CRÍTICA | Caça-Fantasmas

Ação
// 13/07/2016
caca-fantasmas

Algumas produções cinematográficas, ainda na fase de pré-produção, já possuem legiões entusiasmadas de fãs. Outras já começam sob uma enxurrada de críticas. No entanto, a refilmagem de Caça-Fantasmas é um caso singular na indústria de Hollywood. Atacando uma das produções mais marcantes da década de 1980, fenômeno cultural da época, o filme de Paul Feig recebeu um volume inédito de reprovações, culminando em movimentos de boicote e ameaças de morte a ele próprio e ao elenco. É extremamente necessário que a sociedade reflita sobre o senso ético — ou a falta de — ao lidar com a frustração de expectativas.

 

Uma obra tão emblemática como o original de 1984 certamente cria marcas na personalidade e na memória afetiva de inúmeras pessoas, e isso é plenamente compreensível. Eventualmente, apesar de partirem de um mesmo significante, cada uma construirá seu próprio significado e estabelecerá, pois, parâmetros canônicos. Se, para alguém, o cerne irredutível de Caça-Fantasmas é um quarteto de homens lutando contra fantasmas, para outrem, a irreverência lúdica de uma equipe que combate tais criaturas é o principal, independentemente de sexo, gênero ou raça.

Inevitavelmente, haja vista a singularidade dos significados estabelecidos individualmente, haverá um volume considerável de frustrações. Em especial, quando a indústria do cinema decide atualizar um clássico, a reação contrária saudosista é mais do que esperada. Entretanto, no caso de Caça-Fantasma, em vez de uma oposição civilizada — que, inclusive, pode ser benéfica em diversos sentidos —, houve uma reação visceral de ataque à produção com argumentos assustadores. O denominador comum entre os ataques — que não merecem crédito bastante para serem chamados de críticas — era o fato de o quarteto protagonista, outrora plenamente masculino, ser totalmente substituído por mulheres. Não houve qualquer qualificação; apenas não gostaram por “o original não ser assim”, “não fazer sentido” ou qualquer outra pseudo-justificativa que atendesse a seus preconceitos.

De fato, essa foi uma alarmante demonstração de preconceito. Infelizmente, esse público que reagiu violentamente à alteração de uma característica supostamente canônica tem se comportado dessa maneira repetidamente, em resposta às várias refilmagens que Hollywood vem realizando nos últimos anos. Quando uma personagem muda de gênero, etnia, orientação sexual, nacionalidade, ou qualquer outra característica, em busca de uma maior representação da diversidade, sempre existe uma reação negativa desproporcional, com alarmantes demonstrações de intolerância. Na verdade, nem sempre; é importante destacar que, quando a mudança é mais um caso de whitewashing — como é conhecida a mudança de personagens de diferentes etnias para a caucasiana — não existe qualquer sombra de reação desse mesmo grupo.

Não é muito surpreendente que essa infelicidade tenha acontecido com Ghostbusters. Uma análise crítica dessa obra tão celebrada identifica diversos estereótipos pejorativos. Verdadeiramente, o coletivo de personagens da obra é caricatural. Dois exemplos que são elucidativos para o momento presente são o altamente graduado profissional da Saúde que pergunta à mulher se ela estava menstruando quando viu fantasma e o negro que aparece apenas para conseguir o trabalho que conseguir, constituindo o único membro sem conhecimento científico, apesar de esbanjar fé, e sendo utilizado apenas como canal para introduzir o aspecto religioso. É importante reconhecer que, em muitos aspectos, essas características do longa original são retratos do momento social em que foi realizado. Na década de 80, o movimento pela defesa dos direitos humanos ainda era muito incipiente, se comparado com a expressão que alcançou hoje em dia. Contudo, se quem defende aquela obra pode se valer dessa desculpa, quem tem a mesma reação com a refilmagem, ao tentar justificar-se da mesma maneira, chafurda na anacronia. Mais honesto intelectualmente seria assumir de vez a oposição à política de valorização das minorias que ainda são sub-representadas nas telas hollywoodianas.

Apesar de toda essa repressão ao novo Caça-Fantasmas já ter surgido antes mesmo de a produção ter sido iniciada, quem tanto se opôs terá mais motivos ainda para odiar o longa — mas por motivos inesperados. A refilmagem é um ótimo exemplo de combinação entre ficção-científica, comédia, ação e um toque de terror. Verdadeiramente, a obra do diretor Paul Seig (Missão Madrinha de Casamento, As Bem-Armadas e A Espiã que Sabia de Menos) avança em todos esses gêneros muito mais do que o original em que se baseia, sendo-lhe, pois, devidos muitos aplausos pela capacidade de manter a coesão e coerência.

