CRÍTICA: Bruno

Comédia
// 12/08/2009


Borat virou sensação entre os fãs de comédia. As alfinetadas nos “bons costumes” americanos (que se proliferam em diversos países) e as piadas de humor negro deram a Sasha Baron Cohen o fôlego para produzir um longa para outro de seus personagens estereotipados. Bruno, que traz um irreverente apresentador homossexual de um programa de moda da TV germânica chega aos cinemas nesta sexta-feira com alguns cortes, muitos risos e menos conteúdo que o anterior.

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Brüno
por Arthur Melo

É indiscutível. Comédias não são levadas a sério. Seriedade, aliás, nem é o propósito delas. Mas algumas possuem o bom senso suficiente – e a sorte – para serem bem consideradas.  Este tipo de reconhecimento Sasha Baron Cohen já experimentou há três anos com o inquietante Borat. Indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, o longa caiu no gosto do público e da crítica por satirizar os alicerces da cultura norte-americana partindo de um personagem vindo do foco de amplas divergências políticas. Aproveitando ou não de um assunto que, apesar de saturado, ainda constava em pauta nos EUA e no mundo, Borat funcionou.

Tão politicamente incorreto quanto e talvez até mais constrangedor pelo descaramento – e aqui, apesar dos pesares, isto serve como elogio – Bruno adentra às telas desfilando em trajes mais caricatos (figuras de linguagem não foram aplicadas) e fazendo julgamento ainda menor do bom senso; aquele elemento que pondera entre uma boa e má comédia. Assim como Borat, o personagem título desta película, exausto de vários critérios de sua vida e profissão, deixa seu país de origem e parte para os Estados Unidos a fim de vivenciar novas experiências e obter algum êxito na carreira. Diferentemente do repórter cazaquistanês, o austríaco especializado em moda, Bruno, não insere críticas valiosas ou contundentes a condutas alheias. E, quando as faz, estas são em referência a casos isolados.

A linha temática de Bruno é muito semelhante ao longa anterior e é isso que faz a projeção ser amplamente comparada a Borat. A narração em primeira pessoa que explicita sentimentos e reações se repete e a fórmula que ocasionalmente confunde ficção com realidade ainda é a principal arma da comédia. Mas Bruno perde feio para o filme de 2006 ao optar por ridicularizar o grupo a que ele mesmo pertence ao invés de fazer piada das diferenças de comportamento. Não que elas não existam. Cena após cena o personagem se vê encrencado tanto na sua jornada pela ascensão como repórter, entrevistador e apresentador de TV quanto nos seus relacionamentos e amenidades cotidianas devido ao seu estilo de vida (e de vestimenta, diga-se de passagem). Mas aí os pontos já devem ser somados no quadro de Baron Cohen. A cena de sexo oral com um espírito durante uma sessão é hilariante por conta do descaso do ator com qualquer bom princípio e total conforto com o momento.

O que retira de Bruno boa parte de seu tom de realidade é, justamente, o seu comportamento. E mais comparações surgem, agora com a devida necessidade. Borat vinha de uma cultura diferente, com costumes e conceitos de sociedade paralelos que influíam em ações simples e corriqueiras do personagem. Obviamente, aliado à sátira, este item dava toda a graça do produto. Tentando repetir o formato para garantir o mesmo resultado, as atitudes absurdas voltam a dar as caras e a partir daí ganham caráter de inverossimilhança. Os padrões sociais e comportamentais austríacos não estão tão distantes do amplamente visto em diversos países, o que torna certas situações do filme descabidas – como despachar uma criança dentro de uma caixa de papelão num vôo intercontinental – em contraste com inusitadas ações do cazaquistanês.

Felizmente, quando se imagina que o longa correrá até o fim com saltos de gargalhadas tantas vezes desconexas de um propósito maior, entra em cena a busca do personagem por aceitação e o conflito com a própria homossexualidade. A comédia passa a se aliar mais uma vez às críticas por imposições de padrões e o riso volta a ser o resultado do humor negro e sagacidade. O uso rápido de contextos externos, inseridos no início do filme também para fazer comédia, regressa ao final inteligentemente para concluir uma grande piada que só ganha destaque na metade.

Apesar de inferior, Bruno pode – e deve – ser colocado ao lado de Borat. A qualidade das piadas nivelou com o usual de outras produções, mas a forma como elas são postas em prática revela um apreço à evolução no “ousar”.

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Bruno (EUA, 2009). Comédia. Sony Pictures.
Direção: Dan Mazer
Elenco: Sasha Baron Cohen

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Comédia, Críticas