CRÍTICA | Desejo e Reparação

Comédia
// 13/04/2009
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São raríssimas as adaptações as quais são transpostas da maneira mais fiel possível para as telas. Geralmente, muito se perde e a comparação entre a versão literária e cinematográfica se torna inevitável, sendo, esta última, inferior. Felizmente, Desejo e Reparação é uma destas exceções: uma produção adaptada de maneira perfeccionista.

Um dos primeiros impactos é conferir certa divergência – estética, principalmente – entre o primeiro filme do diretor Joe Wright. Enquanto em Orgulho e Preconceito se caracteriza pelo seu formato classicista hollywoodiano com algumas influências inglesas, aqui temos um filme essencialmente britânico. Wright ousa, abusa de planos subjetivos, concebendo uma direção corajosa. É um trabalho mais intimista, pessoal, assim como o próprio desenrolar narrativo.

Como na obra litetária, Desejo e Reparação é lento, o que, ao contrário do entediar, só contribui para manter a atenção do espectador. Uma característica bastante marcante do roteiro são os toques de humor britânico – presentes, em sua maioria, no primeiro ato – os quais são responsáveis por produzir risos na platéia. Neste primeiro ato, somos remetidos a obras como O Leopardo, de Visconti, e O Assassinato em Gosford Park, de Robert Altman: a crítica ao comportamento burguês é muito bem idealizada.

No segundo ato, há uma óbvia mudança de tom narrativo. Wright resolve se influenciar por melodramas clássicos da década de 30 e 40. Sim. Espere músicas melosas, e algo bastante açucarado. Entretanto, tal apelo soa plenamente plausível ao desfecho do filme. Aliás, talvez Desejo e Reparação seja uma das obras de maior potencial de demonstração de como os meios de comunicação são manipulativos. E digo: o desfecho é perturbador, produzindo efeito emocional semelhante ao do livro.

Outro elemento bastante característico é o forte estudo psicológico da protagonista, Briony. E é impressionante como três atrizes conseguem realizar um trabalho magistral de interpretação. Saoirse Ronan é uma revelação e não creio que outra atriz conseguiria transmitir sensações paradoxais como esta. Ao contrário das mais variadas críticas que recebeu, Romola Garai está muito bem. É difícil escolher a favorita, entretanto, acredito que escolheria Garai: a fragilidade da personagem é retratada com excelência. Vanessa Redgrave, por sua vez, contribui com sua presença imponente e poderosa. Todavia, o maior destaque de Desejo e Reparação é James McAvoy. Não hesito em afirmar que foi uma das melhores atuações do ano de 2007. É sincera, sólida, honesta, assim como o estado de espírito dele. Excelente mesmo. Uma surpresa, por sinal. Já Keira Knightley cumpre o seu papel e compõe uma bela dama deste período, nos remetendo a Vivian Leigh e Ingrid Bergman.

Elogiar os aspectos técnicos pode até soar redundância, entretanto trabalho de direção de arte e fotografia são impecáveis. A seqüência em Dunkirk é absolutamente de tirar o fôlego. Wright comprova ser habilidoso com a câmera e cria inúmeras passagens desconcertantes, emocionantes. É de encher os olhos.

Como fã do livro, é imprescindível dizer que poucas vezes terminei de assistir a um filme tão satisfeito. É uma transcrissão perfeita: a carga emocional do livro se mantém na produção. A premissa pode se assemelhar com melodramas mais clássicos, todavia, Desejo e Reparação é uma produção completamente divergente em sua concepção estética e narrativa. Como afirmado antes, é essencialmente britânico. Sua divulgação, de fato, nos remete a produções Hollywoodianas de alta escala, porém tenha em mente que se trata de algo bastante diferente. E, obviamente, isto o torna complexo demais para o público convencional. São características limitantes. Entretanto, não vejo isto como algo pejorativo pois, temos, aqui, um exemplar da mais pura expressão artística, se revelando reflexivo, perturbador, pessoal, que não necessita de premiações para se firmar. Wright comprova o seu talento com brilhantismo.

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Atonement (Reino Unido, França, 2008). Drama. Working Title
Direção: Joe Wright
Elenco: Vanessa Redgrave, James McAvoy, Saoirse Ronan, Keira Knightley

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Comédia, Drama