CRÍTICA | Birdman

Críticas
// 04/02/2015

Muito além de uma simples sátira metalinguística com a carreira de Michael Keaton, Birdman chega aos cinemas brasileiros já tendo recebido um número impressionante de prêmios, incluindo os Globos de Ouro de melhor ator e roteiro, e nomeado a nada menos que nove Oscars. Com uma estrutura narrativa longe do convencional – o filme simula um único e interminável plano-sequência – a obra pode não agradar a todos, mas é uma notável anomalia no usual baixo índice de ousadia entre os grandes premiados da indústria.

 

Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)
Por Gabriel Costa

Ao longo de dez anos e quatro filmes – Amores Brutos, 21 Gramas, Babel e Biutiful –, todos aclamados pela crítica,o cineasta mexicanoAlejandro González Iñárritu construiu uma carreira baseadas em intrincadas tramas não lineares, apresentadas a partir de múltiplos pontos de vista. Em seu mais recente longa, o diretor pula para o extremo narrativo oposto, e conta uma história na mais estrita ordem cronológica, praticamente sem cortes visíveis, e coloca o público tão próximo à mente de seu protagonista, Riggan Thomson (Michael Keaton), que ele pode literalmente ouvir a voz na cabeça do personagem.

Acontece que a tal voz, grave e impetuosa, não pertence ao próprio Riggan. Ao menos não totalmente. Quem está falando ali – e é a primeira fala a ser ouvida no filme – é Birdman, o super-herói que lançou a carreira de Thomson no cinema, e pelo qual é lembrado até hoje, ainda que tenha deixado o papel há anos. É evidente a analogia à trajetória do próprio Keaton, o Batman dos dois filmes de Tim Burton que criaram os fundamentos para que as histórias em quadrinhos viessem a ser levadas a sério no cinema e se tornassem a indústria bilionária que temos hoje em dia, com direito a referências ao sucesso astronômico de Robert Downey Jr como Homem de Ferro, bem como menções a Michael Fassbender e Jeremy Renner em X-Men e Vingadores, respectivamente.

Através dos olhos – e da imaginação, e dos devaneios – de Thomson, descobrimos que ele  tenta relançar sua carreira como ator, e agora também diretor, em uma adaptação do conto “Do que Falamos Quando Falamos de Amor”, de Raymond Carver, para a Broadway, com a ajuda do amigo e agente Jake (Zach Galifianakis). Keaton, que declarou pouco se identificar com o personagem, apesar das óbvias conexões, constrói um protagonista fundamentalmente inseguro, obcecado por uma missão que só parece realmente importante para ele próprio. Riggan acredita ter encontrado o sentido da própria existência, e fará o que for preciso para alcançá-lo, seja bajular a influente crítica de teatro Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), seja correr de cueca por Times Square, seja levar uma arma carregada para o palco. E Birdman o despreza por isso.

Em sua busca por validação e credibilidade artística, Riggan tenta ainda reparar as relações estremecidas com a sua filha e assistente, Sam (Emma Stone), viciada em recuperação, e a ex-esposa Sylvia (Amy Ryan), bem como administrar as coisas com Laura (Andrea Riseborough), atriz da peça com quem mantém um caso, mas não demonstra lá muito afinco em nenhuma dessas tarefas. Completam o elenco da adaptação – e do filme – Lesley (Naomi Watts), em sua primeira produção na Broadway, e seu ex-namorado, o imprevisível e hilário Mike Shinner (Edward Norton), chamado às pressas após um curioso “acidente” com o incompetente ator original.

O desenvolvimento baseado em planos-sequência de oito, dez ou doze minutos, quase sempre conduzidos pela ótima trilha de bateria de Antonio Sanchez – oque cria um curioso link com outro favorito ao Oscar em 2015, Whiplash e conectados de forma propositalmente pouco perceptível, pode sugerir que a trama mantém os pés firmes na realidade. Desde a primeira cena, contudo, Iñarritu, junto ao impecável diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (de Gravidade e A Árvore da Vida), deixa claro que não é bem assim. A ordem cronológica não impede que o longa, assim como as obras anteriores do diretor, se assemelhe a um quebra-cabeça. As dicas sobre o que está realmente acontecendo em diversas cenas são bastante sutis, e, mesmo que sejam percebidas, ainda deixam parte significativa das conclusões a cargo do espectador. E esse discernimento, em oposição à simples absorção passiva da história, é fundamental para o aproveitamento completo da obra. Como sempre, cabe a cada um decidir se tem a devida disposição para tal.

 

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Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) (EUA, 2014) Comédia/Drama. New Regency Pictures.
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Michael Keaton, Emma Stone, Edward Norton, Zach Galifianakis, Naomi Watts

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Categorias
Críticas, Drama