CRÍTICA | Cinquenta Tons de Cinza

Críticas
// 12/02/2015
50-tons-de-cinza

Poucas coisas nesse mundo são mais apropriadas e fazem mais sentido do que Cinquenta Tons de Cinza ter se originado como uma fanfic de Crepúsculo. Baseado no livro escrito por uma fã de Edward e Bella, esta adaptação cinematográfica apresenta ao público um romance monotônico que em várias ocasiões remete ao casal concebido por Stephenie Meyer, desde as trocas cafonas de juras de amor, passando pela natureza doentia da relação e culminando no comportamento sonso e autodestrutivo de sua protagonista.

Adaptado para o cinema por Kelly Marcel a partir do livro homônimo de E.L. James, o filme mostra como a atração mútua entre a estudante de literatura Anastasia Steele (Dakota Johnson) e o bilionário filantropo Christian Grey (Jamie Dornan) se converte em cento e vinte e cinco minutos de aborrecimento para o espectador. Avesso a relacionamentos convencionais e moderadamente misterioso, o Sr. Grey logo surge com uma proposta inusitada e ousada para a jovem Ana: estabelecendo um respaldo jurídico para a realização das fantasias sexuais do sujeito, a mulher deve assinar um contrato que a coloca no papel submisso de uma relação de dominação, transformando-a em uma espécie de escrava sexual do ricaço. Entretanto, quando a garota hesita diante das condições do acordo e confessa ainda ser virgem, o homem opta por baixar a guarda, reduzir o ritmo e introduzi-la no mundo do sexo e do sadomasoquismo gradualmente, reconfigurando a dinâmica do casal de um modo que nenhum dos dois esperava.

Rodeado, já de antemão, por discussões a respeito da forma como a relação íntima dos personagens reflete os papéis sociais de homens e mulheres, Cinquenta Tons de Cinza até se esforça para não botar mais lenha na fogueira e tenta se esquivar do suposto teor misógino do material original – e também pudera, considerando que a produção é escrita, adaptada, dirigida e protagonizada por mulheres, algo significativo e pouquíssimo usual. Vivida pela pouco conhecida e não muito talentosa Dakota Johnson, Anastasia é uma mulher modesta e insegura que, seduzida pelo charme de Christian, torna-se demasiadamente próxima do homem em busca de algo que ele não está apto ou disposto a oferecer, sendo pouco a pouco arrastada na direção do “salão de jogos” (apelido dado ao quarto dos sonhos de praticantes de BDSM) do luxuoso apartamento de Grey – e nem mesmo um conselho sincero da melhor amiga (“Faça as coisas no seu próprio tempo”), na fala mais lúcida de toda a projeção, parece surtir grandes efeitos no comportamento de Ana.

Da mesma forma, embora a protagonista imponha certos limites, tente eventualmente assumir o controle da relação e até mesmo ironize certas posturas risíveis de Christian (como no momento em que o sujeito assume de vez sua persona Edward Cullen e diz que os dois “precisam se afastar” e “não devem mais se ver”, apenas para contradizer a si próprio algumas horas mais tarde), a personagem de Johnson também toma decisões incompreensíveis que inevitavelmente a desvalorizam como pessoa e mulher: reunida com o Sr. Grey para discutir cláusulas específicas do contrato, Ana levanta questionamentos extremamente pontuais, geralmente relacionadas a práticas sexuais específicas, mas permite que sejam mantidas exigências absurdas, que diminuem substancialmente suas liberdades como indivíduo (o documento dita até mesmo os hábitos alimentares que devem ser adotados pela contratada). Por fim, a diretora Sam Taylor-Johnson (O Garoto de Liverpool) pelo menos acerta ao fazer com que as relações sexuais dos personagens sejam ou pareçam consensuais – algo que, aparentemente, nem sempre ocorria no livro.

Aliás, as tão aguardadas cenas de sexo são uma grande decepção, conduzidas pela cineasta de forma burocrática, convencional e surpreendentemente recatada, considerando o teor do material em que o filme é baseado (os esforços para evitar que a genitália dos atores fique à mostra, por exemplo, chegam a ser uma distração). E já que nem o conteúdo erótico – a grande atração do livro – recebe um tratamento apropriado, resta à roteirista Kelly Marcel tentar transformar o arco dramático do casal em algo pertinente e interessante – e, assim, a narrativa se torna um esforço imenso, tolo e patético de estudar seus personagens vazios e desinteressantes. Nessas circunstâncias, Anastasia se estabelece como uma figura ingênua, iludida e autodestrutiva que, cega de amor, abre espaço para que um abuso absolutamente desnecessário substitua um diálogo franco e esclarecedor – e seu maior pecado é, na realidade, projetar a responsabilidade por sua felicidade na figura de Christian e insistir em um relacionamento explicitamente problemático.



A diretora 
pelo menos acerta ao fazer com que as relações sexuais dos personagens sejam ou pareçam consensuais.

 



O que nos leva à construção do Sr. Grey, uma das peças-chave do fracasso do filme. Além de plantar pistas que não levam a lugar algum (por que ele evita sistematicamente sorrir?), o roteiro sugere vários conflitos internos do personagem que jamais são explorados com o devido cuidado, como sua aversão a relacionamentos ou a forma como a companhia de Anastasia estremece essa postura. Assim, embora o filme até tente transformá-lo em uma figura atraente (bonito, sarado, charmoso, bom de cama, rico, educado, atencioso, filantropo), Grey se estabelece como um canalha misógino, que verbaliza em várias oportunidades sua natureza possessiva (“Você é minha!”) e não se intimida em tentar comprar as pessoas com sua riqueza ou brincar com os sentimentos de terceiros em prol de seus caprichos particulares. Por fim, Cinquenta Tons de Cinza ainda peca por fazer um desnecessário e desleal juízo de valor ao estreitar as fronteiras entre o BDSM e comportamentos abusivos – e embora essa seja uma prática sexual controversa, tudo leva a crer que se trata de uma atividade perfeitamente aceitável caso executada com segurança e, especialmente, de forma consensual.

Povoado por personagens secundários com pouca ou nenhuma função, Cinquenta Tons de Cinza conta com um desenvolvimento lento, frouxo e repetitivo que, por melhor que fosse, não resistiria aos catastróficos 10 minutos finais, quando um esboço vagabundo de clímax dramático abre caminho para um desfecho vergonhoso cuja preguiça, embora imensa e assustadora, ainda assim não supera a nossa pelas duas horas desperdiçadas.

—————————————–

Fifty Shades of Grey (EUA, 2015). Romance. Universal Pictures.
Direção: Sam Taylor-Johnson
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eloise Mumford, Victor Rasuk, Jennifer Ehle, Luke Grimes, Rita Ora e Marcia Gay Harden

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Romance