CRÍTICA: Besouro Verde

Ação
// 17/02/2011

Com um atraso pequeno, chega aos cinemas em 2D e 3D a adaptação Besouro Verde. Mesclando humor com cenas de ação, o filme perde pontos significativos justamente por não saber até onde esses dois elementos da narrativa devem se misturar, fazendo do longa uma grande desordem quase sem graça.

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Besouro Verde
por Arthur Melo e Henrique Marino

Seth Rogen sempre foi conhecido por suas comédias. Boas ou ruins, o destaque sempre estava em seu tom de humor cuja fluência se encaixava perfeitamente nas situações que protagonizava. Mas a verdade é que, exceto um acerto aqui e outro ali, nenhuma produção que contou com sua participação entregava uma história tão interessante quanto a atuação de Rogen. Já Michel Gondry é um grande diretor. Apesar dos poucos longametragens, seu currículo possui inúmeros videoclipes que o fazem o nome que é. Entre seus poucos trabalhos para o cinema, está Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, um dos filmes mais aclamados por crítica e público da última década. Para mudar o jogo de ambos, veio a investida no mercado dos filmes de ação, e é aí, em Besouro Verde, que Seth e Michel derrapam feio na frustrante tentativa de conciliar aquilo que fazem bem com aquilo que nunca experimentaram.

No filme, adaptado de um programa de rádio de sucesso da década de 30 e de seu posterior seriado de TV com Bruce Lee, encerrado no final da de 60, Roger é Britt Reid, um playboy herdeiro do jornal Sentinela Diário, que, junto de seu empregado Kato (precisamente mecânico e motorista, versado em artes marciais), resolve virar uma espécie de justiceiro para exterminar os bandidos da cidade. No entanto, Britt Reid, agora por baixo da máscara do Besouro Verde, não contava que se disfarçar de criminoso para ganhar o respeito de outros criminosos despertaria a ira do maior chefão do crime organizado de Los Angeles.

A produção parece sem controle. Não existe uma linguagem bem definida, nem escolhas certas; não há balanceamento correto na duração do tempo das cenas e dos personagens. A trama, por vezes, enfoca durante demasiado tempo numa situação sem extrair nada de relevante para a sua continuidade, enquanto relega ao plano de fundo outros núcleos, como o do antagonista. O resultado é uma típica mesclagem de várias associações de diversos longas com temática parecida. A morte misteriosa de um pai milionário, o desejo despertado por impor a paz, o uso de geringonças de alta tecnologia fabricadas dentro de sua própria casa a seu favor e o disfarce duplo. Não existe espaço para qualquer surpresa ou inovação. Mesmo os pôsteres das propagandas reforçam essa visão: em muitos, é possível ver a brincadeira com personagens-chave: “o herói”, “a bela”, “o vilão”, “a arma-secreta”.

Aproveitando a personalidade do personagem principal, um jovem bastante idiota que herda um grande jornal de seu pai, Seth Rogen, e toda sua habilidade humorística, trabalha sobre as trapalhices do Besouro Verde e seu alter-ego Britt Reid. A estupidez do personagem é tão grande que corre o risco de perder a simpatia daquela parte do público que não aprecia muito esse tipo de personagem ou humor. Ou seja, o ponto forte do roteiro se equilibra numa corda bamba chamada espectador. Logicamente que por se tratar de uma obra não-original, a obediência aos méritos e deméritos de cada personagem segue uma linha restrita. Mas é aí que justamente a adaptação deveria pesar. É notável o quão Besouro Verde funcionaria melhor como filme, não fossem as injeções descartáveis de humor de cima abaixo na composição do protagonista a todo instante, sem distinguir estar apropriado para o momento, ou não. Roger grita loucamente para extrair ou cair na graça quando não deve, gesticula e se expressa quando poderia deixar o texto delimitar o humor e falha até no melhor momento de ação do herói. Mesmo com a sombra de Kato (Jay Chou) como alívio não cômico, mas de comprometimento, é realmente o protagonista que ganha, infelizmente, os holofotes do filme.

Neste ponto (e é até surpreso dizer isso), Cameron Diaz (como Lenore Case) se sobressai. A personagem é firme e constante e, para sua satisfação, Diaz repete essas características na forma de aspectos qualitativos em sua atuação. Do outro lado da trama, Christoph Waltz, como o impronunciável (literalmente, para alguns) vilão Chudnofsky, tem um papel pouco interessante. É possível ver claramente sua ótima atuação. Mas aí já entra uma divagação nossa se, mesmo, Waltz está impecável ou se ainda estamos sob o efeito influenciável de sua estadia oscarizada em Bastardos Inglórios – o que sempre pode fazer qualquer um a relevar muita coisa. Independente disso, seu personagem não tem espaço na trama e Waltz some do foco que deveria ocupar.

Felizmente, cenas de ação, às vezes, são suficientes para entreter o público – apesar do roteiro escrito pelo pórprio Rogen e seu parceiro Evan Goldberg se sobressair se comparado a elas. Mesmo com nenhuma sequência marcante, Besouro Verde tem boas tomadas de adrenalina. Mas não são o suficiente para salvar Michel Gondry de seu próprio descontrole com relação ao longa como um todo; sua direção é falha.

Residindo o pior de Besouro Verde em seu personagem central, a impressão dada é que tudo no filme parece querer insistentemente salvar o longa de uma produção pronta para cair no esquecimento. Isso se vê na própria trama, que facilita a aceitação do filme e no restante do elenco, que mostra interesse em cena. No final, a produção funciona mais ou menos como um entretenimento simples. Neste longa, o trabalho fraco de Michel Gondry se balanceia com o duvidoso de Seth Rogen. A união desses dois artistas traz divertimento, mas que não vale o ingresso pago por um 3D que só vale por poucos momentos.

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The Green Hornet (EUA, 2011). Ação. Sony Pictures.
Direção: Michel Gondry
Elenco: Seth Rogen, Cameron Diaz, Christoph Waltz, Jay Chou.
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Categorias
Ação, Comédia, Críticas