Newton-Howard, um acerto delicioso de se ouvir; e os efeitos visuais da Industrial Light & Magic (empresa de George Lucas, pioneira no ramo), um impecável evento protagonizado pelas belíssimas e agressivas dobras de água durante as batalhas. No que M. Night Shyamalan acertou, preocupando-se com esses quesitos e guiando-os bem, errou nas suas escolhas mais singelas. Os planos mais favoráveis são aqueles que atraem a vista graças à presença da computação gráfica em algum canto da tela e o vai e vem do recurso do slow-motion atenta ao enjoo logo na segunda tentativa. O 3D (apesar de já não ser parte de sua alçada, mas não menos importante), inserido em pós-produção, pode não ser tão sofrível quanto o de Fúria de Titãs, mas não fornece serventia alguma nem ao menos para incrementar os elementos da natureza quando passam pela tela, permitindo ao uso dos óculos um caráter não mais adiante do que opcional em certos momentos.

Amenizando a situação, Avatar – O Último Mestre do Ar pode não ser uma perda total. Com as devidas correções e os cortes certos (não orçamentários, é claro), a trilogia vindoura pode ter salvação. Ao menos o material original oferece bons campos para isso e a técnica empreendida nesse primeiro capítulo já se mostrou muito eficiente em recriar o mundo de seus personagens. Resta saber se as boas escolhas serão feitas e se haverá um casamento pacífico entre os interesses comerciais e artísticos. Talvez, com as devidas medidas tomadas para com a franquia, esse possa ser um filme a se ignorar no futuro, e não um desgosto para sempre incômodo.

——————————-

Avatar – The Last Airbender (EUA, 2010). Ação. Fantasia. Paramount Pictures.
Direção: M. Night Shyamalan
Elenco: Dev Patel, Noah Ringer, Jackson Rathbone

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Críticas, Fantasia