CRÍTICA: Biutiful

Críticas
// 21/01/2011

Indicado a Melhor Filme Estrangeiro nas grandes premiações desse ano, chega aos cinemas brasileiros o mexicano Biutiful. No entanto, algumas escolhas do diretor Iñárritu talvez tenham restringido o público que conseguirá realmente desfrutar deste que talvez seja o seu longa  mais sincero.

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Biutiful
por Gabriel Giraud

Um filme completamente imerso na pós-modernidade. Biutiful é um complexo rol de resoluções pré-morte de um homem que não teria muitas perspectivas mesmo se vivesse uma longa vida. Uxbal, vivido por Javier Bardem, é um homem das ruas, da informalidade. Ele tem relações com o comércio de mercadorias piratas e com a mão-de-obra de imigrantes ilegais. Dado esse contexto social que daria uma série de documentários, Uxbal descobre que tem um câncer terminal – tendo um menino e uma menina para criar sozinho, já que sua ex-mulher é bipolar e tem uma vida com um comportamento ainda menos ortodoxo.

Marambra, como a mulher se chama, não é brilhantemente vivida por Maricel Álvarez. Na linha da trama que se desenrola sobre ela, é visível que o desequilíbrio é fator essencial para a composição das cenas. No entanto, no contexto de uma estética de fluxo e num submundo europeu onde todos se coíbem a exacerbar seus sentimentos de um modo frio quase psicótico, Marambra parece ter vindo de uma película de Almodóvar. Atitudes previsíveis e chorosas num meio seco, onde não parece tê-la contida nele. Mas isso é só uma linha da trama do filme. E ele é para poucos por muito mais do que isso.

Além disso tudo, tem um mais um pouco que é o ponto quente do personagem de Uxbal. Ele tem o poder de conversar com os mortos que não conseguem se desprender. Isso o deixa ciente de que ele deve resolver todas as suas pendências e ter certeza de que está pronto para ir. E essas pendências incluem um quase que salvar a humanidade – sem artimanhas high-tech.

Essa jornada vira um redemoinho com várias subtramas que sugam o espectador de tal modo que, após um bombardeio de sensações e sentimentos, nos tornamos anestesiados ante as complicações do enredo. A fotografia pós-moderna, extremamente calcada na ainda não-definida estética de fluxo, nos insere ainda mais nesse novelo claustrofóbico e obscuro. A saga estética brinda aqueles que apreciam uma direção orgânica, sem muitos cortes e alguns planos-sequência.

Biutiful é, por tudo isso, um filme incrivelmente construído. Mas é um filme para poucos – ou para nos ensinar um pouco mais sobre um Cinema que ainda está por vir ou por se descobrir. Ele é longo, muitas pessoas hão de sair das salas no meio da sessão. Mas ele respira. Somos afogados por alguns instantes numa imagem ou numa música que nos inebria com uma beleza incrível – os fãs de Rodrigo Prieto e Gustavo Santaolalla não se decepcionarão.

Talvez os choques de beleza sejam necessários para podermos aguentar a jornada épica-pós-moderna de Uxbal. Talvez precisemos deles para sair da hipnose do mundo claustrofóbico do filme. Talvez haja um ar pretensioso nessa fotografia sem uma função classicamente narrativa. Talvez não seja a obra-prima de Iñárritu. Mas certamente é a mais sincera.

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Biutiful (México, 2010). Drama. Focus Features.
Direção: Alejandro Gonzalez Iñárritu
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Críticas, Drama