CRÍTICA: Cowboys & Aliens

Aventura
// 08/09/2011

Tentando inovar, a adaptação de Cowboys & Aliens chega com a promessa de trazer uma mistura inusitada de gêneros. No entanto, o resultado é uma grande desordem de mesmices que transforma a aventura em um filme para ver uma vez e esquecer.

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Cowboys & Aliens
por Arthur Melo

Ao nos atentarmos para a premissa, não é nem um pouco difícil supor que Cowboys & Aliens seria problemático. Tudo bem, a ideia de misturar ficção científica com faroeste é bacana. Mas é necessária uma breve pausa para observar quantos elementos discrepantes terão que ser fundidos em um único filme. E, a não ser que surja uma grande sacada de criatividade, é esperado (e comprovado) que a história tenha de recorrer a tantos clichês que sustentem um mínimo de identificação com os lastros de cada um dos gêneros mergulhados na mistureba.

O filme narra uma invasão alienígena em pleno Arizona de 1873, obrigando uma civilização nada evoluída tecnologicamente a entender o grande evento científico que estavam presenciando. Refeitos do susto, os habitantes do local precisam se unir para descobrir o esconderijo dos E.T.s na Terra e resgatar seus entes sequestrados por eles.

Não há nada em absoluto que deixe a história mais densa. Subtramas não existem e a única ramificação existente é aquela que responde às questões referentes ao personagem principal, elo de todo o filme. Fora isso, tudo o que é posto no roteiro faz parte de uma linha direta tão presa a uma fórmula que é possível enxergar as divisões dos atos no exato momento em que acontecem. E, apesar de uma abertura interessante por estar deslocada do enorme padrão formado por tantas histórias deste tipo, é desapontador ver que Roberto Orci e Alex Kurtzman não foram capazes de executar algo além de um prolongado eco cinematográfico. É possível enxergar que a dupla de roteiristas está muito mais próxima do grotesco Transformers 2 do que do excelente Star Trek, ambos trabalhos de Alex e Roberto.

O mais frustrante no processo criativo de Cowboys & Aliens é a proeza em reproduzir vinte e quatro falas clichês por segundo. Como se não bastasse a inquietante sequência de jogos de coincidência que punha personagens diante de acontecimentos na hora precisa, foi necessário que Daniel Craig recitasse incontáveis linhas manjadas. Então, após um surgimento abrupto da personagem de Olivia Wilde (sem nenhuma explicação coerente para estar ali, exatamente naquela cidade onde tudo aconteceria), o casal ainda protagoniza uma verdadeira troca de farpas boçal seguida de uma pancadaria digna de caricaturas de faroeste que os desenhos do Pica-Pau teimavam em repetir. Para piorar, Craig, apesar de confortável, repete o mesmo tipo de seu James Bond (só que sem toda aquela motivação compreensível), que aqui destoa da situação vulnerável do personagem.

A salada fica mais colorida quando entra em cena Harrison Ford, cujo personagem diminui sua energia na história à medida que ela avança. Quando já bem adiantada, um contraste entre o antes e o depois mostra claramente que seu Woodrow Dolarhyde se tornou apenas mais uma força braçal oriunda dos anos do ator como Indiana Jones. Resta para Sam Rockwell manter, enquanto possível, um mínimo de frescor como Doc. Claro que só até seu prazo de validade estar encerrado, já que qualquer personagem terá o seu momento para provar que sua participação pode e deve desembocar em ações previsíveis (sem exceções).

Perdido em seu próprio argumento, o filme já não consegue nem fornecer mecanismos inteligentes para seus personagens chegarem a uma solução, nem criar uma mistura homogênea dos gêneros. O que há é uma clara aventura faroeste com um mínimo de ficção científica. Os universos não se tocam e a estética do filme não se preocupa em diminuir esta lacuna da história. A trilha sonora de Harry Gregson-Williams é confortável, mas não se atreve a dar características de ficção e aventura, seja em conjunto ou contrastadas, quando um desses gêneros está predominando na tela. E a Direção de Arte, exceto pelo bom trabalho com o navio posto de cabeça para baixo, também não se propõe a colaborar com essa junção.

Cowboys & Aliens, mesmo farto de sequências de aventura bem arquitetadas, repete não só uma mas duas fórmulas. Ao se propor a criar uma interseção entre a aventura de faroeste com ficção científica, repete bobagens de ambas as temáticas e nem desenvolve algo de decente em pelo menos uma delas. Cai na exploração dos ícones de cada gênero para simular uma junção que não ocorre. De original, fica apenas o âmbito da ideia, que existe, mas não se desenvolve.

 

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Cowboys & Aliens (EUA, 2011). Aventura. Ficção Científica. Paramount Pictures.
Direção: Jon Favreau
Elenco: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde, Sam Rockwell
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