CRÍTICA | Bob Esponja: Herói Fora da Água

Animações
// 08/02/2015

Em uma situação normal, eu não seria capaz de explicar como a adaptação cinematográfica de um desenho animado exibido há mais de 15 anos consegue ser bem sucedida artisticamente mesmo reutilizando a premissa mais tradicional e reiterada de toda a trajetória da série televisiva. Entretanto, não estamos falando de um cartum qualquer: trata-se do já icônico Bob Esponja, cujos personagens e universo são tão incrivelmente carismáticos e divertidos que conseguem não só fazer uma trama requentada soar como uma ideia singular e merecedora de atenção, mas também agradar espectadores das mais diversas idades.

Bob Esponja: Herói Fora da Água
por Eduardo Monteiro

Escrito por Glenn Berger e Jonathan Aibel a partir de um argumento do diretor Paul Tibbitt e do criador do personagem, Stephen Hillenburg, Bob Esponja: Um Herói Fora d’Água introduz até bem didaticamente a Fenda do Biquíni, seus habitantes e costumes, apenas para voltar as atenções para o vilão Plankton – que, como não poderia deixar de ser, continua empenhado em roubar a fórmula do célebre hambúrguer de siri e, com isso, herdar a clientela do Siri Cascudo para seu Balde de Lixo. Entretanto, quando o micro-antagonista está prestes a concluir seu plano maligno definitivo, a fórmula desaparece misteriosamente, sem deixar qualquer tipo de rastro. Desnorteada com a abstinência do sanduíche, a população da Fenda do Biquíni perde a linha e permite que o local se transforme em um hostil cenário pós-apocalíptico – e só quando um aroma familiar vindo da superfície atinge as narinas dos personagens, Bob Esponja se coloca à frente de uma equipe reunida com o intuito de recuperar a fórmula e reinstaurar a paz no fundo do mar.

Resultado de longos anos de refinamento dos personagens e do humor próprio da franquia, Um Herói Fora d’Água consegue ser ainda melhor e mais divertido que o razoável longa-metragem anterior, lançado nos cinemas há mais de uma década: diferentemente daquele filme, este consegue manter os personagens mais envolvidos com os elementos e cenários tradicionais e corriqueiros da série sem, contudo, soar como um mero episódio de 92 minutos. Neste sentido, o roteiro, mesmo com algumas barrigas, adota um ritmo bastante coerente com a duração da narrativa, realizando diversas brincadeiras de gênero e apostando certeiramente na metalinguagem em várias pontos da projeção. Para completar, a visita de Bob e sua turma à terra firme (algo que também ocorreu no filme anterior) traz um frescor interessante à produção: mantendo todo o charme das ilustrações tradicionais, as versões tridimensionais dos personagens são igualmente adoráveis e dão abertura para uma dose considerável de gags envolvendo o choque daqueles seres com o “exótico” mundo da superfície.

Aliás, o bom humor é justamente o segredo do sucesso da produção – e eu poderia muito bem me estender além do necessário com dezenas de exemplos práticos, mas isto apenas atrapalharia a experiência do leitor com o filme. Abraçando a estupidez e a histeria de seus personagens, o roteiro recorre ao nonsense, ao absurdo e ao exagero sempre com propósitos cômicos bem definidos, soando óbvio, gratuito ou apelativo em pouquíssimas ocasiões. Porém, o atrativo principal continua sendo mesmo o personagem-título: alegre, elétrico e bobo ao extremo, Bob Esponja é, antes de mais nada, um indivíduo ingênuo e puro, além de uma bússola moral ambulante e, claro, a única figura em cena capacitada para salvar o dia.

Já o 3D, conforme esperado de um projeto dessa natureza, oscila de acordo com a técnica utilizada no momento: nas cenas em live action, que ocupam apenas uma pequena parcela da narrativa, o efeito é suficientemente válido e notável, enquanto as sequências em animação tradicional em 2D recebem a terceira dimensão com ajustes que falham em otimizar o resultado final, conferindo um aspecto ligeiramente estranho e ineficaz, porém inofensivo, à maior parte das cenas. Já a dublagem nacional, embora naturalmente gere incômodo e estranheza nas cenas envolvendo atores de carne e osso, é um prato cheio para aqueles que foram apresentados à franquia em português – e Tom Kenny que me perdoe, mas o dublador brasileiro Wendel Bezerra é um Bob Esponja magnífico, seguro e legítimo.

Escondendo aqui ou ali surpresas para o público mais grandinho (é impossível deixar passarem batido certos acordes inconfundíveis de Ennio Morricone, por exemplo), Bob Esponja: Um Herói Fora d’Água é um projeto que, apostando em uma fórmula garantida, perde a oportunidade de ousar e tentar alçar voos mais altos – mas como é impossível prever o resultado de uma extravagância dessas, esta deliciosa e despretensiosa tentativa está de bom tamanho.

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