CRÍTICA | Capitão Phillips

Críticas
// 18/11/2013

Lançado no Brasil na última semana, Capitão Phillips é o tipo de produção que se vale de seu protagonista, apesar dos acertos durante sua trajetória. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Capitão Phillips
por Heitor de Tani 

Famoso por filmes como Supremacia Bourne e Ultimato Bourne, o diretor Paul Greengrass retorna aos cinemas com um thriller baseado em uma história verídica. Capitão Phillips começa com o personagem que dá título ao longa, vivido por Tom Hanks, se preparando para mais outro dia de trabalho. Em casa, ele é apenas Richard Phillips, um pai de família que conversa com a esposa sobre os filhos que viraram adultos e estão deixando o lar. Ao chegar ao porto, ele é o comandante de uma tripulação que irá a bordo no navio cargueiro Maersk Alabama.

Enquanto isso, no continente africano, os Somalis se apressam para embarcar também. Logo de início, fica evidente o contraste entre estes dois povos tão distantes socioeconomicamente, algo que será explorado em todo o filme. Ao invés de um porto, há apenas uma praia e algumas lanchas. Os piratas Somalis são caracterizados pela pobreza, pela desorganização e muita gritaria (vivem mastigando uma planta conhecida como ‘khat’, que os deixa pilhados). Entre eles, se destaca a figura de Muse (interpretado por Barkhad Abdi, estreante como ator), que lidera um pequeno grupo local.

Após estabelecer este cenário, o suspense entra em cena, e cada cena parece se prolongar até que seja extraído o máximo de tensão. De um lado, a lenta aproximação dos piratas, do outro, a angústia dos tripulantes do Maersk Alabama ao perceberem que uma ameaça se aproxima. A montagem paralela é a tônica que irá ditar o ritmo do filme, sempre em sintonia com a trilha musical e com o uso de câmera na mão, construindo um thriller eficiente. Outro ponto que vale destacar é o modo como o roteiro explora a audácia dos marinheiros americanos, que se comunicam por meio de códigos que passam despercebidos tanto para os piratas Somalis quanto para o público, para posteriormente satisfazer somente estes últimos com cada peça de quebra-cabeça encaixada neste código.

O problema disso é que, a despeito de algumas tentativas de demonstrar o drama particular dos piratas somalis (sobretudo nos diálogos entre Phillips e Muse), estes acabam sendo retratados como ingênuos, brutos e até inferiores. Surge uma mensagem, involuntária ou não, de exaltação do imperialismo e do patriotismo estadunidenses. Isto pode ser maçante para um espectador brasileiro, mas é compreensível em se tratando de um filme de Paul Greengrass. O diretor britânico procura tocar em algumas feridas da recente história norte-americana para, consequentemente, atingir o público, como quando, por exemplo, Muse tenta tranquilizar os tripulantes dizendo que “não é da Al-Quaeda”. Vale lembrar também que, em 2006, Greengrass dirigiu Voo United 93, que retrata o evento das Torres Gêmeas do dia 11 de setembro de 2001.

Este problema é amenizado (ou, por que não, desviado) pela presença do capitão Phillips que, como bom protagonista, consegue centralizar o foco das cenas de tal maneira que se configura como contraponto a tal patriotismo. O sofrimento de Phillips é genuíno, mas os méritos não são tanto do roteiro, o qual é até por vezes meloso ao insistir no vínculo afetivo e familiar do Capitão Phillips, mas sim de Tom Hanks, cuja atuação é humana e convincente. A exemplo de filmes anteriores, ele mais uma vez se encaixa perfeitamente no papel de cidadão norte americano, fardado e bondoso, mas sem nunca cair na mesmice.

Há uma máxima do Cinema que diz que para um filme funcionar ele precisa apenas de boas cenas e de um bom protagonista. O filme em si não traz nada de novo, mas ele responde positivamente a estes dois requisitos. Pensando nisso, o título do filme é algo acertado, pois o personagem título é o que vale o ingresso da sessão.

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Captain Phillips (EUA, 2013). Drama. Universal Pictures.
Direção: Paul Greengrass
Elenco: Tom Hanks, Barkhad Abdi

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Críticas, Drama