CRÍTICA: Coração de Tinta

Aventura
// 24/12/2008

Amanhã é dia de Natal. Para aproveitar a mágica da data, alguns filmes resolveram adiantar a estréia que supostamente deveria ser na sexta-feira. Mas será que vale mesmo a pena sair de casa, do conforto do seu lar, largar os presentes e o restinho do peru da Ceia de Natal para ir até um shopping próximo assistir Coração de Tinta? Parece que não.

Coração de Tinta
por Breno Ribeiro – crítico e colunista

Dá pra contar nos dedos o número de filmes sérios e bons com a participação de Brendan Fraser. Protagonista de filmes que pecam pela artificialidade de seus roteiros, o ator, mesmo que tente, raramente consegue ultrapassar a barreira do ridículo imposta pelos papéis que interpreta. Não é diferente em seu novo filme, Coração de Tinta.

Como se a presença de Fraser já não fosse o prelúdio para um filme meia-boca, a premissa de Coração de Tinta desponta de vez para o fracasso. O longa narra a história de um homem que, ao ler livros em voz alta, dá vida a seus personagens e que, nove anos antes, despertou alguns personagens do livro “Coração de Tinta”, dentre eles o vilão Capricórnio, cujas intenções durante o filme nunca são claras, e acabou por enviar a esposa para dentro dele.

Não muito claras também são algumas passagens do projeto que peca, excessivamente ultrapassando a barreira do ridículo, em criar situações que, pretensiosamente inusitadas, tiram qualquer rastro de coerência que o filme poderia ter. Como explicar, por exemplo, que depois de nove anos procurando o último exemplar do livro o personagem de Fraser tenha, somente então, a idéia de procurar por seu autor? O personagem de Fraser só leu em voz alta pela primeira vez ao ter uma filha? A menina, aliás, escreveu um texto que, lido, durou mais do que cinco minutos em apenas um braço? Se a história de “Coração de Tinta” poderia ser deliberadamente mudada para que o Língua Encantada (infeliz tradução para Silvertongue) que a lesse fizesse o que bem entendesse, por que isso só foi usado ao final da projeção? São tantos furos e erros na trama que o filme acaba se tornando um teste de paciência abominável.

Outro teste de paciência é observar durante mais ou menos uma hora e meia de projeção atuações tão fracas. Ao contracenar entre si e ao serem obrigados a declamar frases e encenar diálogos ambos tão patéticos, os atores parecem se encolher e se deixar levar pela mediocridade do roteiro. Até mesmo os comumente bons Helen Mirren, Jim Broadbent e Andy Serkins se renderam ao lastimável roteiro, enquanto parecem ter vergonha de terem assinado um contrato desse tipo. E se essa foi a intenção, atuar tão bem quanto o roteiro que proferem, os atores estão, sem exceção, de parabéns.

Unindo o que pode haver de pior no cinema: premissa fraca, roteiro incoerente e atores claramente envergonhados de terem seus nomes ligados ao projeto, Coração de Tinta exemplifica ainda uma perfeita aula de como não se dirigir e montar um filme. Cortes secos, tremidas na tela que servem para ilustrar um determinado fenômeno, mas que não são usadas sempre que ele ocorre, dentre outros são fatores que provam a direção quase chorável de Iain Softley.

Mas nem tudo é estritamente péssimo no filme, há algo que se salva em meio a tantos erros: o personagem Dustfinger, de Paul Bettany. A dualidade de seu personagem (aparentemente o único escrito durante um banho de inspiração do roteirista David Lindsay-Abaire) soa perfeitamente bem, sua história é surpreendente quando posta na mesa junto às outras e o crescendo imposto por essas características caiu bem em Bettany, que soube guiar praticamente todo o filme. Embora com atos ignorantes e falas nada encantadoras, o personagem surge como a melhor coisa do filme. Não que isso deve parecer um elogio quando se fala de longas do tipo.

No todo, o filme pode acabar atraindo crianças e as fazendo gostar dele. Todos os elementos estão lá: personagens unilaterais, vilões megalomaníacos, um poder descoberto apenas no fim que salva tudo e acontecimentos que só servem para guiar o filme para o final esperado. Embora a idéia do projeto seja essa mesma, atrair as crianças, é realmente lamentável, em um ano que filmes infantis fizeram tanto sucesso entre adultos justamente por manter elementos agradáveis a ambos, que um longa seja infantil ao ponto de fazer dormir qualquer pessoa acima dos doze.


Inkheart (EUA, 2008). Fantasia. Imagem Filmes
Direção: Iain Softley
Elenco: Andy Serkis, Paul Bettany, Brendan Fraser, Helen Mirren, Jim Broadbent

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Aventura, Críticas, Fantasia