CRÍTICA | Brilho de uma Paixão

Críticas
// 14/08/2010
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Jane Campion se esmera na construção de uma sensibilidade. Assim como em Um Anjo em Minha Mesa e O Piano, a diretora não tem pressa na ação. Delonga-se no estudo de atmosfera. Nos exteriores, encena as suas personagens tranquilamente por paisagens bucólicas, em que o movimento tende a cessar, num tempo morto. Nos interiores, instala-os em pequenos espaços caseiros, onde ficam confinados junto de seus sentimentos conflagrados. Assim, a paixão não se expressa pelo movimento, mas pela intensidade da cor. Na representação da natureza, a precedência das cores sobre as formas estabelece a interioridade em convulsão. Como no primeiro Delacroix.

Tudo nas duas horas do filme é romântico. A paixão eleva-se acima de qualquer objetivo. Pretende-se transcendente — não é deste mundo. Quem está apaixonado, ama absolutamente, sem explicação, acima de tudo. Esse amor romântico se fortalece na distância e se consagra na impossibilidade. O casal se ama porque não pode se amar. Porque as circunstâncias — sociais, morais, de saúde — não permitem. Porque o destino não lhe favorece. Sobretudo porque o verdadeiro amor transcende o mundo real, é intangível, é perfeito. “O belo há-de ser eternamente”.

A viagem para Roma do poeta não tem o condão de curar a sua tuberculose, mas de proteger o seu grande amor, mantê-lo puro de vínculo terreno e imperfeito. O laço que os une é de outra natureza: religioso, casto, contemplativo. Aliás, os personagens jamais se tocam de verdade. E quando sugerem fazê-lo, estão pesadamente vestidos, a química entre os personagens/atores não acontece. O esboço de erotismo cede à boa consciência, mas também à doença. As camas e lençóis não constituem signos do desejo carnal, mas do sofrimento — da ausência do amado, dos sinais do tuberculoso.

O artista romântico canta para as estrelas. O desejo de transcendência culmina no flerte com a morte. A morte jovem do poeta. Só ela poderá coroar a vida da perfeição que falta na realidade. Morrer de amor se torna assim o ideal máximo. O lúgubre se une com o erótico. E seu resultado no longa, o luto da amada, conclui o arco dramático. A paixão romântica enfim assume o seu brilho negro.

Por tudo isso, em Brilho de uma Paixão, a poesia de John Keats se manifesta mais na sensibilidade, imprimida pelo filme como um todo, do que na leitura de seus poemas românticos.

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Bright Star (Reino Unido, 2009). Drama. Imagem Filmes.
Direção: Jane Campion
Elenco: Abbie Cornish, Thomas Sangster, Ben Whishaw

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Categorias
Críticas, Drama