CRÍTICA: Deixa Ela Entrar

Críticas
// 04/10/2009

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Finalmente o aclamado e premiado filme sueco Deixa Ela Entrar estreia no Brasil. Em meio a uma onda de filmes sobre vampiros, a obra do diretor Tomas Alfredson, consegue não só renovar o gênero como dar profundidade e realismo. Para conferir a crítica completa clique em

Deixa Ela Entrar
por Henrique Chirichella

Denomina-se vampiro o ente mitológico que se alimenta de sangue humano. A temática, já bastante explorada na literatura e no próprio cinema, não só ganhou forças perante esta nova geração juvenil como, também, aparenta ter se estabilizado como um gênero. Entretanto, boa parte das produções decidem se dedicar exclusivamente a um tom fantasioso, caricato e até burlesco. Diante de blockbusters e milhões de dólares, surge uma pequena e sincera obra de arte do cinema sueco. Deixa ela Entrar é um exemplo de primor narrativo e técnico, se tornando, instantaneamente, referência ao chamado gênero vampiresco.

Dentre seus inúmeros méritos, o mais importante revela-se, justamente, o desenrolar da trama. A abordagem realista intensifica o fato de que a criatura representa apenas a base do filme, sendo que este procura desenvolver a transição para a adolescência e acaba sucedendo em tal devido a brilhante concepção psicológica de seus personagens. Na produção, acompanhamos o cotidiano de Oskar, um garoto de 12 anos com sérias dificuldades de adaptação no âmbito social da escola. O menino irá estabelecer um laço de amizade estreito com Eli, uma garota que acabou de se mudar para o apartamento vizinho. A única barreira na intensa relação revela-se que Eli, na verdade, é um vampiro. O que poderia ser apenas uma simples storyline converge-se para uma narrativa complexa, com a exposição de assuntos morais e éticos.

Baseado no livro de mesmo nome do escritor e roteirista sueco John Ajvide Lindqvist, a obra não foca, felizmente,apenas no fantástico, mas aborda, primordialmente, a exclusão de um indivíduo pela sociedade, seja no caso de Eli, por ser uma vampira, ou do próprio Oskar, por falta de adequação social. O bullying, aliás, nunca foi retratado de maneira tão intensa e naturalista quanto em Deixa ela Entrar, o que resulta em um jogo de caráter instigante por avaliar a vítima e o agressor. O belíssimo e assustador desfecho do filme será a concretização da temática, propondo questionamentos morais sobre as atitudes nem tão inocentes de indivíduos que deveriam apresentar a própria ingenuidade por serem, de fato, crianças. A perda da ingenuidade também será representada por outras abordagens, como a suposição de Eli não ter sexo definido, o que proporciona mais debates.

O desenvolvimento de temas tão complexos e delicados quase sempre exige a construção de atuações convincentes e adequadas ao perfil psicológico de seus personagens, principalmente ao termos crianças como protagonitas. E o diretor Tomas Alfredson não só sucede na criação de planos sutis, belos e elaborados, como comprova ser um talentoso diretor de atores, extraindo das crianças atuações poderosas, principalmente de Lina Leandersson que interpreta Eli, a qual convence da maneira mais realista possível em relação a sua condição natural.

É importante ressaltar, também, a precisão técnica que dialoga com os aspectos narrativos nos mais variados moldes. Na concepção de misé-en-scéne, ou seja, os elementos que compõe a imagem, notamos a predominação da cor branca na idealização da fotografia e da cenografia. A paisagem gélida do país nórdico reflete o estado de espírito dos personagens e protagonistas, preenchidos por uma frieza correspondente a neve que mancha a cidade. O efeito é poético e metafórico. A direção de Tomas Alfredson, por sua vez, é consistente e aposta em sequências ousadas, assustadoras e, antagonicamente, belas. É um tratamento primoroso no qual o fantástico revela-se como plausível.

Este realismo, certamente, é um dos grandes diferenciais de Deixa ela Entrar. Um dos maiores desafios da atividade cinematográfica, em muitos casos, é o seu poder de convição, algo que se complica ainda mais quando a temática retratada converge-se para o fantástico, para o surreal. Pois bem, esta pequena obra-prima do cinema sueco não só sucede ao imprimir uma realidade, como impressiona pelo seu naturalismo, pela abordagem de temas inquietantes e por um desenvolvimento dramático espetacular. E, sinceramente? Comparações com produções recentes e melosas são desnecessárias e incabíveis. Como já afirmado, Deixa ela Entrar consolida o gênero e nasce como referência instantânea no que se diz a narrativas vampirescas. Indispensável.

nota_9

Låt den rätte komma in (Suécia,2008) Terror, Drama, Suspense
Direção: Tomas Alfredson
Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl

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