CRÍTICA | Corações Sujos

Críticas
// 16/08/2012

No fim da primeira metade do século 20, ter o coração sujo significava, para os japoneses, duvidar de características historicamente intrínsecas a sua terra de origem: a honra de seu povo e a imortalidade do Imperador, figura divinamente destinada a guiar o Japão. Mais do que apresentar a hesitação de um homem em aceitar essas verdades inquestionáveis, Corações Sujos transforma a questão em algo pessoal, quase íntimo, objetivando elementos como a lealdade à pátria (transformada em apoio cego, incondicional e até injustificado) que, a princípio, seriam absolutamente subjetivos.

Leia a crítica completa na sequência.

Corações Sujos
por Virgílio Souza

Escrito por David França Mendes com base no livro de Fernando Morais, o filme se passa em uma comunidade japonesa no interior de São Paulo. Meses após o fim da Segunda Grande Guerra, os imigrantes, que se recusam a acreditar na derrota japonesa no conflito, permanecem limitados por leis decretadas quando seu país ainda era inimigo e, por essa razão, são impedidos de promover reuniões, hastear bandeiras e ensinar a língua às crianças.

É nesse contexto que vive o fotógrafo Takahashi (Tsuyoshi Ihara), casado com a professora Miyuki (Takako Tokiwa). Movido pelas circunstâncias, ele se vê diante da obrigação moral de condenar à morte o traidor Aoki (Issamu Yazaki) – um “coração sujo” que havia colaborado com a polícia brasileira – e, assim, se depara com um conflito interno: cumprir seu dever sagrado ou evitar cair em desgraça por ter se tornado um matador e sacrificado o pai de Akemi (Celine Fukumoto), a aluna preferida de sua esposa?

Sem demonstrar pressa para estabelecer os vínculos entre as personagens, o diretor Vicente Amorim é competente ao ambientá-las em uma espécie de gueto, inicialmente observando-as de perto, por meio de frestas e com o grão grosso da fotografia noturna de Rodrigo Monte – preocupação que, a seguir, quando a comunidade se fecha ao mundo exterior, é sabiamente deixada de lado, abrindo margem a planos mais abertos, mas não menos sufocantes.

O arco de Takahashi segue essa mesma lógica visual: atordoado, o protagonista luta contra a própria consciência e, dúbio, é frequentemente filmado em planos turvos, desfocados (vale notar, no entanto, que o recurso constante ao rebuscamento visual do rack focus acaba empalidecendo seu sentido original), dando sinais da escalada do problema.

Elemento central da construção da personagem, a vergonha é fundamental também para o desenvolvimento do conflito que move a trama: Takahashi se apavora e cobre os olhos com as mãos quando se vê sujo de sangue, Miyuki esfrega o chão manchado de vermelho numa inútil tentativa de apagar o passado (e não por acaso repete o gesto em seguida, lavando desesperadamente as costas do marido quando ele à casa torna) e Mizoguchi (Ulisses Sakurai), o mais violento dos samurais-capangas do Coronel Watanabe (Eiji Okuda), corre ao se deparar com a viúva do homem que acabou de matar. Ainda mais simbólicos são os momentos em que a câmera parece se recusar a filmar a execução de determinadas personagens, desviando o foco no momento derradeiro, quando se conclui o Caminho do Samurai.

Embora fortemente marcado por sequências de violência, Corações Sujos tem como importante traço o romance entre Miyuki e Takahashi. Assim, é natural que a professora surja destacada dos demais, seja vestindo azul em meio a figuras pálidas, valendo-se de poucas falas em um universo de gritos e discursos enérgicos ouse portando como o elo que equilibra o protagonista (e, em certa medida, a comunidade) entre a harmonia tensa e a completa barbárie. Muito por essa razão, as cenas em que ela se deixa levar pelo inevitável desequilíbrio, se afastando da interpretação contida, são aquelas em que menos convence.

No limite, é a sensibilidade de Amorim em filmar as relações humanas que dá o tom do longa. Para além da habilidade em filmar as sequências mais intensas, como aquelas em que Takahashi persegue o comerciante Sasaki (Shun Sugata) e Watanabe (a melhor do longa), o diretor desvencilha-se de cisões mais sólidas entre vilões e mocinhos, dado que só há anti-heróis, mais anti que heróis, cada qual a seu modo. De maneira semelhante, a construção do desfecho é sólida e, turva como seu protagonista, encerra o romance com a melancolia própria do pós-guerra. Da guerra que levou amores e esperanças, condenando tantos à desonra. Da guerra interna que os japoneses travaram em terras brasileiras.

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Corações Sujos (Brasil, 2012). Drama.
Direção: Vicente Amorim
Elenco: Du Moscovis, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Tsuyoshi Ihara.

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Críticas, Drama, Nacional