CRÍTICA: Branca de Neve e o Caçador

Aventura
// 31/05/2012

Bem melhor do que Espelho, Espelho Meu. Ao menos isto você deve esperar. Não quer dizer, entretanto, que Branca de Neve e o Caçador seja uma produção memorável. Claro que não. É, de qualquer maneira, um ótimo trabalho visual e uma bela amostra do que a criatividade pode fazer com elementos básicos de uma história já conhecida e, vale até dizer, desgastada neste ano. Clique em “Ver Completo” para ler a crítica.

Branca de Neve e o Caçador
por Arthur Melo 

Ultimamente, haver o consenso de que uma determinada estrela “carrega o filme nas costas” não tem sido tão raro quanto já foi. Por conta de uma história fraca ou de uma direção mediana, muitas produções têm tido a sorte de, no princípio, ter selecionado aquele ator-chave que será o chamariz da campanha de marketing, graças ao bom desempenho em frente às câmeras, salvar o filme do que poderia ser mais um item da prateleira dos esquecidos. Em Branca de Neve e o Caçador calhou de acontecer o oposto. Não fosse pela ganância de inserir um nome comercial como Kristen Stewart, tendo havido no lugar uma seleção mais criteriosa, o longa provavelmente receberia uma nota maior. E por mais que Charlize Theron se esforce, não seria ela a fonte do que a produção tem de melhor.

O filme, mesmo com um roteiro carente de inventividades para o gênero, é extremamente eficaz em remodelar a história da Branca de Neve, ainda que relegue à imaginação a construção do seu universo. Aqui, monta o palco exclusivamente para a princesa, expondo com precisão toda a dinâmica do atrito entre ela e a Rainha Má (Ravenna, sua madrasta). Mas deixa vago os meios e os porquês da magia interferir naquele mundo, bem como não fornece quaisquer ferramentas para se definir o que poderia ser ou não verossímil ao contexto, permitindo que a força que gera a problemática da personagem (no caso, a magia usada para o mal pela madrasta) possa existir nos dois lados da moeda.

Apesar desta lacuna, é evidente que a proposta da história é direcionar o seu foco à relação entre Branca de Neve e o Caçador. O que em certo ponto pode não ser algo interessante para a economia da trama. Por mais valente que Chris Hemsworth pareça em tela e mais assustada que Stewart queira convencer estar, é notório o quão desinteressante é qualquer coisa que esteja entre o suposto casal. Procurando dar aos dois o tempo necessário para que a união vingue no filme, pouco se diz sobre a Rainha Má, uma das mais interessantes personagens, permitindo que toda informação sobre Ravenna esteja limitada a um flashback que insinua como seus poderes surgiram, mesmo que isso seja extremamente irrelevante para se pescar a fonte de tanta força sobrenatural. Delega, portanto, o desafio de fazer da vilã uma figura incomparavelmente ameaçadora apenas à atuação de Charlize Theron e à redoma de ostentação que orna a bruxa com o melhor que o design de produção possa oferecer. Por surpresa, coube aos acertos dos desenvolvedores da arte conceitual do longa o melhor que não só a personagem, mas também que o filme como um todo têm a oferecer. Resta à já insossa harmonia entre Caçador e Branca de Neve a química inexistente para realçar o seu núcleo da trama; além de suas atuações. E se não foi Charlize que conseguiu em seu desempenho entregar o ponto alto de Ravenna, não seriam Hemsworth e Stewart (esta, principalmente) que teriam êxito com tão pouco que a produção lhes dá.

Tanto as ótimas propostas para uma renovada visual na história quanto os deslizes de Kristen Stewart persistem no filme. Diferente de Alice no País das Maravilhas, Branca de Neve e o Caçador consegue, mesmo em um espaço fantástico regado pela magia, ser palpável. A precisão gráfica dos elementos que compõem o caráter imponente nocivo de Ravenna fogem da artificialidade dos ambientes da Rainha de Copas. Os efeitos visuais (à exceção de uma das transfigurações da Rainha Má) estão muitos passos além do longa de Tim Burton – cuja produção executiva é a mesma (o porquê das comparações). Em direção oposta vai Stewart, que repete absolutamente todos os trejeitos de Bella Swan em A Saga Crepúsculo. É incrível o modo como todas as técnicas se repetem quase coreograficamente, a ponto de parecer que não há contexto ou diretor diferentes com exigências também diferentes. Uma hora as atitudes deixam de ser incômodas, passam a ser irritantes e, por fim, ignoradas. Nada, deva ser dito, que comprometa significativamente o filme, mas o suficiente para se perder a atenção em alguns de seus bons aspectos (que não incluem a trilha sonora de James Newton Howard, decepcionante por parecer querer levantar voo só em uma contagem ou outra) e até se ignorar problemas que nitidamente desmerecem personagens importantes como o Príncipe William – por mais que se saiba da importância desta direção para que o encontro entre a princesa e o caçador sejam efetivos dentro da narrativa.

Branca de Neve e o Caçador muito pouco acrescenta à quase fabulosa aventura da princesa de mesmo nome. Mas há interessantes releituras (a do Espelho Encantado que sirva de perfeito exemplo) que tornam a produção chamativa. E mesmo que inexplicavelmente haja um intenso hype em torno da ex-residente exclusiva dos estúdios da Disney, não é aqui que a história finalmente ganha o público. Afinal, por mais diluída que a série de TV esteja nos contos de fadas como um todo, Once Upon a Time ainda se prova ser a melhor opção.

 

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Snow White and the Huntsman (EUA, 2012). Fantasia. Universal Pictures. 
Direção: Rupert Sanders
Elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Sam Claflin, Charlize Theron

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Categorias
Aventura, Críticas, Fantasia