CRÍTICA | Capitão América 2: O Soldado Invernal

Ação
// 02/04/2014

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Filmes solos dos heróis da S.H.I.E.L.D. têm tudo para instaurar uma incoerência. Afinal, onde estariam os outros heróis enquanto toda a problemática se desenvolve? Foi essa a dúvida que permeou Homem de Ferro 3, mas ausente em Thor: O Mundo Sombrio, se observada a trama. Agora, Capitão América 2: O Soldado Invernal propõe uma história que realmente faz sentido em ausentar os demais personagens do time d’Os Vingadores, mas essa é a única real evolução para o panorama dos heróis.

Capitão América 2: O Soldado Invernal
por Arthur Melo

Estabelecer filmes individuais depois dos heróis já vistos salvando Nova York em 2012 é um trabalho que requer especial atenção aos detalhes que reclamem coerência. Uma linha mal colocada no roteiro e a pergunta “por que não chamaram o Hulk para ajudar?” pode colocar abaixo toda a validade do texto. E isso foi o que quase vem acontecendo desde então. Mas Capitão América: O Soldado Invernal segue um esquema diferente daqueles de Homem de Ferro 3 e de Thor: O Mundo Sombrio; um que estabeleça a relação de concordância com os fatos expostos em Os Vingadores, tecla que já vem sendo batida nos textos dos respectivos filmes. Enquanto o terceiro round de Tony Stark praticamente ignora a existência da  S.H.I.E.L.D. e a responsabilidade de envolvê-la em tudo o que possa colocar em perigo a vida das pessoas, a fim de adiantar o desfecho de uma situação catastrófica, o segundo Thor concentra a problemática em um espaço físico no qual a agência não tem alcance (Asgard) e em um período de tempo estreito, para excluir a necessidade de sua interferência. O saldo são dois filmes da segunda fase do Universo Marvel nos Cinemas que em nada acrescentam ao panorama anterior para que assim fossem categorizados (Thor 2 é plausível, divertido, mas inútil no aspecto). O novo Capitão América, por sua vez, não permite a continuação desse vácuo.

O longa dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo é muito mais um filme da S.H.I.E.L.D. do que do herói azulado e, talvez inconscientemente, toca em um ponto que é o maior definidor do grande contexto de super-heróis, culturalmente falando: a resistência em dar o primeiro passo. Quando Nick Fury explica para o doce cristão Steve Rogers o porquê da construção dos novos aeroporta-aviões e da criação da nova tecnologia de reconhecimento por DNA de potenciais inimigos, Rogers, a personalidade incumbida de carregar a postura moral dos Estados Unidos na forma de um traje que reproduz a bandeira do tal país, se posiciona contra. Afinal, por que colocar uma arma apontada para um indivíduo, mesmo com suas grandes chances de se tornar um criminoso, se ele ainda não é? Um questionamento válido, de fato, mas que não se sustenta em um momento da História em que uma ameaça detectada quando ela já está sendo executada pode exterminar bilhões. Pela primeira vez, como o próprio Fury expõe, os heróis estão um passo à frente, e não despreparados aguardando os acontecimentos. Contudo, o senso de moral exacerbado de Steve o impede de enxergar o grau de necessidade de posturas preventivas, dando ao Capitão América uma inocência que, se observarmos o modus operandi dos Estados Unidos fora do mundo ficcional, não cola.

Poderia ser um acerto. Poderia, até, ser o argumento principal de um filme que traria um frescor ao tino heróico dos personagens Marvel – a possibilidade de os mesmos estarem enganados quanto aos seus valores. Mas é com a grande trama maquiavélica executada dentro da S.H.I.E.L.D., e que usa o armamento criticado por Steve Rogers, que Capitão América: O Soldado Invernal volta à estaca zero e endeusa o seu herói como detentor da verdade e da certeza que jamais devem ser discutidas. Assim, propõe um enredo que prioriza o andamento da evolução da relação da agência com os personagens (o que não foi feito em Homem de Ferro 3 e Thor 2 e precisa imediatamente ser feito agora) em lugar da autenticidade. As provas dessa opção, inclusive, correm pela trama e pela linguagem cinematográfica. É daí que vêm a enorme participação da Viúva Negra e os maneirismos batidos do Cinema, como a trilha sonora com estrutura, início e fim previsíveis em momentos de tensão – e que teimam em ressurgir.

É verdade, contudo, que O Soldado Invernal se mostra bem mais evoluído em relação aos filmes solos de seus companheiros do time d’Os Vingadores após a invasão alienígena em Nova York. Por mais que diminua a chance de tratar da deficiência dos super-heróis de agirem em investida, antes do ataque da vilania, estabelece um ótimo campo de guerra às escuras quando o Capitão América se vê fora da zona de conforto da confiança naqueles com quem dividia as missões, fazendo do Soldado Invernal uma mera arma a qual deva ser desativada. Insere também diferenças gratas em seu padrão de ação. Somem as sequências mirabolantes e hipercriativas com centenas de camadas de computação gráfica (que continua presente e em extrema qualidade visual) e entram lutas corporais muito bem coreografadas e filmadas, cujo acompanhamento de câmera confere uma boa dose de intensidade. É interessante ver Rogers utilizando o seu escudo mais como um parceiro do que como uma simples arma, e os efeitos proporcionados pela edição de som colaboram para o impacto na tela. Há até uma ou outra escolha inteligente da dupla de diretores, como a tomada aberta com grande profundidade de campo do duelo mano a mano do primeiro ato (que acabou sendo contemplada pelo 3D da pós-produção) e do plano que utiliza o reflexo de uma vidraça para capturar as expressões de três personagens simultaneamente, movendo delicadamente o foco com o intuito de criar uma etapa por etapa das reações dos mesmos.

Capitão América: O Soldado Invernal tinha a obrigação (e a torcida) de se estabelecer como o primeiro filme real da Fase 2 da Marvel. E consegue. Mesmo sob as repetições do gênero, do excesso de “mais do mesmo” e de seu total e incontrolável talento em possuir um desenvolvimento e desfecho absolutamente previsíveis, apresenta elementos que fazem o casamento direto com a S.H.I.E.L.D. que vimos em Os Vingadores e que veremos em A Era de Ultron. Uma pena, entretanto, que, ainda com toda a mudança de perspectiva que Rogers e o espectador têm da agência no decorrer do filme, ao final o status da mesma e sua relação com os heróis continuará igual, o que faz de O Soldado Invernal um filme que, ao enxugarmos bem, vai do nada para lugar nenhum. E nisso nem Homem de Ferro 3 errou.

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Captain America: The Winter Soldier (EUA, 2014). Marvel Studios. Ação.
Direção: Joe e Anthony Russo
Elenco: Chris Evans, Samuel L. Jackson, Scarlet Johansson, Sebastian Stna, Robert Redford

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