CRÍTICA | Círculo de Fogo

Ação
// 08/08/2013

Com uma produção de efeitos visuais soberba, Círculo de Fogo demonstra que um filme banal na mão de um bom diretor pode acabar gerando um produto incrível. Até porque um filme ruim de Guilhermo Del Toro ainda assim é um bom filme.

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Círculo de Fogo
por Arthur Melo

E quando um tipo de filme esgota suas possibilidades de inovação? E quando tudo o que vimos já corresponde ao que continuaremos vendo por bastante tempo até que o Cinema tenha algo novo a acrescentar em um improvável, distante e indecifrável surto de originalidade? Como se sustentar e manter o ritmo do interesse do público até lá? Recorrer ao padrão, apostar na qualidade visual e utilizar uma trama divertida e com uma história sem furos ajuda. Simples, mas que por algum motivo é pouco usual. Em Círculo de Fogo, o diretor Guilhermo Del Toro relembra que a tal qualidade visual não é só bons efeitos visuais, mas boas escolhas, e que não é preciso que uma história queira discutir temas alheios e diversos para que tenha seu valor.

O filme se passa alguns anos adiante, quando a fenda entre as placas tectônicas do oceano Pacífico se descobre um portal por onde monstros de um ponto afastado do universo passam para chegar até o nosso planeta e causar destruição. Após sofrer com os danos, os humanos aprendem a revidar e criam os chamados Jaegers, robôs gigantes controlados por dois operadores conectados mentalmente entre si dentro da máquina, comandando-a através de movimentos realizados em parceria. Mas logo percebe-se que a frequência e intensidade dos ataques dos Kaijus, como são chamados os monstros, aumentam e que uma mudança nos planos precisa ser elaborada.

Antes que se chegue ao ponto central que engendra o impacto do filme – sua técnica – Círculo de Fogo é um longa que faz uso das populares “sacadas”. Uma ideia simples semeada no seu conceito, uma decisão acertada para a sua concepção e alguns joguetes bem humorados – não confundir com alívios cômicos – que revelam o potencial do filme par entreter. Apesar de a história se passar alguns poucos anos à frente dos dias atuais e do notável desenvolvimento tecnológico presente no acervo e nas operações de combate, houve a percepção de que o mundo, em seu contexto geral, devesse permanecer praticamente como está hoje, respeitando o quão improvável seria que a evolução científica pudesse ocorrer dentro do cotidiano nas cidades, mergulhadas em ataques surpresa mês sim, mês não. Bastante plausível; uma atenção que, em uma mente fraca, passaria despercebida e cairia no óbvio apelo futurista. Em contrapartida, os kaijus se tornam matéria de tráfico no mercado negro, estruturas de ambientes e peças de pesquisa, estudo e objetos de colossais museus, apontando o modo mais coerente de como o homem agiria numa hipótese desses fatos saírem da ficção.

Lógico que o sustento de Círculo de Fogo, tendo já acertado em sua ideia, está nas batalhas travadas cena após cena. Não é nem um pouco abominável que, ao assistir ao trailer e conferir o projeto do filme, não se fizesse uma comparação óbvia com Transformers. O receio é previsível. Afinal, ainda estamos falando de robôs gigantes digladiando-se em meio a megalópoles. Mas a infinidade de aspectos diferentes entre as máquinas de Michael Bay e as de Del Toro é uma pílula de alívio. Em Círculo de Fogo, enquadramentos, iluminação e movimentos são perfeitos. Não há sequer um momento em que se torne difícil saber o que ocorre em cena. Del Toro opta por tomadas abertas com grande profundidade de campo, expandindo não só o número de elementos dispostos em tela, mas também a potência do 3D, que funciona maravilhosamente bem, respeitando e exemplificando como o formato deveria funcionar como linguagem cinematográfica e não como um mero disparate visual. As sequências dentro dos hangares de operação e o embate em Hong Kong, no qual a máquina Gipsy Danger protagoniza a melhor batalha do filme com um navio cargueiro em mãos como arma, expõem que tipo de filme Círculo de Fogo quer ser. Não há uma falha nos efeitos visuais. Seu funcionamento é tão dinâmico que em cinco minutos de filme já era possível notar como O Homem de Aço foi rapidamente superado nesse quesito. E é nos momentos em que os robôs precisam interagir mais com o ambiente do que com os monstros que se percebe isso – Gipsy Danger andando por Hong Kong à procura de um dos Kaijus é o melhor exemplo disso.

Sobra para o casal protagonista a tarefa de conduzir a núcleo humano. E é nesse aspecto que surge um leve tropeço na escolha de Charlie Hunnam, fraco em expressividade, contrabalanceado por Rinko Kikuchi, que até lida bem com as necessidades da personagem. Efeito similar acontece com a comicidade econômica de Charlie Day (que por surpresa acerta muito bem o ponto) e o overacting de Burn Gorman (o Mr. Trask da série Revenge). E, claro, a grata presença de Ron Perlman, o Hellboy de Del Toro em uma das supracitadas sacadas do diretor.

Círculo de Fogo é, em tese e prática, tudo aquilo que Transformers deveria ser: uma produção unicamente voltada para o entretenimento, mas com uma história sem tantos furos, personagens mais carismáticos, zero apelo ao erotismo e, a chave para esse tipo de projeto, sequências de ação em que a visão, seja distanciada ou aproximada, não se torne um imenso emaranhado de fios e lataria que procura ocultar as falhas do storyboard.

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Pacific Rim (EUA, 2013). Ação. Ficção Científica. Warner Bros. Pictures.
Direção: Guilhermo Del Toro
Elenco: Charlie Hunnam, Charlie Day, Idris Elba.

 

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