CRÍTICA: Bravura Indômita

Críticas
// 10/02/2011

Segundo filme com mais indicações ao Oscar (elas somam nada menos que 10), Bravura Indômita, que estréia amanhã em todo o Brasil, é a aposta dos irmãos Coen na corrida pelo mais cobiçado prêmio do cinema mundial. O longa, que vem sendo bem recebido pela crítica especializada já é, além disso, a maior bilheteria da carreira dos diretores. Vale o ingresso?

Bravura Indômita
por Matusael Ramos

A massiva produção de remakes em Hollywood, quando não justificada por fins meramentes comerciais e a falta de bons roteiros (e quase sempre é), explica-se pela necessidade de alguns diretores em atribuir sua própria identidade à história, fazendo uso, para tanto, da livre interpretação dos fatos e contextualizado-os, mesmo que muito sutilmente, ao presente momento vivido pelo cinema. Nesse segundo time, o de boas refilmagens, acabam de ingressar os controversos irmãos Joel e Ethan Coen e sua aclamada versão do clássico Bravura Indômita, de 1969.

Na história, um comerciante é sumariamente assassinado pelo seu ajudante ao tentar impedí-lo de se envolver em uma briga de bar. O assassino foge e leva consigo a sua montaria, bem como todo o seu dinheiro. A filha do comerciante, uma impetuosa jovem de 14 anos que lhe fazia as vezes de contadora, jura vingar a morte do pai, e, para tanto, recorre à ajuda de Rooster Cogburn, temido agente da lei e caçador de recompensas, que concorda em ajudá-la mediante o pagamento de uma pequena fortuna: cem dólares. À dupla se junta ainda La Boeuf, um oficial texano igualmente interessado na captura do famigerado Tom Chaney, que de acordo com ele, teria assassinado um senador após uma discussão banal sobre um cão. O inusitado grupo dá então início à sua busca pelo inóspito território do Arkansas, cenário mais do que perfeito para perseguições, emboscadas, duelos e tudo o mais que apenas os bons westerns tem a oferecer.

Assim como no original de 1969, em Bravura Indômita o elenco é ferramenta fundamental de empatia com o público, já que a princípio sua premissa soe um tanto quanto sombria. Dessa vez o papel de Mattie Ross foi entregue a competente Hailee Steinfeld, acertadamente menos afetada que a intérprete original. Como no romance homônimo de Charles Portis, publicado em 1968, cabe a ela, após 25 anos, narrar a aventura iniciada pelo seu desejo de vingança. Quanto ao papel de Rooster Cogburn, originalmente interpretado pelo astro de westerns John Wayne (uma interpretação de si mesmo, dizem), Jeff Bridges valeu-se dos exageros do personagem, um beberrão solitário já em tempos de se aposentar, para angariar a sua indicação ao Oscar de melhor ator. La Beouf, talvez aquele que sofreu a mudança mais significativa entre os personagens (sem entretanto conseguir deixar de orbitá-los) ficou a cargo de Matt Damon.

Elemento característico do gênero, boa parte dos diálogos são injetados de muita acidez e algum humor, em especial aqueles por meio dos quais a geniosa Mattie, seja tentado negociar um lote de cavalos ou colocando em dúvida a competência de um arrogante La Boeuf, mostra todo o seu atrevimento. Essa obstinação da personagem principal, cujo amadurecimento é fruto de uma imposição do destino, a exemplo do também indicado ao Oscar de melhor filme, O Inverno da Alma, revela que as heroínas às avessas ganharam de vez o coração dos membros votantes da Academia, tanto que a talentosa Hailee Steinfeld concorre merecidamente ao prêmio de melhor atriz coadjuvante.

A bem da verdade, as diferenças entre os dois filmes, especialmente no que se refere ao roteiro em si, são muito discretas, a despeito de declarações dos próprios irmãos Coen de que não teriam assistido o original, baseando-se exclusivamente no livro de Portis. Fato é, que tais diferenças são pontuais e se fazem sentir especialmente na sequência final do longa. Os personagens, no geral, ganharam contornos menos caricaturais e mais firmes, por assim dizer, e dessa vez o espectador não é poupado de sequências eventualmente mais violentas. Numa definição simplista o filme ficou mais duro. Com relação aos seus elementos técnicos, os irmãos Coen mantém sua tradição de filmes onde predominam ambientes sombrios em oposição a filmagens feitas sob luz natural, sendo que dessa vez, duas ou três cenas – inclusive o primeiro encontro com Ned Pepper e seus homens – acontecem à noite. E se na versão original ainda era possível vislumbrar aqui e ali um bosque verdejante ou uma montanha coberta de neve, agora os cenários tornaram-se bem menos convidativos.

Não há dúvidas quanto ao bom trabalho feito pelos irmãos Coen, mas seu filme, ainda que detentor de espantosas 10 indicações ao Oscar, carrega dois estigmas passíveis de rejeição, se não pelo público, muito provavelmente pela Academia: o de ressuscitar um gênero há muito preterido por Hollywood e o de sempre ser lembrado como “a refilmagem”.

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True Grit (EUA, 2010). Western. Paramount Pictures.
Direção: Joel e Ethan Coen
Elenco: Jeff Bridges, Matt Damon, Hailee Steinfeld

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Categorias
Críticas, Drama