CRÍTICA | Aviões 2: Heróis do Fogo ao Resgate

Animações
// 16/07/2014

Contrariando as péssimas expectativas deixadas há menos de um ano pelo predecessor, Aviões 2: Heróis do Fogo ao Resgate é um filme que até consegue decolar, embora sobrevoe terrenos pouco férteis, atravesse ares que carecem de frescor e não esteja livre de suas turbulências particulares.

Aviões 2: Heróis do Fogo ao Resgate
por Eduardo Monteiro

A animação Carros, de 2006, é tanto uma das menores bilheterias da Pixar quanto uma das mais lucrativas marcas desenvolvidas pelo estúdio, considerando o enorme sucesso da ampla variedade de produtos licenciados relacionados ao universo do filme. Aviões, de certa forma, é um deles: lançado nos cinemas há menos de um ano como uma produção desvinculada da Pixar, o longa claramente tentava lucrar em cima da criação de John Lasseter sem qualquer traço de ambição, estabelecendo “o mundo acima de Carros” como um esforço meramente oportunista e muitíssimo inferior à sua fonte de inspiração, mesmo reaproveitando vários de seus elementos. Por essa razão, é no mínimo surpreendente que uma produção tão tola e sem vida tenha ganhado uma continuação tão… razoável.

Produzido pela DisneyToon Studios (subdivisão da companhia do Mickey Mouse responsável por continuações de qualidade duvidosa de clássicos do estúdio e filmes derivativos como os da franquia Tinker Bell), o longa traz o ex-avião pulverizador Dusty Voo-Rasante tendo sua breve e apoteótica carreira como aeronave de corrida sendo interrompida por um defeito incorrigível na caixa de redução, mecanismo cujo modelo encontra-se fora de linha e, portanto, indisponível para substituição. Desobedecendo o conselho médico/mecânico de não exceder o limite de segurança estipulado para manobras arriscadas, Dusty acaba provocando um grande incêndio em um posto de combustível de Propwash Junction – o que chama a atenção das autoridades para a falta de preparo e estrutura do departamento de bombeiros da localidade. Assim, o protagonista se dispõe a ser treinado e equipado para se tornar um SEAT (sigla em inglês para aviões usados no combate às chamas), de modo a cumprir as metas estipuladas para que o aeroporto da cidade seja reaberto e o tradicional Festival do Milho não seja cancelado.

Escrito por Jeffrey M. Howard e pelo diretor Bobs Gannaway, o roteiro certamente não é o ponto alto do projeto: como era de se esperar, Dusty é alvo de desdém por parte dos experientes membros da companhia de combate a incêndios do Parque Nacional Pico Pistão até conseguir provar seu valor e conquistar a confiança do grupo – e também não é nenhuma surpresa que o rígido e exigente líder da equipe, o Patrulheiro Blade, possua um passado obscuro e seja particularmente desconfiado e rigoroso com o protagonista, selando a batida relação entre tutor e aprendiz que já havia sido desenvolvida de forma bem parecida tanto no filme anterior quanto em Carros. Da mesma forma, é frustrante notar como os roteiristas usam uma subtrama absolutamente deslocada envolvendo um casal de trailers como distração para a grande crise do terceiro ato, cuja difícil e desafiadora resolução não é revelada para o público.

Todavia, o roteiro é redondinho, coeso e enxuto o suficiente para não aborrecer: os constantes reforços do heroísmo de Dusty são bem mais toleráveis que a trama do underdog em competição desenvolvida pelo filme anterior, por exemplo. Além disso, Aviões 2 parece o projeto mais cinematográfico do renegado DisneyToon, a começar pela decisão de apresentar o filme em Cinemascope (formato de tela mais largo, na proporção 2.35:1), mais simpático às telonas do que às telinhas. Da mesma forma, a qualidade técnica não deixa nada a desejar em relação a outras produções animadas da Disney, ao passo que a direção de Gannaway é surpreendentemente segura, competente e repleta de decisões acertadas, como simular câmera na mão em sequências de ação ou abafar o áudio em cenas de grande risco e tensão.

Por fim, é praticamente impossível falar sobre Aviões 2 sem abordar o trabalho de dublagem da versão brasileira – um dos mais embaraçoso a que já fui exposto. Antes de mais nada, a participação de Tatá Werneck não chega a incomodar ou comprometer, já que a personagem possui um papel secundário irrelevante e sua personalidade avoada combina com o jeito espevitado da comediante. Porém, o grande erro da distribuidora foi, sem sombra de dúvida, a contratação de Gregório Duvivier para auxiliar na inserção de piadas e outras linhas engraçadinhas compatíveis com o humor brasileiro no roteiro da dublagem – e embora o comediante seja um roteirista talentoso, o resultado é uma salada de frutas vergonhosa de referências anacrônicas e ilógicas, que inclui menções ao Rei do Camarote, diversas linhas do funk Beijinho no Ombro e o uso esquizofrênico de expressões e bordões como “Sabe de nada, inocente”, Zap Zap e “Cada mergulho é um flash”. Para se ter ideia, quando um sofisticado hotel para carros e aviões precisa ser evacuado às pressas em decorrência de um incêndio florestal a certa altura da narrativa, o presunçoso e inconsequente proprietário do estabelecimento tenta impedir que seus hóspedes abandonem o edifício com um “Keep calm e deixa de recalque”, o que não faz o menor sentido e não é, em nenhum nível, uma tirada minimamente engraçada.

Decisões como essa, que soam como esforços desesperados para atrair publicidade para o lançamento (enquanto, na verdade, se sujeitam ao risco de até mesmo afastar o público), são dignas de pena, já que Aviões 2 é surpreendentemente bom para a sequência apressada de um filme tão derivativo.

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Planes: Fire and Rescue (EUA, 2014). Animação. Disney.
Direção: Roberts Gannaway
Elenco: Dane Cook, Julie Bowen, Ed Harris

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