CRÍTICA | Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Ação
// 25/07/2012

Um filme tão ansiado quanto Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge dispensa introduções. As que já foram feitas você já leu aqui, nas nossas Primeiras Impressões. Agora, leia a crítica completa do final da trilogia de Christopher Nolan para o Homem-Morcego.

Não deixe de conferir também o nosso especial do filme!

Batman: O Cavaleiro da Trevas Ressurge
por Virgílio Souza 

 Parece desnecessário afirmar que Christopher Nolan é um cineasta ambicioso. Responsável por reconduzir a franquia do Homem-Morcego aos trilhos certos – não somente pelo vínculo mais estrito com o caráter sombrio dos quadrinhos que a deram origem, o que agrada aos fãs, mas também pela qualidade dos filmes realizados – e por se aventurar no comando de um blockbuster como A Origem, que foge do padrão dominante, o produtor-diretor-roteirista não se contentou em entregar um filme “menor” para encerrar sua tão celebrada trilogia. A pretensão de Nolan, no entanto, não é absolutamente positiva, e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é sinal claro disso.

Passados oito anos desde o desaparecimento do Batman, motivado pela morte de Harvey Dent e pelo sucesso obtido no combate à máfia e ao Coringa, Bruce Wayne (Christian Bale) vive recluso em sua mansão, tendo contato apenas com o mordomo Alfred (Michael Caine, dono da melhor atuação do elenco). De modo a estabelecer o que acontece no mundo exterior, o longa nos apresenta uma série de caras novas logo no início da projeção e, ainda que nem todas revelem de imediato suas ambições e funções narrativas, é possível perceber, simplesmente pelo tempo que ocupam em cena, que tais personagens possuem arcos bem definidos (bem como aquelas já conhecidas dos filmes anteriores) e que precisarão ser concluídos ao fim de pouco menos de três horas.

Nesse sentido, os irmãos Christopher e Jonathan Nolan parecem querer dar um passo maior que as próprias pernas. O problema, aqui, é ter um sem-número de personagens que, sufocadas em meio à ação da disputa entre mocinho e bandido, jamais chegam a se desenvolver plenamente (há exceções, e trataremos delas mais adiante). Nota-se que a estrutura narrativa criada pela dupla não é sólida o suficiente para responder a todas as demandas exigidas por uma proposta tão audaciosa – que, em termos simples, pode ser reduzida da seguinte maneira: Batman é forçado a abandonar sua aposentadoria para combater um terrorista que pretende destruir Gotham.

O vilão em questão é Bane (Tom Hardy, impecável, especialmente por seu trabalho de voz e preparação física), que busca não apenas promover o caos na cidade, como desejava o Coringa, mas arruiná-la por completo. A tentativa de construí-lo como uma figura complexa e mais do que uma montanha de músculos é válida, mas jamais ganha contornos plenamente satisfatórios: a subtrama que o leva até Bruce através de um corrupto na Wayne Enterprises (Daggett, vivido por Ben Mendelsohn) e todo o processo que leva à tentativa de destruição financeira de Gotham são enfadonhos, prolongando desnecessariamente o longa. Além disso, sua motivação essencial para destruir tudo o que o Batman defende (revelada somente no terceiro ato e seguida por uma desastrosa conclusão) soa frágil, se comparada com os elementos fundamentais da construção do personagem: ele é um assassino brutal, que usa de tortura psicológica e desespera a todos, mas, no fim das contas, é só uma espécie de peão para fazer cumprir o destino?

Felizmente, os arcos da anti-heroína Selina Kyke (Anne Hathaway) e do policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt) são percorridos e completados com maior eficácia, muito em função da relativa simplicidade de suas trajetórias em relação à de Bane. Hathaway é competente ao encontrar o equilíbrio entre a jovem oprimida e descrente, mas forte e determinada, e a ladra ágil e imponente, funcionando muito bem também nas sequências de ação. Gordon-Levitt, por sua vez, rouba a cena sempre que surge em tela, sendo capaz de conciliar com perfeição os momentos de intensidade e sensibilidade. Sua existência como espelho de Bruce Wayne e reflexo do Batman é indispensável para a trama, em que, por vezes, ele aparenta ser o protagonista.

Inicialmente, a presença de Blake e de outros oficiais – como o dispensável Foley (Matthew Modine) – parece sugerir que a trama se desdobrará nos moldes de um filme policial em que se busca desmantelar um esquema de corrupção e caçar o responsável pelo seu funcionamento, como ocorre em O Cavaleiro das Trevas. Porém, o que se vê é a opção pela guerrilha urbana, dado o contexto em que Gotham se encontra. Ousada, a manobra rende bons resultados, como a vigilância tensa e quase clandestina do Comissário Gordon (Gary Oldman, excelente) ao esquema das milícias comandadas por Bane.

Por outro lado, a opção por esse tipo de conflito se mostra falha, uma vez que o combate em grupo é filmado de maneira problemática por Nolan. Assim, ainda que o clima de batalha campal seja promissor, pouco se extrai dele, e as lutas generalizadas nas ruínas da cidade, que pouco empolgam, contam com um senso espacial bastante distorcido. Igualmente deficiente é a forma como o diretor retrata os combates entre o herói e seus grupos de inimigos: todos carregam armas, mas, tal como num filme B de artes marciais, jamais atiram e aguardam em círculo, um a um, pelos golpes sempre fatais do Batman.

