CRÍTICA | Como Treinar o Seu Dragão 2

Animações
// 17/06/2014

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Uma agradável surpresa é perceber que Como Treinar o Seu Dragão 2 não segue o caminho dos demais longas animados da DreamWorks nos últimos anos de caírem severamente na qualidade na sua continuação. Ainda que não tão espetacular quanto o primeiro, a animação tem seus bons atributos e mantém a ambição da série.

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Como Treinar o Seu Dragão 2
por Eduardo Monteiro

“É por isso que nunca me casei. Por isso e por outra coisinha”. Quando Bocão (Craig Ferguson) faz essa colocação a certa altura de Como Treinar o Seu Dragão 2, fui imediatamente transportado para os minutos iniciais do filme anterior, quando o próprio personagem recomendava que Soluço (Jay Baruchel) “parasse de tentar ser algo que não era” – conselho que pode ou não ter raízes em experiências pessoais de seu autor e denota o carinho que este nutre pelo garoto que viu crescer. Por tudo isso, não seria uma extrapolação muito grande ou absurda admitir a homossexualidade de Bocão como uma hipótese válida e plausível, especialmente considerando que estamos falando de uma obra que defende e valoriza a individualidade (não confundir com individualismo) e contesta a intolerância em relação a tudo o que é considerado diferente – afinal, além de acompanhar de perto o sofrimento de um jovem incapaz de cumprir as expectativas e lidar com a consequente decepção de seu pai tradicionalista, o primeiro filme também era povoado por personagens que, seguindo cegamente costumes estabelecidos por seus antepassados, hostilizaram e perseguiram incessantemente uma população até descobrir que esta era apenas incompreendida e injustiçada.

Mas essas entrelinhas, naturalmente, são apenas uma pequena fração de tudo o que a franquia Como Treinar o Seu Dragão tem a oferecer e que a torna uma empreitada tão interessante, divertida e até mesmo ambiciosa. Dirigido e escrito novamente por Dean DeBlois com base na série de livros de Cressida Cowell, esta continuação avança alguns anos e nos leva a uma Berk mais colorida, harmoniosa e, sobretudo, amplamente adaptada à presença de dragões, que redefiniram a rotina da ilha. Porém, mesmo com tudo isso, Soluço continua se sentindo um peixe fora d’água na vila: agora um jovem adulto aventureiro, o rapaz hesita perante a ideia de ser preparado para suceder seu pai na liderança da comunidade e passa horas sobrevoando as redondezas da ilha no dorso do fiel companheiro Banguela em busca de respostas para sua crise existencial. Durante um desses voos exploratórios, Soluço acaba descobrindo que um homem misterioso chamado Drago Sanguebravo (Djimon Hounsou) vem reunindo um exército de dragões com intenções certamente escusas – e, pouco tempo depois, o rapaz é levado a conhecer um santuário secreto de dragões, mantido pela cuidadora Valka (Cate Blanchett) e ameaçado pelos planos do vilão.

Não é uma premissa das mais originais (aliás, lembra um tanto a do recente Rio 2), mas é suficiente para que DeBlois envolva o público e o conduza com sensibilidade pelo dramas particulares dos personagens. Apostando em uma abordagem um pouco mais adulta e um atmosfera um pouco mais sombria que a do filme anterior (com destaque para a sequência que acompanha um voo de Soluço e Banguela acima das nuvens), Como Treinar o Seu Dragão 2 submete seu protagonista a riscos, descobertas, perdas e reencontros que desafiam sua coragem e sua estabilidade a todo momento, transformando o arco do personagem em uma natural e esperada jornada de amadurecimento. Da mesma forma, o roteiro volta a oferecer oportunidades dramáticas marcantes até mesmo ao robusto e aparentemente durão Stoico (Gerard Butler), que se firma como um dos personagens mais interessantes da série. Nesse sentido, o filme é imensamente beneficiado pela surpreendente expressividade alcançada pelos animadores da DreamWorks Animation, que abrem mão das famosas caretas que estigmatizaram o estúdio de animação por anos e alcançam uma gama admirável de emoções através de pequenas e fluidas sutilezas.

Ainda mais merecedor de aplausos, vale apontar, é o trabalho de animação do dragão Banguela: com seus olhos enormes e cativantes, o Fúria-da-Noite volta a apresentar um comportamento adorável e travesso que mescla hábitos caninos e felinos (o que se aplica, de modo geral, a todos os pokémons dragões da produção), algo que naturalmente contribui para a forma como o público deve reagir à sua participação nos momentos de maior carga dramática. Felizmente, Como Treinar o Seu Dragão 2 não se rende à mania característica de várias animações de ampliar descontroladamente a galeria de personagens a cada continuação (A Era do Gelo que o diga), evitando assim que a narrativa dê atenção a subtramas irrelevantes e perca o foco. Para completar, trazendo mais uma vez o renomado diretor de fotografia Roger Deakins como consultor visual, a animação conta com um design de produção apenas competente, já que o santuário de dragões ou a praia em que parte da ação do terceiro ato se desenrola, por exemplo, não chegam a causar uma impressão muito forte.

Prejudicado pela antecipação ligeira e inoportuna de seu clímax (quando o filme parece caminhar para seu desfecho de fato, precisamos reunir forças para encarar mais uma batalha), Como Treinar o Seu Dragão 2 é uma produção que, embora levemente inferior ao longa original, continua a confirmar 2014 como um ano muito melhor para os fãs de animações do que o anterior. E que continue assim.

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How to Train Your Dragon 2 (EUA, 2014). Animação. DreamWorks.
Direção: Dean DeBlois
Elenco de dublagem: Gerard Butler, Jonah Hill, Jay Baruchel, Cate Blanchett, Kristen Wiig

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Animações, Críticas