CRÍTICA: Battleship – Batalha dos Mares

Ação
// 10/05/2012

E quando um filme quer desesperadamente seguir a linha de outro que, por sua vez, já não era bom? Dificilmente coisa boa sairá daí. Battleship – Batalha dos Mares é um verdadeiro projeto para gerar dinheiro e potencializar uma marca. Só. Se houver quem ainda consiga desligar o cérebro, pode ser que o filme entretenha por algumas horas. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Battleship – Batalha dos Mares
por Arthur Melo 

Criar uma história é uma tarefa complicada. Criar uma boa história é desafiador. Mas criar uma boa história presa a limitações prévias é como tirar leite de pedra; nada impossível, mas problemático. Battleship – Batalha dos Mares, adaptação do popular jogo de tabuleiro Batalha Naval, é uma produção sofrida. Além de ter sido entregue a roteiristas incapazes de desenvolverem uma trama com uma estrutura totalmente nova preso ao conceito do jogo, cai no redemoinho de más opções do argumento e ainda fica a todo momento na sombra de Transformers – tanto por sua tentativa clara de se parecer com o filme dos robôs quanto por se mostrar inferior em um quesito ou outro –, o que é um péssimo começo de conversa.

No filme, Alex Hopper (Taylor Kitsch, que a cada dia que se mostra melhor em escolher papéis em filmes ruins) é um jovem de 24 anos que não conquistou nada na vida além de carimbos em sua ficha policial. Cansado da mordomia que dá ao jovem, seu irmão e Comandante da Marinha Stone Hopper (Alexander Skarsgård, o Erik de True Blood) resolve que o levará consigo para o alto-mar, a fim de plantar alguma responsabilidade na vida de Alex – o que, obviamente, não virá tão cedo. Durante uma série de exercícios simulados, o planeta é invadido por uma raça alienígena que chegou até a Terra por meio de um sinal enviado por nós mesmos e, agora, utilizarão esse mesmo sinal para trazerem todo o seu arsenal bélico para conquistar o mundo. Escondidos no mar, os alienígenas terão como única força inimiga a Marinha norte-americana e a fibra “moral” de Alex, que precisa não só salvar o planeta, como conquistar o reconhecimento do Almirante Shane (Liam Neeson), pai de sua noiva.

Tudo começa errado em Battleship. Da história às preferências visuais do filme. E isso engloba tudo, mesmo. À primeira vista, a ideia da realização do longa sugeria uma verdadeira produção de guerra que, se bem feita, saberia utilizar a História como pano de fundo, o que relativamente justificaria a troca de disparos no oceano. Por preguiça ou subestimação do público, sai a Guerra e entram os E.T.s, inserindo uma prepotência ímpar ao achar que em um filme mal concebido seria possível acreditar que extraterrestres se instalariam em nossos mares ao invés dos céus. Quase dá para admitir que ou os invasores eram videntes ou deram uma tremenda sorte de haver água em um planeta de estrutura até então desconhecida, possibilitando um encaixe com sua tecnologia de camuflagem.

Mas a opção inicial em volta da qual cresce o longa não é o maior dos problemas. Ao longo da narrativa, muitas escolhas fáceis são feitas e o que mais irrita em Battleship é o seu retorno às bobalheiras americanas que até Transformers (que, deve ser insistido, o filme teima em ter como modelo) teve a decência de impor em menor escala. O que leva a crer que uma raça alienígena com tecnologia claramente mais avançada seria abatida por um jurássico navio terráqueo? Ou que cometeria erros que obviamente ferem a inteligência necessária para gerar e programar máquinas de tamanho colossalmente superior aos navios que as enfrentam? O espírito das Forças Armadas dos EUA, claro. O endeusamento do militar norte-americano é tão grotesco e patriótico que em dados momentos chega a causar repulsa ou uma pontada de vergonha pelo cinismo. Um ótimo exemplo é a recolocação em campo da velha guarda da Marinha, em câmera lenta e passos firmes, acompanhada por uma trilha sonora de cunho heroico que dá até margem para rir de constrangimento. Não bastante, ainda há a inserção com grande participação de um ex-soldado em crise por conta de sua aposentadoria por invalidez, cuja deficiência, somada à personagem com quem o soldado se alia, já entrega todo o seu grandioso final com moralismo agridoce. Isso sem mencionar a partida de Futebol entre EUA e Japão para sintetizar anos de História.

Mesmo assim, Battleship tem algo a se gabar. Perto do grande oceano de complicações, é bem pouco, mas é algo a se aplaudir a ideia de filmar algumas das cenas em mar aberto, cuja qualidade do resultado vai muito além de qualquer encenação em um tanque de estúdio. E os efeitos visuais nas sequências mais complexas convencem sem titubear, ainda que denunciem certa fraqueza em detalhes básicos de cenas nas quais atuam como coadjuvantes ou, pior, sejam utilizados para sequências sem importância (como a rodovia sendo destruída). Claro, tudo mascarado pelo visual que parece misturar J.J. Abrams com – de novo – Transformers (os contrastes e a iluminação azul, deixando as cores quentes apenas para os tons de pele ou para uma figuração do Sol, provam isso). Mas é de se espantar que o Design de Produção tenha inovado e apresentado alienígenas muito próximos da figura humana – um toque bem-vindo ao filme – e dá pra ver o quanto Rihanna estava se divertindo com sua personagem a ponto de ser uma presença interessante na tela.

Battleship incomoda não por ser o filme fraco que é, mas por ser um tremendo desperdício de um tema divertido. É um material que poderia entregar momentos muito mais prazerosos do que a breve sequência que remete especificamente ao jogo de tabuleiro, em certa etapa antes do clímax. No lugar, usa um título conhecido para fisgar um público que, segundo o próprio estúdio aparentemente acredita, não consegue gostar de algo diferente de Transformers, caso venha com o selo da Hasbro. Não foi surpresa nenhuma constatar nos créditos que até o autor da já idêntica trilha sonora era o mesmo do longa dos robôs que ao menos tinham uma parcela mínima de carisma como personagens.

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Battleship (EUA, 2012). Ação. Universal Pictures.
Direção: Peter Berg
Elenco: Liam Neeson, Alexander Skarsgard, Rihanna

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