CRÍTICA: Comer, Rezar, Amar

Críticas
// 30/09/2010

Julia Roberts volta como protagonista na adaptação do best-seller Comer, Rezar e Amar, que narra a viagem real de uma mulher de meia idade em busca de autodescobrimento.

Com um ritmo lento e centenas de erros que só dificultam a aceitação, o filme pode desapontar até mesmo aqueles que tinham algum interesse pelo livro original. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Comer, Rezar e Amar
por Eliezer Carneiro

Primeiramente, é necessário mencionar que a ida ao cinema não produzia o menor efeito, tendo como base o conhecido sobre Comer, Rezar, Amar. Se isso é bom ou ruim não vem ao caso, mas não havia, de fato, expectativas.  É também necessário explicitar sobre a tarefa árdua que é tratar do longa. Não há muitos meios para se falar de um filme muito fraco. Geralmente, a crítica tende em acrescentar pouco acerca de um longa cuja experiência é desinteressante. Normalmente a equação é bem simples: filme neutro = critica sem sentido de existência (um carma). Mas criticar é necessário.

Para os desavisados, Comer, Reza e Amar (Eat, Pray, Love) é baseado no best-seller homônimo escrito pela americana Elizabeth Gilbert. Segundo a própria autora, o livro é baseado em fatos reais e experiências que aconteceram com ela. E, como acontece com todo best-seller, não demora muito e já se cria planos para lucrar com a história do produto em outras mídias. É interessante para os investidores porque um filme adaptado, além de já ter um público alvo, tem ao alcance aqueles que já folhearam suas páginas.

A história foca nos três verbos do título e a relação deles com a realização pessoal da personagem principal. Liz Gilbert (Julia Roberts) é uma mulher americana de meia idade com problemas no casamento e que resolve viajar o mundo em busca de autoconhecimento.  Nada de novo, para variar, e o filme tem essa consciência. Sabe, portanto, que não prima pela originalidade ou por trazer uma nova proposta, então procura focar na sua narrativa.

Depois de conhecermos Liz e as suas crises existenciais, a mesma decide viajar durante um ano, começando pela Itália. E eis o constrangimento proporcionado pela vasta quantidade de clichês. Estejam eles presentes ou não na obra que originou, a desculpa para mantê-los (caso não os tenham criados) é digna de repudio graças a forma ridícula com que o país é apontado. Surge em tela um retrato extremamente exagerado acerca de italianos, extravagantes, berrantes a cada diálogo, gesticuladores, mães dominadoras e pessoas comendo sorvete, pizza e massas em pontos turísticos. Em um contexto narrativo no qual o longa poderia facilmente usar destas insinuações deturpadoras para esclarecer que aquilo não passa unicamente de um filme, prefere dar a estas qualidades o título de reais, uma vez que o uso do “baseado em fatos reais” vende mais e, nesse espaço, o clichê deixa de ser uma opção estética pra ser apenas agressivo.

A conjugação do verbo “rezar” coube à Índia – numa atribuição óbvia. Reflitamos. O ocidente sempre olhou para o oriente como um local que, em certos espaços específicos, vive no atraso e na irracionalidade. O primeiro jamais se entusiasmou tanto com o espiritualismo do oriente. Pelo contrário, entregue ao que chama de razão, sempre procurou a espiritualidade como forma de curar a si mesmo, e não como um caminho de culto a divindades ou de agradecimento por vida, o foco de tais orientais. Por não entender , a personagem tem dificuldades com a medição, um ponto positivo (dentre não tantos) que une uma alfinetada embutida em cenas de humor afiado.

O amor se dá em em Bali, onde Liz tenta aprender a tal sentimento e se entregar a ele. Por toda a narrativa de total desestímulo ao amor, não haveria forma mais precisa de dar início a um terceiro ato para caracterizar, de fato, uma quase comédia romântica. O latin lover brasileiro representado pelo espanhol Javier Bardem tem, como única adição válida, protagonizar ao lado de Roberts as mais belas tomadas com Bali ao fundo.

Comer, Rezar e Amar tem um ritmo lento. Sua cenas iniciais até instigam e criam interesse com os conflitos e o divórcio (que parece estar em moda na cultura americana) que dá o pontapé para a viagem de Liz – lástima, não foi melhor explorado no filme. No fim, o produto parece não sair muito diferente do gosto do provável consumidor alvo. O problema, entretanto, está quando o espectador não faz parte desse tal alvo e Comer, Rezar e Amar não mostra outros atrativos para agradar além daqueles que se pensaram a princípio.

Eat, Pray, Love (EUA, 2010). Drama. Sony Pictures.
Direção: Ryan Murphy
Elenco: Javier Bardem, Julia Roberts, Billy Crudup

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Categorias
Críticas, Drama