Exceção positiva a essa tendência seriam as lutas contra Bane. Filmados em primeiro plano, herói e vilão trocam golpes de maneira realista: Batman, envelhecido e ofegante, agoniza a cada soco dado, ao passo que seu rival se mostra obcecado, somente emitindo sons para anunciar suas intenções de quebrar o Homem-Morcego – e seus discursos são desesperadores. Aqui, a trilha sonora de Hans Zimmer (a melhor da trilogia, principalmente quando não recorre aos repetitivos corais) encontra seu ponto alto, chegando a agregar mais para a carga dramática da situação do que as imagens, fotografadas sem grande inspiração por Wally Pfister.

Acima de tudo, incomoda notar que o mencionado realismo dos combates individuais não se faz presente em outros elementos da narrativa. Nolan rompe a sustentação da trama na realidade sem estabelecer critério algum, sempre que lhe é conveniente, prejudicando o caráter verossímil de diversos momentos do longa – é o que ocorre entre o segundo e terceiro atos, sobretudo quando os veículos do Batman se tornam onipresentes.

Também é pouco consistente o romance desenvolvido entre Bruce e Miranda Tate (Marion Cotillard), que acaba abreviado. Muito embora o roteiro se esforce para conferir importância a cada uma das cenas em que o casal se encontra, chegando a exagerar no tom em várias delas (ignora-se o fato de que o milionário carrega um fardo pela morte de Rachel, tratada por ele como o aspecto mais importante de sua vida), não se constrói uma linha que encaminhe seu breve relacionamento até o desfecho e que seja capaz de dotá-lo de relevância.

A pouca sensibilidade de Nolan para filmar e tratar a maior parte das relações mundanas surge, ainda, quando se alteram as reações de Alfred às aventuras de Bruce – algo que acaba corrigido posteriormente, mas que peca por desperdiçar a capacidade emotiva de um dos momentos cruciais da trilogia, nos corredores da mansão Wayne. Ainda assim, é interessante notar como, durante o segundo ato do filme, o mordomo é substituído por outra figura (interpretada por Tom Conti, ótimo) em sua função de “voz da consciência”. O problema, aqui, é notar que o protagonista se ausenta por um longo período do centro das atenções, ocupando tempo restrito em cena – o que se torna ainda mais decepcionante, visto que Bale nunca esteve tão confortável no papel (nem mesmo em Batman Begins, quando praticamente carregava a trama nas costas).

A busca do diretor por conferir um senso megalomaníaco de urgência a tudo o que acontece também prejudica o ritmo do filme. É incômodo perceber que, após dezenas de planos meticulosamente elaborados para combater a vilania e tornar Gotham um local pacífico, o futuro da cidade dependa de um artefato cronometrado. Símbolo da baixa solidez do roteiro, a enorme ameaça por ele construída – e alarmada através de saltos temporais irregulares (“faltam 28 dias!”, “faltam doze horas!”) – repete fórmulas antigas, típicas de produções pouco criativas e ambiciosas, e nada compatíveis com as supostas ambições realistas de Nolan desde o reinício da franquia.

De todo modo, apesar de seu desfecho atropelado, que precisa encerrar diversos arcos e gerar coesão ao produto, como um todo, o saldo é satisfatório. Ancorado em atuações precisas, responsáveis pelo sucesso da narrativa para além dos tiros, explosões e frases de efeito (que, nesse capítulo, aparecem em maior número), Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é um encerramento impactante para uma trilogia que, nos últimos sete anos, tem sido capaz de fugir do lugar-comum e reinventar com enorme competência o tratamento oferecido a filmes de super-heróis.

Adendo (26/07): Eu escrevi a crítica e decidi a nota (bastante arbitrária, é verdade), então acho interessante desenvolver brevemente o raciocínio. A discussão é parte do processo e espero que vocês retornem a ela quando virem o filme, concordando ou não com o que foi escrito aqui.

As críticas apontadas são, em sua maioria ressalvas, embora o tom possa dar a entender que o filme é péssimo – e ele está beeem longe de ser. Explico: considerando que quase tudo funciona muitíssimo bem, optei por me dedicar ao que não funciona (ou que se encontra um ou dois degraus abaixo do restante, em termos de qualidade). Ter gastado mais linhas com os problemas não significa que eles prejudiquem sobremaneira o fim da trilogia, correto?

Pensando de uma maneira diferente, a nota é essa porque o filme possui ingredientes suficientes para conseguir um dez (e dá essa sensação em diversos momentos, admito), mas peca em determinados pontos e acaba se distanciando da “perfeição”. Tomando como exemplo Bane: o que é dito na crítica é que ele se desenvolve de maneira excelente, mas peca por não completar seu arco de modo tão satisfatório (assistir ao filme torna todos os exemplos citados mais claro, vocês verão). Por isso, se eu fosse avaliá-lo, diria que é um vilão “nota 8″, mesmo que tenha ficado desesperado ao vê-lo em cena durante a sessão.

Assim, ainda que os problemas apontados sejam muitos, eles não comprometem o resultado final, que, como dito, é pra lá de satisfatório, graças às grandes atuações, aos novos personagens (que, em sua maioria, são ótimos), à boa parte das sequências de ação, ao clima de tensão, à trilha sonora, aos momentos de maior sensibilidade (os quais preferi não desenvolver, temendo que os spoilers prejudicassem a experiência dos leitores, mas que existem aos montes), enfim.

Não se enganem pela nota ou se prendam a ela: eu gostei bastante do filme. A opção por desenvolver mais detalhadamente os problemas é justificar exatamente o porquê de não ser um dez – e eu aposto que, quando o filme estrear, essa será a sensação de boa parte dos admiradores da franquia (como foi a minha, em momentos específicos do filme).

 

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The Dark Knight Rises (EUA, 2012). Ação. Warner Bros.
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Christian Bale, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Anne Hathaway

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