CRÍTICA | Cosmópolis

Críticas
// 06/09/2012

Após brindar o público com um filme até “comportado” para os padrões do cineasta em Um Método Perigoso, David Cronenberg volta à carga em um novo trabalho de digestão trabalhosa. Mesmo abarrotado de reflexões sobre o mundo contemporâneo e as direções tomadas pelo capitalismo nas últimas duas décadas, Cosmópolis é mais Psicopata Americano que Wall Street.

 

Cosmópolis
Por Gabriel Costa 

No cartaz do filme, o nome do diretor é anunciado nas mesmas dimensões usadas para o do astro Robert Pattinson. O roteiro, embora baseado no livro homônimo de Don DeLillo, também é o primeiro escrito pelo próprio Cronenberg desde eXistenZ, de 1999. E o cunho pessoal evidenciado por esses fatos já dá a dica sobre o que vem a seguir. Isolamento, alienação, ambiguidade, transformações sociais, sexo e morte. Esses temas – ou ingredientes – estiveram de alguma forma presentes em praticamente todos os longas do diretor, mas fazia tempo que não eram reunidos de forma tão peculiar quanto em Cosmópolis. 

Não há exatamente uma trama sólida a ser a esmiuçada. O filme é basicamente uma série de encontros singulares do jovem executivo bilionário Eric Packer (Pattinson) com diversas figuras curiosas, a maioria dentro da própria limusine do ricaço, enquanto ele atravessa Manhattan para cortar o cabelo. As exceções recorrentes são a bela e também milionária Elise (Sarah Gadon), recém-casada com Packer, e o dedicado segurança Torval (Kevin Durand, da série Lost). Ao longo do trajeto, o protagonista vê sua fortuna ser ameaçada pela instabilidade da moeda chinesa, enquanto a jornada é dificultada pela presença de um presidente americano não especificado na cidade e pelos constantes protestos de um curioso grupo de manifestantes que utilizam ratos como símbolos ideológicos.

A luxuosíssima limusine de Packer é quase uma dimensão paralela à conturbada Nova York do lado de fora. Dentro dela, o magnata de 28 anos investe em bolsas de valores ao redor do mundo, trata de negócios com vários associados e funcionários, transa com a amante (em marcante participação de Juliette Binoche), bebe, faz suas necessidades e até mesmo passa por um check-up médico completo – com direito a exame de próstata. Pattinson mais uma vez prova que, vampiros cintilantes à parte, é um ator de respeito. Ao mesmo tempo em que mantém um temperamento frio e desconectado do “mundo real”, Packer cede constantemente a impulsos primais.

A expressão desdenhosa do personagem e os diálogos carregados – transcritos diretamente do livro de DeLillo –, somados aos ângulos oblíquos de câmera adotados dentro do carro, contribuem para criar uma atmosfera quase hipnotizante. As divagações sobre o capitalismo dos interlocutores do protagonista, embora interessantes, muitas vezes desempenham uma função semelhante à de um mantra no templo pagão que é a limusine. Conforme os esforços de Torval para garantir a segurança de Packer se provam cada vez mais inúteis, o próprio universo do filme adquire um caráter cada vez mais irreal, e adota abertamente características de sonho – ou pesadelo – à medida em que o desfecho se aproxima.

Mesmo contando com mais que um punhado de momentos divertidos, a obra está bem longe do que se poderia considerar uma experiência cinematográfica “confortável”. É um filme inquietante, instigante e francamente intransigente. Não há concessões para facilitar a compreensão do público, nem mesmo indicações de que haja um significado específico nos acontecimentos mostrados. Cosmópolis tem consistência de sobra. Mas o sabor talvez não seja dos mais doces.

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Cosmopolis (França/Canadá, 2012). Drama. RTP, Canal+
Direção: David Cronenberg
Elenco: Robert Pattinson, Sarah Gadon, Juliette Binoche

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Críticas, Drama