Aproveitando-se do fato de que poucas pessoas verão o novo filme sem ter algum conhecimento sobre o anterior, o roteiro — assinado pelo diretor e por Kate Dippold (As Bem-Armadas) — confere aos acontecimentos mais dinâmica e fluidez. Existem muito mais piadas pontuais bem distribuídas entre o elenco e momentos de exploração de particularidades da história, como a realidade atual de Nova Iorque, o debate metodológico sobre ciência e paranormalidade — que acaba servindo como uma espécie de orelha, representando o espectador leigo no assunto —, e as armas para a caça de fantasmas. Igualmente, há sequências de terror e ação mais elaboradas com as protagonistas — que realizam muito mais sequências de ação que os protagonistas do original — e com Chris Hemsworth (Thor). Apesar de ter sido escalado como o secretário muito bonito e nem um pouco inteligente, o longa, muito sabiamente, não deixa de se valer de sua preparação para os filmes da Marvel em momentos sólidos, porém breves — para não ofuscar o protagonismo feminino.

Inclusive, para introduzir uma dinâmica visual maior às sequências, a excelente fotografia do filme, além de optar pela tecnologia 3D — o que faz perfeito sentido para quem sabe o que acontece quando alguém entra em contato com fantasmas na história —, permite que determinados elementos extrapolem os limites do quadro. Isso significa que os fantasmas, as gosmas e os raios, quando aparecem, ultrapassam as margens retangulares da imagem, forçando uma maior impressão de perspectiva. Por sinal, as cores intensas desses elementos são tanto um alento a saudosistas quanto um atrativo para iniciantes. O único momento bastante negativo da fotografia é uma sequência de chroma key que não possui qualquer necessidade narrativa e agride um olhar técnico.

É interessante ressaltar que, com a exceção de Melissa McCarthy — que se sobressai de longe com a personagem menos engraçada e carismática —, quase a totalidade do elenco é composta de alumni do Saturday Night Live (SNL). Até Neil Casey — ator que interpreta o vilão — tem como currículo principal o SNL, porém como escritor; isso explica, em parte, a infelicidade de seu personagem que, apesar de estar presente em quase toda a duração do filme, somente ganha alguma relevância no terceiro ato por algo que não é nenhum mérito do ator/roteirista. Além dele e de tímidas participações especiais, como a de Steve Higgins — premiado roteirista do SNL, atualmente famoso como anunciante do Late Night with Jimmy Fallon —, as outras três caçadoras surgiram no programa.

Após anos como uma das figuras mais conhecidas do elenco fixo, Kristen Wigg saiu do SNL e se consolidou como uma atriz de Hollywood, repetindo nesse filme — sem inovação relevante — o estilo cômico que a catapultou da pequena para a grande tela. Kate McKinnon é a atual estrela do SNL e justifica esse título perfeitamente com seu humor inusitado e viciante, sendo mais uma representante da escola de SNL de comediantes com grande expressão corporal. Leslie Jones também é parte do elenco atual e também retrata o mesmo tipo de papel no programa e nesse filme. Infelizmente, em ambos ela é escalada basicamente para fazer o papel da mulher negra sem muita instrução, muito engraçada, escandalosa e nervosa. Quem consegue rir desse esteriótipo, ri bastante. Quem fica ofendido, também o fica bastante.

É verdade que a refilmagem de Caça-Fantasma avança consideravelmente em relação a aspectos preconceituosos do original, fato que se torna possível, principalmente, pela inversão de gêneros das caçadoras e do secretário. Inclusive, existem momentos em que as personagens fazem alusão metalinguística à repressão machista que o longa sofreu. Contudo, o papel de Leslie Jones é um demérito a essa conquista de representação. Infelizmente, se, por um lado, é evidente que o público espectador ainda possui muita conscientização social a fazer, por outro, Hollywood não escapa do mesmo crivo, mesmo em suas obras que mais arriscam progressividade.

É, ainda, digno de destaque que inúmeras referências ao original são realizadas ao longo de todo o filme, apesar de uma delas ser bastante decepcionante. Porém decepção é, verdadeiramente, o melhor resumo de Ghostbusters. Antes mesmo de ser produzido, já decepcionou e irritou uma legião de pessoas que ainda não possuem maturidade psicológica e ética para lidarem com a frustração de suas expectativas. Novamente, ele decepcionará todos que prejulgaram como uma obra sem qualquer valor, entretendo de maneiras muito inesperadas. Por último, também decepcionará quem tinha a esperança de poder louvá-lo como grande obra de quebra de preconceitos e empoderamento, ainda tendo muitos caminhos a trilhar. Portanto, Caça-Fantasmas é uma das melhores decepções que Hollywood produziu recentemente.


Ghostbusters (EUA, 2016). Ação. Comédia. Sony Pictures.
Direção: Paul Feig
Elenco: Melissa McCarthy, Leslie Jones, Kristen Wigg, Kate McKinnon e Chris Hemsworth.

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