CRÍTICA | Cinderela

Críticas
// 23/03/2015
cinderela

Um conto de fadas com um formato de história datado teria muito o que dar errado. Verdade. Mas Cinderela é a prova de como adaptações a textos tão conhecidos são bem-vindas para manter uma memória afetiva atual.

O enredo de Cinderela certamente está entre os mais conhecidos e populares do mundo. Com séculos de existência e origem incerta, o conto da gata borralheira ainda é reconhecido pelo trabalho em torno de arquétipos e talvez sobreviva até os dias atuais por contar com uma narrativa suficientemente bem resolvida, independente dos pormenores que separam suas diferentes versões e releituras. Essa característica, aliás, é um dos principais fatores responsáveis pelo sucesso desta nova versão produzida pelos estúdios Disney: a abordagem particular do roteirista Chris Weitz, colocada em prática pelo cineasta Kenneth Branagh, não comete o erro de meramente remontar adaptações anteriores e é bastante coerente com o tipo de linguagem e sofisticação narrativa com que o público atual de Cinema está habituado.

Acompanhando a protagonista desde a infância, o filme dedica tempo e atenção consideráveis a todas as etapas do processo que transformaram a criança alegre de outrora em uma jovem órfã explorada pela madrasta abusiva (Cate Blanchett) e pelas invejosas irmãs postiças, Drisella (Sophie McShera) e Anastasia (Holliday Grainger). Assim, mesmo que a maioria de nós já saiba o que as novas integrantes da família representarão para a trajetória de Ella (Lily James), Weitz e Branagh introduzem o trio de mulheres como figuras apenas incômodas e suspeitas em um primeiro momento para, gradualmente, expor suas verdadeiras intenções e naturezas – e a quebra de expectativa durante certos diálogos estrelados pela madrasta (como aqueles referentes a uma troca de quartos ou à morte do pai de Ella), ocasiões em que somos inicialmente ludibriados com falsas insinuações sobre uma suposta benevolência da antagonista, é perfeita nesse sentido. Para completar, essa construção desapressada e gradativa faz com que a dinâmica de trabalhos forçados a que a protagonista é submetida soe não como uma situação exatamente premeditada, mas como uma consequência natural das circunstâncias daquele contexto e das personalidades dos indivíduos envolvidos.

Cate Blanchett, como não poderia deixar de ser, faz um trabalho preciso e eficiente como a mulher cruel e desprezível que a madrasta aos poucos se revela, entregando-se a excessos em ocasiões extremamente pontuais e toleráveis. Já Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones) transforma o príncipe Kit em um sujeito adequadamente bravo, vistoso e generoso, ao passo que Helena Bonham Carter claramente se diverte em sua breve participação na pele da entusiasmada e estabanada fada madrinha, que viabiliza a ida de Cinderela ao grande baile em que o príncipe deverá escolher uma felizarda para desposar e se tornar a mais nova princesa do reino. Por fim, a pouco conhecida Lily James surge como um grande acerto do elenco ao transformar Ella em uma garota que, assim como a também princesa Giselle de Encantada ou a protagonista da série Unbreakable Kimmy Schmidt, exibe um positivismo aparentemente difícil de abalar, esquivando-se com admirável facilidade e humildade de pensamentos e sentimentos negativos, mesmo quando estes surgem de forma intensa ou em momentos críticos.

Sem abrir mão da dose esperada e necessária de referências à animação clássica de 1950, Chris Weitz toma algumas liberdades e promove pequenas mudanças que, sem descaracterizar o conto original, tornam a cadeia de eventos da narrativa mais coesa e bem amarrada. Além disso, o roteirista não se intimida em incluir eventos mais carregados do ponto de vista dramático – uma pequena ousadia, para uma produção voltada para o público infantil, que Kenneth Branagh, cineasta shakespeariano por formação, abraça sem receios, permitindo que os personagens atravessem suas aflições particulares com a intensidade adequada a cada caso.

Tecnicamente, Cinderela é irrepreensível e digno de aplausos: os efeitos especiais são muitíssimo eficientes na maioria das ocasiões, especialmente aqueles usados na concepção do vilarejo ou das demais paisagens majestosas em que a história é ambientada. Entretanto, ainda que o design de produção seja de encher os olhos, o que chama a atenção de fato são os figurinos de Sandy Powell: da sobriedade sofisticada dos trajes da madrasta ao estonteante vestido de baile azul de Cinderela (reparem a leveza quase etérea do caimento, especialmente quando a personagem surge correndo), as peças exibem um visual ao mesmo tempo elegante, vibrante e burlesco, bastante coerente com a atmosfera da produção.

Antecedido no cinema por um curta moderadamente divertido e absolutamente despretensioso estrelado pelos personagens do megassucesso Frozen – Uma Aventura Congelante, Cinderela é uma adaptação admirável e encantadora cuja produção se justifica pela abordagem ligeiramente mais madura e adulta, que, além de muitíssimo bem realizada, não sacrifica o caráter fabulesco intrínseco ao material original, propondo-se a agradar públicos com as mais diversas exigências.


Cinderella (EUA, 2015). Fantasia. Disney.
Direção:
Kenneth Branagh
Elenco:
Lily James, Cate Blanchett, Richard Madden, Helena Bonham Carter

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Categorias
Críticas, Fantasia