CRÍTICA | Blade Runner 2049

Críticas
// 05/10/2017

Mesmo no melhor dos cenários, não seria fácil apresentar um filme à altura do Blade Runner original, dirigido em 1982 por Ridley Scott, que retorna aqui como produtor executivo. O clássico longa, estrelado por um Harrison Ford na proverbial flor da idade, é merecidamente considerado um dos pilares fundamentais da ficção científica distópica, com visual, atmosfera e temas que são referência de Akira a Ex Machina, passando por O Quinto Elemento, Minority Report, IA e Matrix.

Porém pode-se dizer que este é o melhor dos cenários: o diretor franco-canadense Dennis Villeneuve construiu, ao longo da última década, um respeitável currículo cinematográfico que inclui o discretamente apavorante O Homem Duplicado, de 2013 e o melhor sci fi do ano passado, A Chegada. O novo protagonista, Ryan Gosling, também tem uma carreira bem sucedida e ainda promissora, pontuada por mais acertos que erros. Por fim, garantindo que o aspecto sensorial da sequência tardia faça jus à aflitiva Los Angeles cyberpunk do clássico de 82, a fotografia fica a cargo do premiado Roger Deakins, que trabalhou com Villeneuve em Sicario, enquanto Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch sabiamente optam por uma trilha minimalista que não tenta superar o trabalho lendário de Vangelis no original, e usa o silêncio de forma tão efetiva quanto os dissonantes sintetizadores que surgem em momentos-chave.

A direção fleumática de Villeneuve se abstém de apelar para a ação espetaculosa, gracinhas fáceis e fan service, e homenageia o original com sutileza em planos análogos e, principalmente, na extrapolação lógica e coerente dos caminhos que teria tomado a sociedade retrofuturista de 2019, ano em que se passa o original, até os trinta anos depois explicitados no título do novo filme. Após uma série de desastres naturais, o ambiente terrestre é asfixiante e opressor, e a sensação é de que a humanidade teima em habitar um planeta que já não a suporta mais. A atmosfera densa, que chega a ser cansativa ao longo dos mais de 160 minutos de exibição, é entrecortada por explosões de violência brutal posicionadas cirurgicamente ao longo da trama. As peças do quebra-cabeça se encaixam lenta e pacientemente, e nada que acontece na tela é gratuito. Até porque, em 2049, tudo está em falta.

Gosling é igualmente cuidadoso na interpretação da amargura estoica do blade runner K, e iguala em estilo próprio o caráter enigmático do tipicamente ranzinza Deckard de Ford, enquanto o time feminino – composto por Ana de Armas como a fascinante Joi, Sylvia Hoeks na pele da implacável Luv e Robin Wright num papel de delegada durona que, em outros tempos, seria de Forrest Whitaker – se destaca quilômetros metafóricos à frente do caricato Jared Leto, que interpreta o (também) megalômano industrial Niander Wallace.

Existem diversas abordagens possíveis diante de um diretor e equipe que recebem a missão de atualizar – seja na forma de remake, reboot ou sequência “adiada” – uma obra clássica de outro cineasta. Ela pode seguir à risca o tom, estilo e até a estrutura do roteiro do trabalho original, como JJ Abrams optou por fazer em Star Wars: O Despertar da Força, encontrando um caminho seguro até o coração dos fãs. Esse hipotético profissional também pode tentar manifestar a proposta da obra em um novo contexto, mais adaptado à estética predominante da época, como arriscou Colin Trevorrow em Jurassic World, com resultados irregulares. Ou essa equipe pode simplesmente levar a sério a tarefa, em nível ético e artístico, como fez a de Blade Runner 2049, e concretizar um exemplo de narrativa inventiva, atual, respeitosa e ainda assim dotada de personalidade própria, que não teme subverter clichês e pode ser considerada, desde já, uma das melhores continuações de todos os tempos.


Blade Runner 2049 (EUA / Europa / Canadá 2017). Ficção Científica / Noir. Columbia Pictures.
Direção: Dennis Villeneuve
Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Ana de Armas, Jared Leto, Dave Bautista.

9-pipocas

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