CRÍTICA | Capitão América: Guerra Civil

Ação
// 03/05/2016
capitao-america-guerra-civil

Se tem um grande prazer que o Cinema pode nos proporcionar é usar de suas melhores alegorias para retratar de maneira didática questões, ideais e situações reais. Elevar uma trama verossímil ao deslumbre é um gancho perspicaz para dialogar com uma plateia que precisa escutar, mas que em sua realidade não se abre para ouvir. Capitão América: Guerra Civil é, antes de um filme de super-heróis, uma sugestão de postura autocrítica que todos deveriam ter.

Há uma fatia do gênero de ação no Cinema em evidente supersaturação: super-heróis. Na última década, as adaptações se tornaram incontáveis, mas necessárias para fechar o orçamento de estúdios e licenciados. Nessa constante, as linhas narrativas começam a se aproximar e a sustentar um formato único de história; repetitivo. O herói, que emerge tentando se adaptar às recém descobertas habilidades, divide as suas atenções entre seu interesse amoroso e o combate a um grande inimigo que sempre está atrás de alguma fonte de energia para se tornar mais poderoso. Capitão América: Guerra Civil não se enquadra (muito felizmente) nesse padrão, mesmo que seu longa original – bem como os de outros membros d’Os Vingadores – pertença a esse molde.

Após os eventos de Era de Ultron, uma divisão dos Vingadores visita Lagos, na Nigéria, para uma missão de apreensão que resulta em um incidente com vítimas civis. O evento se transforma na gota d’água para que centenas de países se unam e estabeleçam um tratado que transformará o grupo em uma força-tarefa especial que só terá meios de entrar em ação se acionada pela ONU. Para que o acordo vigore, é necessário que cada integrante o assine e se disponha à Organização: o centro de discordância entre Steve Rogers (Capitão América) e Tony Stark (Homem de Ferro), cada um encabeçando um lado da argumentação.

O elemento de atrito é que é o diferencial em Guerra Civil. Não há, aqui, um grande vilão que aja diretamente contra os protagonistas. Sua atuação é oculta para os envolvidos e praticamente camuflada na tela, colocando espectadores e personagens tão envolvidos no embate heroico que quase se distraem para a manipulação engenhosa que é executada. Mas mais importante do que essa mecânica é o padrão de desenvolvimento da polaridade dos times. Em um primeiro momento, é notória a força argumentativa de cada um dos lados, com ressalvas importantes a serem analisadas seja para a assinatura ou não do Tratado. Com o avanço narrativo, a discussão verbal e ponderadora logo dá lugar ao cansaço da impaciência, desaguando para um combate literal (que às vezes desgasta a vista com a incessante preferência por cenas de pancadaria em câmera super tremida para mascarar possíveis desajustes). É aí que brota o diálogo estreito com a atual questão política brasileira, fazendo desse novo capítulo do Universo Marvel o primeiro a ter um abraço apertado com a realidade – principalmente por aqui.

O grande barato de Guerra Civil é a total adaptabilidade do filme a múltiplas ideologias, condensadas em um jogo quase maniqueísta: não fosse o privilégio da plateia de, diferente dos personagens, possuir uma visão panorâmica de fora, uma bipolaridade do público seria perfeitamente previsível, com iguais chances de seguir a mesma postura defensiva (para não dizer “fanática”) de alguns integrantes da trama. E, convenhamos, é exatamente isso que se vê no nosso cenário aqui fora. É elucidativo observar como um grupo, ainda que com a melhor das intenções, pode defender um posicionamento errado unicamente por não estar aberto à autocontestação e ao benefício da dúvida, querendo deslegitimar um movimento não necessariamente contrário, mas diverso ao seu. A alusão fica mais aplicável quando o time Homem de Ferro não só se recusa a questionar (o que os levaria à descoberta de uma trama manipuladora), como ainda impõe ao time Capitão América que siga os mesmos passos que os seus. E a entrada do Homem-Aranha em uma causa que não o representa, seduzido por recompensas valiosas e a possibilidade de um status perante um figurão, só torna essa potencial referência mais preciosa.

A analogia que Capitão América: Guerra Civil propõe – e os diretores Joe e Anthony Russo já declararam que tem, sim, pequenas inspirações em fatos da crise política brasileira – não é um encaixe perfeito, tampouco é um manual que orienta migrar para uma ou outra ideologia. Ela é, antes de tudo, uma conversa amigável que sugere não só a continuidade do diálogo, mas também um comportamento que prevê que por mais convicto que se esteja dentro de uma questão, você pode, sempre, estar errado. Pode, sim, estar imune à realidade – mesmo que esteja disposto a vê-la. A alteração crítica de foco do Homem de Ferro no que antecede o terceiro ato do longa é a melhor prova disso, mesmo que por conveniência o roteiro tenha deixado para o final um esvaziamento da racionalidade de Tony Stark (que vem sendo a marca mais profunda do personagem).

No que tange ao Universo nas telas, Guerra Civil efetivou uma evolução que O Soldado Invernal só foi capaz de propôr (já que, afinal, praticamente nada mudara no status quo da dinâmica). Existe, a partir de agora, uma diferença honesta na relação entre os protagonistas, o que pode encabeçar novas tangentes de motivação tanto nos longas solo quanto nas duas partes de Os Vingadores: Guerra Infinita. E o fez, acima de tudo, sem sugar ou expurgar uma vírgula sequer das características mais nobres dos demais (e numerosos) heróis em cena; uma ladeira que tantas outras produções insistem em descer abaixo.

——————————————

Captain America: Civil War (EUA, 2015). Ação. Marvel Studios.
Direção: Joe e Anthony Russo
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlet Johansson, Tom Holland, Paul Bettany

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Críticas, HQ's